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O GRANDE EVANGELHO DE JOÃO

Volume IV

O GRANDE EVANGELHO DE JOÃO — 11 volumes

Recebido pela Voz Interna por Jacob Lorber

Traduzido por Yolanda Linau

Revisado por Paulo G. Juergensen

Direitos de tradução reservados

CopyrightbyYolanda Linau

UNIÃO NEO-TEOSÓFICA

www.neoteosofia.org.br

Edição 2014

ÍNDICE

  1. A VERDADEIRA SABEDORIA E A VENERAÇÃO VIVA DE DEUS 15

  2. O FUTURO DOS ARRABALDES DA PALESTINA 17

  3. O SENHOR E OS AFOGADOS 19

  4. DETERMINAÇÕES DO SENHOR EM RELAÇÃO AOS AFOGADOS 20

  5. DÚVIDAS DE CORNÉLIUS 21

  6. PERSAS E FARISEUS DISCUTEM O MILAGRE 23

  7. O SERVO INFIEL DE HELENA 24

  8. A AÇÃO DA ASSEMBLEIA 25

  9. OS ESPIÕES DE HERODES 26

  10. ZINKA SE DEFENDE E RELATA O FIM DE JOÃO BAPTISTA 28

  11. BOA RESPOSTA DE CIRENIUS 30

  12. PRISÃO DE JOÃO BAPTISTA. AS RELAÇÕES ENTRE HERODES E HERODÍADES 31

  13. O ASSASSÍNIO DE JOÃO BAPTISTA 32

  14. A PRISÃO DE JOÃO BAPTISTA 34

  15. O SUPOSTO PRIVILÉGIO DE HERODES 35

  16. AUTORIZAÇÃO FALSIFICADA 36

  17. POLÍTICA DOS TEMPLÁRIOS 36

  18. A DOUTRINA DO PROFETA GALILEU 38

  19. OPINIÃO DE ZINKA SOBRE A DOUTRINA 39

  20. ZINKA SE ADMIRA DO MILAGRE 40

  21. A SEDE DO SABER. A VERDADEIRA ARTE DO CANTO 41

  22. RAPHAEL, CANTOR 42

  23. O CONVÍVIO COM DEUS PELA VOZ INTERNA DO CORAÇÃO 44

  24. COMO SE DEVE CUIDAR DO CAMPO EMOTIVO 45

  25. INDAGAÇÕES DE ZINKA 46

  26. JESUS RESSUSCITA OS DOIS CADÁVERES. ZINKA O RECONHECE COMO SENHOR 47

  27. HISTÓRIA DAS DUAS MOÇAS 48

  28. CIRENIUS RECONHECE SUAS FILHAS 49

  29. MODÉSTIA DE ZINKA 50

  30. AÇÃO E VERBOSIDADE 51

  31. CONJETURAS DE HEBRAM E RISA 53

  32. UM ACONTECIMENTO DURANTE A ADOLESCÊNCIA DE JESUS 55

  33. CIRENIUS PROMETE DIVULGAR E DEFENDER A DOUTRINA 56

  34. A LEI IMPERATIVA E A LEI FACULTATIVA 58

  35. DIVERSIDADE DAS ALMAS DESTE ORBE 59

  36. TRATAMENTO DE MOLÉSTIAS PSÍQUICAS 60

  37. SANATÓRIOS E MÉDICOS PSIQUIATRAS 62

  38. A VERDADEIRA JUSTIÇA 63

  39. A ETERNA LEI DE AMOR AO PRÓXIMO 65

  40. O SONAMBULISMO 67

  41. PUREZA FÍSICA E PSÍQUICA. CURA À DISTÂNCIA 68

  42. UMA PROVA DE SONAMBULISMO 69

  43. O CIDADÃO ZOREL 70

  44. ZOREL EXTERNA SUAS IDEIAS SOBRE A PROPRIEDADE PARTICULAR 72

  45. ZOREL OUVE A VERDADE 72

  46. ZOREL PEDE LIVRE RETIRADA 73

  47. PREPARATIVOS PARA O TRATAMENTO SONAMBÚLICO 74

  48. CONFISSÃO DE ZOREL 75

  49. PURIFICAÇÃO DA ALMA DE ZOREL 76

  50. A ALMA PURIFICADA RECEBE VESTIMENTA 78

  51. O CORPO PSÍQUICO 79

  52. A ALMA DE ZOREL A CAMINHO DA RENÚNCIA 80

  53. ZOREL NO PARAÍSO 82

  54. RELAÇÃO ENTRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO 84

  55. ZOREL VISLUMBRA A CRIAÇÃO 86

  56. A NATUREZA DO HOMEM E SEU DESTINO CRIADOR 87

  57. OS PROCESSOS EVOLUTIVOS EM A NATUREZA 90

  58. NÃO JULGUEIS! 92

  59. FÉ MATERIALISTA DE ZOREL 94

  60. ZOREL CRITICA MORAL E EDUCAÇÃO 95

  61. ENGANOS MATERIALISTAS 97

  62. JUSTIFICÁVEL PROTEÇÃO DA PROPRIEDADE 99

  63. DESCENDÊNCIA DE ZOREL 101

  64. O PASSADO DE ZOREL COMO TRAFICANTE DE ESCRAVOS 103

  65. ZOREL TENTA JUSTIFICAR-SE 104

  66. OS ATOS DE DEFLORAÇÃO PRATICADOS POR ZOREL 105

  67. REVOLTA DE CIRENIUS PELOS CRIMES DE ZOREL 106

  68. JUSTIFICATIVAS DE ZOREL 108

  69. ZOREL, O MATRICIDA 109

  70. ZOREL JUSTIFICA SUAS TENDÊNCIAS 110

  71. CIRENIUS SE ADMIRA DA ASTÚCIA DE ZOREL 110

  72. JOÃO, BOM CONSELHEIRO 111

  73. A DUPLA VONTADE DO HOMEM 112

  74. A NATUREZA DE DEUS E SUA ENCARNAÇÃO 114

  75. CIRENIUS CUIDA DE ZOREL 116

  76. O SEGREDO DA VIDA ESPIRITUAL 117

  77. ZOREL DECIDE A REGENERAR-SE 119

  78. O CAMINHO PARA A VIDA ETERNA 120

  79. A POBREZA E O AMOR AO PRÓXIMO 122

  80. A VOLÚPIA 123

  81. A CARIDADE JUSTA 126

  82. ORGULHO E HUMILDADE 129

  83. EDUCAÇÃO PARA A HUMILDADE 131

  84. BOM PROPÓSITO DE ZOREL 133

  85. ZOREL É ENTREGUE AOS CUIDADOS DE CORNÉLIUS 135

  86. HUMILDADE JUSTA E HUMILDADE EXAGERADA 136

  87. CORNÉLIUS E ZOREL PALESTRAM SOBRE MILAGRES 138

  88. OPINIÕES DIVERSAS SOBRE A NATUREZA DO SENHOR 139

  89. A PEDRA LUMINOSA DA FONTE DO NILO 142

  90. ALMA E CORPO 145

  91. DESENVOLVIMENTO DE ALMAS FRACAS NO ALÉM 147

  92. CONDUTA DAS ALMAS NO ALÉM 148

  93. PROGRESSO DA ALMA NA TERRA E NO ALÉM 151

  94. O DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO 152

  95. A FINALIDADE DO SERVIR 154

  96. PESQUISANDO OS SEGREDOS DA CRIAÇÃO 156

  97. A VERDADEIRA APLICAÇÃO DO AMOR AO PRÓXIMO 157

  98. O AUXÍLIO MONETÁRIO 159

  99. O AUXÍLIO JUSTO E O AUXÍLIO ERRADO 161

  100. A DOUTRINA DE MOYSÉS E A DOUTRINA DO SENHOR 162

  101. O JOIO ENTRE O TRIGO 163

  102. OS PENSAMENTOS E SUAS REALIZAÇÕES 165

  103. O SURGIR DA MATÉRIA 167

  104. O EGOÍSMO COMO ORIGEM DA MATÉRIA 169

  105. COMO SURGIRAM OS SISTEMAS SOLARES 171

  106. FORMAÇÃO E IMPORTÂNCIA DA TERRA 174

  107. O APARECIMENTO DA LUA 176

  108. O PECADO ORIGINAL 178

  109. SALVAÇÃO, RENASCIMENTO E REVELAÇÃO 179

  110. O BATISMO. A TRINDADE EM DEUS E NO HOMEM 181

  111. ORDEM DIETÉTICA DE MOYSÉS 184

  112. PREDIÇÃO SOBRE AS ATUAIS REVELAÇÕES 186

  113. CONVOCAÇÃO PARA A VOZ INTERNA 187

  114. OS ESPÍRITOS DA NATUREZA 189

  115. YARAH E OS ESPÍRITOS DA NATUREZA 190

  116. ÍNDOLE E AÇÃO DOS ESPÍRITOS DA NATUREZA 192

  117. UM NOVELO DE SUBSTÂNCIAS PSÍQUICAS 194

  118. O OXIGÊNIO 196

  119. RAPHAEL DEMONSTRA A CRIAÇÃO DOS SERES 197

  120. A FECUNDAÇÃO 200

  121. MOTIVOS DAS REVELAÇÕES DO SENHOR 204

  122. O SENHOR REVELA O ÍNTIMO DE JUDAS 206

  123. CORRETIVO DE JUDAS 210

  124. A EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS 211

  125. A VIDA DE JUDAS ISCARIOTES 213

  126. EFEITOS DUMA EDUCAÇÃO ERRÔNEA 215

  127. O PAVOR DA MORTE 217

  128. SEPARAÇÃO DA ALMA DO CORPO DURANTE A MORTE 218

  129. OCORRÊNCIAS NO MOMENTO DA MORTE 220

  130. MATHAEL, O VIDENTE 222

  131. CRITÉRIO SADUCEU QUANTO AOS CASTIGOS ROMANOS 224

  132. FIM DOS SALTEADORES CRUCIFICADOS 225

  133. A FORMAÇÃO PSÍQUICA DOS SALTEADORES 227

  134. MATHAEL VISITA O PAI DE LÁZARO, MORIBUNDO 229

  135. TENTATIVA DE RESSURREIÇÃO 231

  136. O ESPÍRITO DE LÁZARO TESTEMUNHA DO MESSIAS 233

  137. COVARDIA DO RABINO 234

  138. A VIDA DO VELHO LÁZARO 235

  139. EXPLICAÇÃO DAS APARIÇÕES DURANTE A MORTE DE LÁZARO 237

  140. INDAGAÇÕES TOLAS 239

  141. A “IRA” DIVINA 240

  142. O PRIMEIRO CASAL 241

  143. O DILÚVIO 243

  144. MOTIVO DAS CATÁSTROFES 245

  145. A INFLUÊNCIA DO MAL 246

  146. A MARAVILHOSA PLANTINHA CURADORA 247

  147. CAUSAS DE FRIO E CALOR 249

  148. QUEDA DESASTRADA DUM GAROTO 250

  149. FENÔMENOS ESPIRITUAIS DURANTE O ACIDENTE. SUICÍDIO DO

ESSÊNIO, AMALDIÇOADO PELO TEMPLO 252

  1. AS ALMAS DOS ACIDENTADOS, NO ALÉM 254

  2. EXPLICAÇÕES DO SENHOR QUANTO ÀS SITUAÇÕES PSÍQUICAS DOS ACIDENTADOS 256

  3. SITUAÇÕES DIVERSAS DE SUICIDAS NO ALÉM 259

  4. A PEDRA FILOSOFAL 262

  5. A IRRADIAÇÃO VENENOSA DA VIÚVA 263

  6. VENENO DE COBRA COMO REMÉDIO 265

  7. OCORRÊNCIAS ESPIRITUAIS DURANTE A MORTE DA VIÚVA E SUA FILHA .267

  8. EVOLUÇÃO DAS FORMAS PSÍQUICAS DAS DUAS MULHERES 268

  9. O VENENO EM MINERAIS, PLANTAS, ANIMAIS E HOMENS 269

  10. A NATUREZA VENENOSA DAS DUAS MULHERES 271

  11. REFLEXÕES DE CIRENIUS QUANTO À ORDEM EVOLUTIVA DA ALMA 273

  12. CIRENIUS CRITICA A GÊNESIS 274

  13. A CRIAÇÃO DE ADAM E EVA 276

  14. OS QUATRO SENTIDOS DA GÊNESIS 278

  15. CHAVE PARA O ENTENDIMENTO DAS ESCRITURAS 279

  16. OS VERDADEIROS DOUTRINADORES DO EVANGELHO 281

  17. A AURORA MARAVILHOSA 284

  18. JEJUM E ALEGRIA 286

  19. REPRIMENDAS FEITAS POR AMOR-PRÓPRIO 288

  20. SIMON CRITICA O CÂNTICO DE SALOMON 289

  21. CHAVE PARA A COMPREENSÃO DO CÂNTICO SALOMÔNICO 292

  22. SIMON ELUCIDA ALGUNS VERSOS DO CÂNTICO 294

  23. GABI CONFESSA SUA TOLICE E VAIDADE 297

  24. ANTIGOS PRINCÍPIOS DE GABI 298

  25. PARECER DE SIMON A RESPEITO DO SENHOR 301

  26. IDEIAS DE SIMON SOBRE O SENHOR, COMO HOMEM 302

  27. A UNIÃO DA CRIATURA COM DEUS 305

  28. NATUREZA E FIM DA SENSUALIDADE 306

  29. A NATUREZA DOS ANJOS. CORAÇÃO E MEMÓRIA 308

  30. O POVO DA ABISSÍNIA E NÚBIA 311

  31. O SENHOR ENVIA UM MENSAGEIRO À CARAVANA 314

  32. O SENHOR PALESTRA COM O GUIA DOS NÚBIOS 316

  33. O GUIA RELATA SUA VIAGEM A MEMPHIS 317

  34. MALDIÇÃO DA EXCESSIVA CULTURA DOS EGÍPCIOS 320

  35. BENEFÍCIO DA CULTURA PRIMITIVA DO HOMEM SIMPLES 321

  36. A ESTADA DOS NÚBIOS NO EGITO 323

  37. O NEGRO PEDE CONFIRMAÇÃO DA PRESENÇA DO SENHOR 325

  38. OS NÚBIOS RECONHECEM O SENHOR 327

  39. A EXCESSIVA HUMILDADE 328

  40. OUBRATOUVISHAR FALA DE SUA PÁTRIA 329

  41. O TESOURO DO NÚBIO 331

  42. O OUTRO GRUPO DE NEGROS 333

  43. NATUREZA DE ÍSIS E OSÍRIS 334

  44. O GRANDE TEMPLO NA ROCHA CHAMADO JABUSIMBIL 335

  45. O NÚBIO DEMONSTRA AOS CONTERRÂNEOS A DIVINDADE PERSONIFICADA EM JESUS 338

  46. DÚVIDAS JUSTIFICÁVEIS DOS NEGROS 339

  47. OUBRATOUVISHAR PROCURA CONVENCER SEUS AMIGOS SOBRE A DIVINDADE DE JESUS 340

  48. PROVEITOS E DESVANTAGENS ESPIRITUAIS DOS NEGROS 341

  49. DIVERSIDADE CLIMÁTICA E RACIAL NA TERRA 343

  50. A ASSIMILAÇÃO DA DOUTRINA DA VERDADE 345

  51. RAPHAEL CONVENCE OS NEGROS DA DIVINDADE DE JESUS 348

  52. O NÚBIO E OUBRATOUVISHAR ENTREGAM SEUS TESOUROS A CIRENIUS.350

  53. A ORIGEM DO TEMPLO JABUSIMBIL, DA ESFINGE E DAS COLUNAS

DE MEMNON, REPRESENTADAS PELAS DUAS PRIMEIRAS PÉROLAS 352

  1. SEGREDO DA TERCEIRA PÉROLA 354

  2. RAPHAEL EXPLICA AS CONSTELAÇÕES NA QUARTA PÉROLA 356

  3. A DIVISÃO DO TEMPO, NA QUINTA PÉROLA 358

  4. O SEGREDO DA SEXTA PÉROLA: A REPRESENTAÇÃO DAS PIRÂMIDES,

DOS OBELISCOS E DA ESFINGE 360

  1. AS CONSTELAÇÕES DA SÉTIMA PÉROLA 362

  2. HÁBITOS DOS NÚBIOS E HÁBITOS DOS BRANCOS 364

  3. FORMAÇÃO DO INTELECTO E FORMAÇÃO DO SENTIMENTO 365

  4. MOTIVO DA ENCARNAÇÃO DO SENHOR 368

  5. OS NEGROS DOMINAM OS ELEMENTOS D’ÁGUA 369

  6. COMO OS NEGROS DOMINAM OS ANIMAIS 371

  7. A MANEIRA PELA QUAL OS NEGROS DOMINAM PLANTAS E ELEMENTOS 373

  8. O CONHECIMENTO PRÓPRIO 376

  9. IRRADIAÇÃO DA ALMA HUMANA E IRRADIAÇÃO SOLAR 377

  10. INFLUÊNCIA DO CARÁTER HUMANO SOBRE OS ANIMAIS CASEIROS 380

  11. AS VANTAGENS DA JUSTA FORMAÇÃO PSÍQUICA 381

  12. O PODER DE UMA ALMA PERFEITA 384

  13. EFEITO DA LUZ SOLAR. FUNÇÃO DO OLHO HUMANO. A VISÃO DA

ALMA 385

  1. O RENASCIMENTO E A JUSTA EDUCAÇÃO 387

  2. A JUSTA COMPREENSÃO E A FACULDADE DE LER PENSAMENTOS 389

  3. A IMPORTÂNCIA DA IRRADIAÇÃO PSÍQUICA 391

  4. O PODER DO HOMEM PERFEITO PELO AMOR 393

  5. A FOME PELO ALIMENTO ESPIRITUAL 394

  6. O PODER MILAGROSO DO RENASCIDO EM ESPÍRITO 395

  7. RELAÇÃO ENTRE ALMA E ESPÍRITO 397

  8. CÉREBRO E ALMA 398

  9. A FORMAÇÃO JUSTA DO CÉREBRO 400

  10. CIRENIUS PEDE MAIOR ELUCIDAÇÃO QUANTO AO ESTUDO DO

CÉREBRO 402

  1. EFEITOS DA IMPUDICÍCIA 403

  2. BÊNÇÃO DUMA FECUNDAÇÃO ORDENADA 405

  3. ESTRUTURA DO CÉREBRO HUMANO 407

  4. LIGAÇÃO ENTRE O CÉREBRO ANTERIOR E O POSTERIOR 409

  5. LIGAÇÃO DOS SENTIDOS AO CÉREBRO 411

  6. O CÉREBRO PERFEITO E O CÉREBRO ATROFIADO 413

  7. CARÁTER DOS INTELECTUAIS E SUA DESDITA NO ALÉM 414

  8. CONSEQUÊNCIA DUM CÉREBRO ESPIRITUALMENTE CEGO 416

  9. DIFICULDADE EVOLUTIVA DUMA ALMA MATERIALISTA NO ALÉM 418

  10. EFEITO DUMA EDUCAÇÃO FALHA SOBRE O CÉREBRO 420

  11. O CÉREBRO DUM INTELECTUAL 422

  12. A ORIGEM DO PECADO 423

  13. INJUSTIÇAS APARENTES QUANTO À CONDUTA DAS ALMAS, AQUI E

NO ALÉM 425

  1. A NATUREZA DIVINA. O PESO NECESSÁRIO DAS PROVAÇÕES 427

  2. O “EU” INDIVIDUAL COMO CAUSADOR DE SEU DESTINO 428

  3. DESENVOLVIMENTO INDEPENDENTE DAS ALMAS DESTINADAS À

FILIAÇÃO DIVINA 429

  1. PORQUE MOTIVO DEUS DETERMINA A PERFEIÇÃO INDEPENDENTE

DUMA ALMA 431

  1. A POSSESSÃO. A DEMORADA DIVULGAÇÃO DO EVANGELHO 433

  2. MILAGRES EFETUADOS EM TEMPO OPORTUNO 434

  3. A ATITUDE MILAGROSA NA DIVULGAÇÃO DA DOUTRINA DO SENHOR 436

  4. DIFICULDADES NA PROPAGAÇÃO DA PURA DOUTRINA 438

  5. A ESPADA COMO MEIO DE CORREÇÃO ENTRE POVOS DESCRENTES 439

  6. PAI E FILHO EM JESUS 441

  7. APARIÇÕES OCORRIDAS DURANTE O BATISMO DO SENHOR 444

  8. A GRANDIOSIDADE DA CRIAÇÃO 446

  9. A ENCARNAÇÃO DO SENHOR NO ATUAL PERÍODO DA CRIAÇÃO 448

  10. A ESFERA VITAL DA ALMA E A DO ESPÍRITO 451

  11. A ONISCIÊNCIA DIVINA 452

  12. A LINGUAGEM DOS ANIMAIS 454

  13. EXEMPLOS DA INTELIGÊNCIA ANIMAL 456

  14. O NÚBIO PALESTRA COM O BURRO DE MARCUS 458

  15. O CRESCIMENTO DA IRRADIAÇÃO PSÍQUICA DO HOMEM 459

  16. A PROJEÇÃO LUMINOSA DE MOYSÉS E DOS PATRIARCAS 460

  17. MOTIVO DAS EXPLICAÇÕES DO SENHOR 462

S

eria ilógico admitirmos que a Bíblia fosse a cristalização de todas as Revelações. Só os que se apegam à letra e desconhecem as Suas Promessas alimentam tal compreensão. Não é Ele

sempre o Mesmo? “E a Palavra do Senhor veio a mim”, dizia o profeta. Hoje, o Senhor diz: “Quem quiser falar Comigo, que venha a Mim, e Eu lhe darei, no seu coração, a resposta.”

Qual traço luminoso, projeta-se o conhecimento da Voz Interna, e a revelação mais importante foi transmitida no idioma alemão durante os anos de 1840 a 1864 a um homem simples chamado Jacob Lorber. A Obra Principal, a coroação de todas as demais, é “O Grande Evangelho de João” em 11 volumes. São narrativas profundas de todas as Palavras de Jesus, os segredos de Sua Pessoa e sua Doutrina de Amor e de Fé! A Criação surge diante dos nossos olhos como um acontecimento relevante e metas de Evolução. Perguntas com relação à vida são esclarecidas neste Verbo Divino, de maneira clara e compreensível. AoladodaBíblia omundojamaisconheceuObraSemelhante,sendonaAlemanha considerada “Obra Cultural”.

ObrasdaNova Revelação

O Grande Evangelho de João – 11 volumes A Criação de Deus – 3 volumes

A Infância de Jesus

O Menino Jesus no Templo

O Decálogo (Os Dez Mandamentos de Deus) Bispo Martim

Roberto Blum – 2 volumes A Terra e a Lua

A Mosca

Sexta-Feira da Paixão e À Caminho de Emaús Os Sete Sacramentos e Prédicas de Advertência Correspondência entre Jesus e Abgarus Explicações de Textos da Escritura Sagrada Palavras do Verbo

(incluindo: A Redenção e Epístola de Paulo à Comunidade em Laodiceia)

Mensagens do Pai

As Sete Palavras de Jesus na Cruz (incluindo: O Ressurrecto e Judas Iscariotes) Prédicas do Senhor

JESUSNAZONADECESAREIA PHILIPPI

Evangelho de Mateus Cap. 16 (continuação)

  1. A VERDADEIRA SABEDORIA E A VENERAÇÃO VIVA DE DEUS

  1. Após erguer-Me com os que haviam cochilado Comigo, cha- mo os três amigos e lhes indago a razão por que não seguiram nos- so exemplo.

  2. Responde Mathael: “Senhor, quem poderia dormir, após ter re- cebido conforto tão poderoso através de Tua Palavra?! Assim aproveita- mos o tempo na investigação de coisas jamais sonhadas pelos mortais! Por isto Te rendemos toda nossa gratidão!”

  3. Digo Eu: “Muito bem; sei de vossas palestras e de tudo que vos foi dado conhecer antes do tempo. Guardai-o, pois, evitando deste modo, o uso inoportuno de tais conhecimentos. Os filhos da Terra não os assimilam, porquanto não têm vossa procedência; enquanto que a vós, será dado conhecer coisas muito mais elevadas, após a vinda do Espírito Santo, oriundo dos Céus, que vos conduzirá à Verdade plena! O Espírito de Amor, o Pai Mesmo, vos guiará e ensinará, trazendo-

-vos a Mim.

  1. Em verdade vos digo: Ninguém chegará a Mim se não for con- duzido pelo Pai; pois todos vós deveis ser ensinados por Ele, isto é, pelo Eterno Amor em Deus, caso quiserdes estar Comigo! Deveis ser tão perfeitos como o Pai no Céu! Isto jamais alcançareis através do sa- ber profundo ou por experiências variadas, mas, unicamente, pelo vivo

amor a Deus e ao próximo. Nisto se baseia o grande mistério do renas- cimento do vosso espírito, por Deus e em Deus.

  1. Antes disto, cada um terá de transpor Comigo a porta estreita da completa renúncia do seu ‘eu’, deixando de ser vós mesmos para serdes tudo em Mim.

  2. Amar a Deus acima de todas as coisas significa dedicar-se-Lhe inteiramente; amar ao próximo requer também a máxima dedicação, do contrário, não será possível fazê-lo com sinceridade; pois um amor sob medida não beneficia àquele que ama, tampouco ao ser amado.

  3. Se pretendeis vislumbrar o panorama do cume du’a montanha, tereis de galgar o seu pico; de qualquer outro ponto, avistareis apenas uma parte. Eis por que também, no amor, deve ser posta em prática toda dedicação para que frutifique.

  4. Vosso coração é um campo de semeadura, e o amor ativo repre- senta a semente viva; os pobres são o adubo para o campo. Aquele que semear em solo bem adubado, colherá safra abundante. Na medida que fordes aumentando o número de pobres a adubar o campo, mais viçoso este se tornará; e quanto melhores sementes nele lançardes, tanto mais rica será a colheita. Quem semear abundantemente, colherá com fartu- ra; quem o fizer com usura, lucrará escassamente.

  5. Deveis tornar-vos sábios pelo amor ativo; nisto consiste a mais elevada sabedoria, pois que todo saber sem amor de nada vale! Tratai, pois, de aumentar vosso amor que vos proporcionará o que ciência alguma vos poderá dar. Aproveitastes bem as três horas, en- riquecendo vossas noções e experiências. Tudo isto pouca utilidade trará para vossas almas; ao passo que, ocupando futuramente vosso tempo amando ao próximo, num dia, vossas almas lucrarão meses de benefícios!

  6. De que vos adiantaria extasiar-vos diante de Meu Poder, Mag-

nitude e Glória jamais penetrados, se à vossa porta os pobres chorassem de fome, sede e frio? Quão miserável e inútil seria louvar a Deus em honras e glórias, desinteressando-se da miséria do próximo! De que ser- vem todas as oferendas suntuosas no Templo, se diante de seus portais um pobre morre de inanição?!

  1. Inteirai-vos, pois, da miséria dos pobres e socorrei-os! Mais de- pressa colhereis benefícios assim procedendo, do que se pesquisásseis todos os astros e entoásseis loas a Mim!

  2. Em verdade vos digo: Todos os anjos, Céus e mundos com toda sua sabedoria não vos proporcionarão, em eternidades, o que alcança- reis pelo amor ao próximo usando de todas vossas energias e meios! Nada mais sublime do que o amor verdadeiro e ativo, estabelecendo a união entre Deus e a criatura!

  3. Se durante tua prece a Deus, não percebes a voz aflita de teu semelhante à procura de auxílio, tuas palavras serão amaldiçoadas por Mim! Minha Honra consiste no amor e não na fútil tagarelice.

  4. Não deveis ser como afirmava Isaías: Esse povo Me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de Mim! Mas adorai-Me em espírito e verdade, pois Deus é Espírito!

  5. A única prece de Meu Agrado é a da aplicação do amor e nunca a movimentação maquinal dos lábios. Que adiantaria ornamentardes de ouro o sepulcro dum profeta, se não ouvirdes a voz do vosso irmão sofredor?! Acaso pensais que isto Me agrada? Tolos! Olhar-vos-ia com ira, se por causa dum morto, menosprezásseis o apelo dum vivo!”

  1. OFUTURODOSARRABALDESDA PALESTINA

  1. (O Senhor): “Eis por que determinei que os lugarejos, ora por nós percorridos, daqui a cem anos, não sejam mais reconhecidos, evi- tando se lhes dedique veneração excessiva.

  2. Nazareth, onde nasci, não mais existirá, e sim uma outra cidade de igual nome, além dos montes, em direção ao Poente. O mesmo destino já atingiu Cesareia Philippi; perdurará, porém, uma semelhan- te acima do Lago Meron, origem do Jordão, e outra perto de Tyro e Sidon. Genezareth já foi extinta, restando apenas a cidade de Tibérias. Da Samaria subsistirá, somente, o trajeto daqui ao Mar Mediterrâneo, enquanto que a cidade de Sichar e o Monte Horeb serão arrasados; os descendentes desses habitantes se empenharão por encontrá-los, achan- do, no entanto, apenas u’a montanha íngreme, assim denominada, mas

que não contém o Espírito da Verdade. Esse destino terão Jerusalém e outros locais da Terra Prometida, reduzida, na sua maior parte, a um deserto.

  1. Lembrai-vos disto; tal se dará para que as criaturas ouçam os cla- mores reprovadores dos pobres, pela veneração excessiva dessas cidades. Serão confundidas em virtude desse zelo; procurarão Minha Cabana na falsa Nazareth, pois a legítima desaparecerá da Terra, logo após Minha Ascensão ao Meu Reino.

  2. Quem procurar futilidades, encontrá-las-á, morrendo com esta tendência; quem procurar a verdadeira Nazareth no coração, descobri-

-la-á em cada pobre e uma genuína Bethlehém em cada semelhante!

  1. Tempos virão em que, de longe, criaturas aqui chegarão à pro- cura destas localidades das quais apenas perdurarão os nomes! Até os povos europeus guerrearão pela sua posse, acreditando prestar-Me bom serviço, enquanto deixarão perecer, na pátria, de miséria e privações, seus familiares e amigos!

  2. Quando no Além Me pedirem o esperado prêmio pelo esforço e sacrifício despendidos, demonstrar-lhes-ei sua grande tolice e a miséria que infligiram, não só aos seus próprios parentes, como aos depen- dentes de seu auxílio. Saberão que não lhes será possível achegar-se à Luz da Minha Graça enquanto não repararem, completamente, o dano praticado, o que será mui difícil, por possuírem meios escassos, na luz crepuscular no reino dos espíritos, sobre e debaixo da Terra.

  3. Afirmo-vos: À vista da grande tolice humana, farei cair esta zona nas mãos dum povo pagão, que castigará os falsos pregadores da Minha Doutrina, nos quatro pontos cardeais.

  4. Atentai, pois, contra a infiltração de tolice e superstição na Mi- nha Doutrina de Vida e do Verdadeiro Conhecimento de Deus. Só há um caminho: o amor ativo, facultando a todos a verdadeira Luz e a compreensão justa e ilimitada das noções naturais e espirituais! É e será o único e verdadeiro caminho que vos levará a Mim e ao Meu Reino.

  5. Eu, o Amor Eterno, sou a Luz, o Caminho, a Porta e a Vida Eter- na! Quem tentar penetrar no Meu Reino da Luz por outros meios é qual ladrão e assaltante; será, por isso, relegado às profundezas das trevas aqui

e no Além. Sabeis agora, como proceder e o que considero justo. Agi de acordo e estareis trilhando a vereda certa! — Agora, passemos aos nove afogados, e tu, Marcus, manda trazer vinho que dele precisaremos!”

  1. OSENHOREOS AFOGADOS

  1. Rápido acercamo-nos dos perecidos que mando virar de cabeça para cima. Em seguida digo a Marcus que lhes faça cair algumas gotas de vinho nas bocas abertas. Isto feito, digo a todos: “Certificai-vos se não estão mortos!”

  2. Encontrava-se, entre os trinta fariseus convertidos, um médico que disse: “Não que duvide da morte dessas pessoas, mas quero apenas dar meu testemunho como perito!” A seguir ele examina os olhos vi- drados, o nariz hipocrático, provas certas da extinção de todos os ele- mentos vitais. Quando termina, diz: “Não só hoje, mas desde ontem, uma hora após terem caído n’água já estavam mortos. A julgar pelo odor, iniciou-se a decomposição e não há ciência e força humanas que os façam ressuscitar! Isto só pode Aquele que no Dia do Juízo Final fará ressurgir os mortos!”

  3. Digo Eu: “Comprovando o testemunho do médico e para que

possais reconhecer a Glória do Pai, manifesta no Filho, exclamo: Pai, glorifica o Teu Nome!” Nisto, muitos ouvem uma voz num forte tro- vão: “Já O glorifiquei por Ti, Meu Filho Amado, pois és Tu em Quem Me aprazo! As criaturas devem prestar-Te ouvidos!”

  1. Alguns há que, com o Céu límpido, ouvem o trovão e admi- ram-se desse fato; quando são informados daquilo que os outros perce- beram, dizem: “Estranho; entretanto, acreditamos nas vossas palavras! Contudo, deduzimos ser o Mestre apenas o Filho, e não o Santo e Po- deroso Pai que habita no Céu, invisível para todos, somente se Lhe podendo falar em momentos santificados. Moysés, portanto, também foi filho do Altíssimo, bem como os outros profetas; e este Nazareno poderia ser o Maior de todos, pois faz os mais deslumbrantes milagres!”

  2. Intervém Murel: “Em absoluto; estais cometendo um grande

erro! Quem teria anunciado Moysés, Elias ou Samuel, pelo Espírito do

Senhor? Foram todos repentinamente iluminados por Ele, a fim de que profetizassem! A voz que ora ouvimos, foi tanto Sua Própria, quanto aquela que nos dirigiu Pessoalmente! A diferença consiste no seguinte: Verbalmente Ele fala como Homem, e através do trovão Se fez ouvir como Aquele que foi, é e será eternamente o Mesmo Criador de tudo que existe e das Leis dadas no Sinai, sob raios e trovões. Eis por que tudo Lhe é possível, inclusive Sua Encarnação por Amor a Seus filhos; pois do contrário, jamais poderia ser por eles amado e reconhecido!”

  1. DETERMINAÇÕES DO SENHOR EM RELAÇÃO AOS AFOGADOS

  1. Nisto Me aproximo de Murel, dizendo: “Penetraste fundamen- te na verdade, esclarecendo os mais ignorantes; por isto, serás ainda um instrumento útil contra judeus e pagãos, e teu prêmio no Céu não será pequeno!

  2. Agora, mãos à obra, como vos determinei, a fim de que todos vejam que sou o Verdadeiro e Prometido Messias, anunciado pelos pro- fetas até por Simeon, Anna, Zacharias e João, este executado por Hero- des! Esses nove ressuscitarão e quando mais tarde tiverem deixado esta zona, saberão o que lhes sucedeu!”

  3. Em seguida, mando que Marcus faça verter mais algumas gotas de vinho nas bocas dos nove, enquanto Cirenius e Cornélius indagam o motivo desta medida.

  4. Respondo: “Isto, em absoluto faz parte da ressurreição; como, porém, encaminhar-se-ão para casa, necessário é que se fortifiquem. O vinho é absorvido pelos nervos da abóbada palatal e da língua. Deste modo, a alma reintegrada ao corpo, encontrará um instrumento for- talecido que poderá empregar em qualquer atividade. Se este estímulo não lhes fosse ministrado, os ressuscitados teriam de permanecer aqui para uma readaptação física. Além disto, o vinho proporciona bom pa- ladar, muito necessário, pois a água ingerida lhes produziria náuseas, di- fíceis de serem acalmadas. Estais, portanto, orientados a respeito; acaso ainda alimentais outra dúvida?”

  1. Responde Cornélius: “Não é bem isto, Senhor e Mestre; apenas me veio a ideia como podes, sendo o Onipotente, servir-Te de meios naturais para alcançar um fim qualquer.”

  2. Digo Eu: “Por que não? Acaso não é o meio natural também obra de Minha Vontade, mormente o vinho de Marcus, cujos odres e demais vasilhas enchi de modo milagroso?! Pelo fato de empregar meio natural ou espiritual, não deixo de usar Minha Onipotência. Com- preendeste?”

  3. Respondem Cirenius e Cornélius: “Inteiramente, e ansiamos pela vivificação dos afogados. Será feita agora?”

  4. Digo Eu: “Mais um pouco de paciência, pois tomarão, pela ter- ceira vez, um pouco de vinho.” Satisfeitos, todos observam como Mar- cus cumpre Minha Ordem.

  5. Em seguida digo a todos: “Já está feita a obra! Afastemo-nos e sentemo-nos às mesas onde nos espera o desjejum. Se aqui ficássemos, confundiríamos os recém-acordados, que julgariam ter-lhes sucedido algo de extraordinário. Deste modo, terão a impressão de que foram atirados a esta praia pelo temporal, acordando após profunda exaustão. Levantar-se-ão, calmamente, voltando a seus lares, onde naturalmente serão recebidos com imensa alegria.”

  1. DÚVIDASDE CORNÉLIUS

  1. Todos obedecem à Minha Ordem, alguns contrafeitos, pois com prazer teriam observado o milagre de perto. Todavia, ninguém se atreve a fazer objeção. Sentamo-nos, pois, às mesas a fim de saborear os peixes preparados.

  2. Yarah está de especial bom humor e diz: “Não posso explicar a razão de minha alegria, o que a meu ver não se dá com todos! Sendo mulher deveria ser vítima da curiosidade, todavia, dá-se o contrário! São, precisamente, os homens que não se contêm e olham para trás, verificando se os nove já ressuscitaram. Embora eu não tivesse seguido o mesmo exemplo, já os vi se afastarem, um por um, não faz bem meia hora. Mal tínhamos alcançado as mesas, começaram a se mexer, levan-

tando-se para depois irem embora, inclusive aqueles que o Senhor on- tem ressuscitou, após o temporal. Como sou pequena, foi-me possível percebê-lo por entre os galhos das árvores.”

  1. Manifesta-se Cornélius: “Com tua boa visão observas tudo! Para nós, basta o êxito da Ordem do Senhor, pois do contrário, muitos se- riam vítimas da dúvida. Mas..., terias realmente visto como se levanta- ram e afastaram?”

  2. Responde Yarah, um tanto irritada: “Acaso me tomas por men- tirosa?! Desde que me conheço, jamais proferi u’a mentira, e agora, ao lado de meu Senhor, Deus e Mestre, haveria de fazê-lo para atender tua curiosidade?! Nobre senhor, estás longe de me conhecer! Vê, a mais esclarecida inteligência é capaz de acolher a mentira, pois podes eluci- dar alguém dentro de tua compreensão; todavia, baseia-se num falso conceito, o qual te leva a externar uma inverdade. O amor verdadeiro e puro, porém, jamais poderá mentir, por considerar o próximo — como filho de Deus — mais que a si próprio, e o Pai, acima de tudo! Alimentando eu esse amor de forma integral, como poderia dar-te um testemunho falso? Nobre Cornélius, esta suposição não te honra!”

  3. Defende-se ele: “Minha Yarah, tal nunca foi minha intenção!

Podes indagar do Senhor que conhece meu íntimo, se tive esse propósi- to! Ainda estás zangada comigo?”

  1. Responde Yarah: “Em absoluto; futuramente, porém, medita antes de perguntar!”

  2. Intervenho: “Muito bem; vamos agora auxiliar Marcus na pes- ca. À tarde haverá outro assunto a resolver.” Ouvindo Minhas Pala- vras, Marcus ordena aos filhos que preparem os botes; pois os peixes guardados no grande tanque à beira-mar haviam sofrido com o últi- mo temporal.

  1. PERSASEFARISEUSDISCUTEMO MILAGRE

  1. Enquanto abordamos diversos temas à mesa, irrompe uma dis- cussão entre os trinta jovens fariseus e os vinte persas. Estes consideram a ressurreição obra milagrosa, enquanto os fariseus externam dúvidas, mormente Risa que há tempos converteu Hebram.

  2. Hebram, pois, afirma: “Risa, morta a criatura, podes deitá-la como quiseres e dar-lhe este mesmo vinho, que ela jamais reviverá! Isto foi obra da Onipotência Divina, e a posição dada aos cadáveres teve, apenas, o objetivo de expelir a água de estômago e pulmão. O vinho somente animaria os nervos abalados e melhoraria o paladar. Tudo isto nada tinha a ver com a vivificação. O Senhor assim agiu com o fito de doar às almas um físico mais resistente. Não o reconheces?”

  3. Obtempera o outro: “Sim, mas dever-se-ia fazer uma prova de que aqueles meios aplicados não restituem a vida a um cadáver qual- quer. Só depois desta comprovação, saber-se-ia tratar-se, neste caso, duma ressurreição.”

  4. Diz Hebram: “Se o Senhor aceitar tua sugestão e caso ainda se encontre algum morto durante a pesca, poderás fazer uma tentativa, que a meu ver será infrutífera.” Aduzem os persas: “Somos da mesma opinião. Agora, tomemos nossas embarcações, pois vemos que todos se encaminharam para a praia.”

  5. Em lá chegando, Meus discípulos assistem, com exceção de Ju- das, os filhos de Marcus no lançamento das grandes redes. Entremen- tes, Judas se encaminha para a cidade inteiramente destruída, pois ouvi- ra dizer que os ricos gregos tencionavam calçar algumas ruas com ouro e prata. Seu intuito, porém, trouxe-lhe apenas uma boa surra, aplicada pelos guardas. Deixou, assim, as ruínas ainda fumegantes da cidade, que outrora se chamava “Vilipia”; os gregos a denominavam “Philippi”, e sob o regímen de Roma foi-lhe acrescentado o nome de “Cesareia”.

  6. Voltando à cabana de Marcus, Judas ali encontra somente sua

mulher e filhas. Como a atitude deste discípulo sempre era algo atre- vida e impertinente, não lhe foi dada a atenção que desejava, por parte das mulheres. Assim vai ele à praia, a fim de lá nos encontrar. Havía-

mo-nos feito ao alto mar; enfadado, Judas se encaminha para as tendas de Ouran, na expectativa de lá encontrar alguma moeda perdida! Mas também ali, nada feito! Ouran havia deixado três vigias em cada tenda!

  1. Aborrecido, Judas deita-se à sombra duma árvore, onde ador- mece. Todavia, nem isto o destino lhe permite: as moscas o molestam constantemente. Quase desesperado, levanta-se e avista, finalmente, nossos barcos, arrependendo-se de não nos ter acompanhado.

  1. OSERVOINFIELDE HELENA

  1. Nesse ínterim, havíamos feito magnífica pesca dos melhores pei- xes, e encontramos em alto mar dois cadáveres femininos, inteiramente nus; haviam caído nas mãos de piratas, que lhes roubaram os bens, atirando-os em seguida n’água. Essas moças, de dezenove a vinte e um anos, eram de Capernaum e de família abastada; dirigiam-se a Gadara, por mar. Seu barco e tripulação eram escolhidos. Mas, quando já longe da praia, piratas gregos abateram os quatro marujos; as pobres moças foram vilipendiadas, despidas e atiradas ao mar. Os malfeitores já ha- viam sido capturados pela Justiça e não escapariam ao castigo merecido.

  2. Os corpos achavam-se atados pelos cabelos e flutuavam. Eis que,

a Meu exemplo, Risa predispõe-se a fazer as mesmas tentativas de sal- vamento. Para tanto, os cadáveres são envolvidos em panos e deitados num barco. Imediatamente Risa os faz deitar como Me vira fazer, en- quanto ordeno a Raphael que ajude a Marcus, para que tudo corra bem.

  1. Enquanto isso, Thomaz cumprimenta Judas Iscariotes e lhe in- daga, ironicamente, sobre o sucesso de suapescaria! Ele resmunga, sem todavia se atrever a discutir com Thomaz; pois se lembra do outro tê-lo aconselhado a não procurar ouro na cidade em cinzas.

  2. Acontece ter um servo de Ouran a ideia de explorar a tendência de Judas para o roubo, surrupiando trinta moedas de prata da sacola de Helena, alegando ter um discípulo do “grande profeta” se aproveitado da ausência de todos para realizar seu intento inescrupuloso.

  3. Diz ele: “Após breve afastamento da tenda, deparei com ele como se estivesse à procura de algo no solo. Essa atitude suspeita levou-me a

perguntar-lhe bruscamente o que estava fazendo ali, e ele, assustado, deixou a tenda. Passando revista, observei que a sacola da princesa não se achava no lugar costumeiro; qual não foi minha surpresa quando verifiquei faltarem trinta moedas, pois, como vigia, sabia do conteúdo. E aqui venho para relatar o fato, a fim de não ser tomado pelo ladrão.”

  1. Diz Helena: “Por que te desculpas antes que alguém lance suspeita à tua pessoa?!” Defende-se o vigia: “Nobre princesa, não me desculpo, relato apenas o roubo daquele discípulo.” Indaga Helena: “Quando, sem minha autorização, conferiste minha sacola pela penúl- tima vez?” Responde ele: “Logo após me ter sido entregue a guarda da tenda. Naquela ocasião contei seiscentas moedas; agora, só existem quinhentas e setenta.”

  2. Diz Helena: “Muito bem; mais tarde averiguaremos o fato e cas- tigaremos o ladrão! Talvez te enganaste ao contar e agora lanças a sus- peita contra um discípulo do Mestre, apenas pelo fato dele ter entrado na tenda!”

  3. Mal Helena termina suas palavras, o vigia repõe, rapidamente, o dinheiro subtraído, a fim de robustecer a suposição de sua soberana. Como não sabe de que forma enfrentar a situação, resolve procurá-la para confirmar o erro cometido na contagem do dinheiro.

  4. Sabendo que Ouran dificilmente castigava, a não ser a mentira ou roubo, sua atitude é bem embaraçosa. Helena apieda-se do coitado que nunca fora desonesto e lhe diz: “Não agiste bem por te quereres vingar do discípulo com quem não simpatizas; sei de tua trama que merece punição!”

  5. O servo começa a tremer; Judas, que havia assistido à cena, aproxima-se dizendo: “Perdoo-te a atitude, com a qual me prejudica- rias; procura entendimento com tua soberana.”

  1. AAÇÃODA ASSEMBLEIA

  1. Com isto Judas se afasta, e Eu digo a Helena, Ouran e Mathael: “Terminai com essa arenga, pois temos coisas mais importantes a resol- ver! Não castigueis o empregado; nunca teria praticado esse ato se não

fosse induzido por um espírito! De qualquer forma, fez uma profecia que se realizará! Agora, basta!”

  1. Indaga Cirenius, admirado: “Senhor, em que consistiria? Parece-

-me não haver coisa de maior importância senão o que passamos! Fala, Senhor! Meu coração anseia por receber Tuas Ordens e Resoluções, a fim de cumpri-las!”

  1. Digo Eu: “Um pouco de paciência, pois tudo necessita amadu- recer. Por isto, descansemos um pouco!” Todos assim fazem. Apenas Ouran, Mathael, Cornélius e Fausto se entregam à elaboração de planos governamentais. Mormente Ouran anseia por voltar ao seu reino e lá introduzir Minha Doutrina.

  2. Risa, por sua vez, observa os dois corpos, conjeturando quanto à possibilidade de fazê-los voltar à vida pela observância daquilo que Eu havia empregado com os nove. Outros há, entregues à meditação sobre Minhas Palavras. Em suma: embora externamente calmos, suas almas se empenham em assuntos diversos, sem alcançarem uma definição exata.

  3. Schabbi e Jurah, os dois oradores persas, porém, respondem aos colegas que os assediam com suposições: “Deixai isto! Seria perturbar a Onipotência Divina em nossos corações! Que sabemos a respeito de nossa constituição interna?! Confessando nossa ignorância a respeito, como querermos interpelar o Ser Divino sobre Sua Atitude?! Basta sa- bermos que tudo que Ele fizer é sumamente sábio e para nosso Bem! Ele, o Senhor Supremo, sabe o que precisamos para a perfeição interna; por isto, aguardemos Suas Determinações!” Tais palavras ponderadas a todos acalmam, inclusive aos que se acham à Minha mesa, que aguar- dam com paciência Minha Atitude.

  1. OSESPIÕESDE HERODES

  1. Nisto, Marcus se aproxima e Me diz em surdina: “Senhor, per- doa se Te venho importunar por alguns momentos.”

  2. Digo-lhe Eu: “Amigo, vai e transmite aos espiões, à espreita atrás de tua cabana: O Filho do homem age e fala abertamente diante de todo o mundo, e não pretende ter segredos para quem quer que seja;

quem, portanto, quiser a Mim se dirigir, que o faça do mesmo modo! Não admito que se venha soprar, secretamente, a Meus Ouvidos, nem conjeturar às escondidas; isto é um hábito condenável dos filhos do mundo, quando temem ver descoberta sua trama. Eu falo e ajo em público e não receio os homens, porque Minhas Intenções para com as criaturas são boas! Vai e transmite este recado aos traidores!”

  1. Nem bem Marcus executa Minha Ordem, um dos falsários res- ponde: “Pareces ignorar que Herodes concedeu-nos carta branca para julgarmos sobre vida e morte!” Retruca Marcus: “Sou súdito de Roma!” Diz o outro, atrevidamente: “Não importa; o Tetrarca não nos chamará à responsabilidade!”

  2. Pondera Marcus: “Pode ser; mas diante de Deus e do Prefeito Cirenius que aqui se encontra, há dois dias, com outros dignitários romanos, tereis de responder pelos vossos atos!”

  3. Responde aquele: “Como podes alegar isto, se há alguns dias delegou a Herodes, o direito de pena de morte?!” Diz Marcus: “Muito bem, veremos num momento quemlhe conferiu tal direito.” Inconti- nenti manda seu filho a Cirenius para informar-lhe do ocorrido. Muito irritado, o Prefeito ordena a Julius que prenda os trinta espiões e execu- te os que não se renderem. Intervenho: “Basta prendê-los!”

  4. Quando os traidores veem os soldados avançar contra eles, tentam fugir, porém sem êxito. São advertidos de que seriam mortos, caso reagis- sem. Assim, preferem se entregar, sendo levados, manietados, a Cirenius.

  5. Este os inquire peremptoriamente: “Onde estão as ordens que vos mandam perseguir o profeta da Galileia?”

  6. Responde o chefe, chamado Zinka: “Senhor, de mãos atadas não tas posso apresentar! Manda que mas soltem e te convencerás da exis- tência de um chefe a quem devemos obediência, pois tem, como os romanos, o direito de julgar sem consultar-vos!

  7. Por nós podem perambular dez mil profetas pela Galileia, des- de que nos deixem em paz. Havendo, porém, um potentado que nos contrata para esse fim e, no caso de recusarmos, far-nos-ia liquidar, o assunto muda de aspecto! Temos de ser perseguidores de qualquer um, por mais honesto que seja! E se alguém for chamado perante à Justiça

Divina — se é que Deus existe — só poderá tratar-se dum soberano e nunca do servo do mesmo! Solta-me, para que te possa exibir os docu- mentos escritos em três línguas!”

  1. Cirenius assim ordena e Zinka lhe entrega os pergaminhos, com as palavras: “Lê e julga pessoalmente se nossa caça a um tal Jesus é legal ou não!”

  2. Cirenius, então, lê o seguinte: “Em virtude do poder conferido por Roma, em troca de mil libras de prata e cem de ouro, eu, Tetrarca Herodes, ordeno que se capture o perigoso profeta da Galileia, vivo ou morto. Meus vassalos incumbidos dessa tarefa têm, por este docu- mento, pleno poder de ação, recebendo cada um o prêmio de trezentas moedas de prata. Assinado em Jerusalém, no próprio palácio.”

  3. Após alguns momentos de reflexão, Cirenius diz: “Com mi- nha aquiescência, nunca foi conferido tal poder a Herodes, apenas uma autorização para uso de armas em sua própria residência, em caso de necessidade. Fora disto, somente havendo levante contra Roma!

  4. Todos os documentos políticos passam por minhas mãos; as- sim declaro nula esta autorização até que saiba do Imperador Augus- to, quando e porque motivos, Herodes recebeu tal plenipotência! Este documento ficará, por ora, em meu poder até que seja confirmado por Roma. Embora não sejais criminosos, sois instrumentos contra a Lei!

  5. Sei perfeitamente a maneira pela qual os Herodes abusam de suas concessões, haja vista o infanticídio, que provou sua tática infernal para lançar a discórdia entre judeus e romanos.

  6. O Tetrarca será por mim rechaçado com rigor! Já experimentou meu senso de justiça há trinta anos passados; hoje, entretanto, já sou idoso, mais inclinado à ponderação. Mandarei, incontinenti, dois men- sageiros a Roma e Jerusalém, e ai de Herodes se praticou uma fraude!”

  1. ZINKASEDEFENDEERELATAOFIMDEJOÃO BAPTISTA

  1. Diz Zinka: “Não resta dúvida ter Herodes praticado muitas in- justiças à pobre Humanidade, mas que fazer?! Que poderia fazer teu assecla, se lhe ordenares decapitar alguém?

  1. Acaso ignorávamos a inocência do pobre João? Estimávamos o sábio e devoto eremita, pois nos transmitia os mais sublimes ensina- mentos, quando no cárcere; aconselhou-nos paciência e persistência; advertiu-nos dos pecados contra Deus e o próximo, dizendo haver sur- gido na Galileia, um profeta e sacerdote sem par, ao qual não merecia desatar as correias das sandálias! Em suma, ensinou-nos, seus vigias, como se fôssemos seus discípulos e amigos.

  2. Inquiridos por Herodes a respeito do prisioneiro, só podíamos prestar o melhor testemunho. Tanto isto lhe agradou, que procurou pessoalmente o profeta para ouvir seus ensinamentos; e tê-lo-ia liberta- do, não cometesse João a tolice de condenar as relações existentes entre Herodes e Herodíades.

  3. Infelizmente, celebrava-se naquela ocasião, com grande pompa, seu natalício, e Herodíades, sabedora das fraquezas de Herodes, tudo fez para ressaltar seus encantos. Excessivamente enfeitada, foi, em com- panhia da filha, cumprimentá-lo e como houvesse música, esta dançou diante de seus olhares lascivos. Tão embevecido ficou com os movimen- tos sensuais de Salomé, que o tolo jurou satisfazer-lhe todos os desejos! Com isto selava-se o destino de João, o empecilho à ganância de Hero- díades, que impôs à filha, a cabeça do profeta numa bandeja de prata! Salomé obedeceu, embora terrificada!

  4. Que nos adiantaram a simpatia e a convicção da inocência do

profeta?! De que serviu condenarmos mãe e filha?! Eu mesmo fui obri- gado a transmitir a sentença tenebrosa a João, fi-lo amarrar e decapitar! Chorei qual criança, pela maldade daquelas mulheres e pelo infeliz des- tino do meu amigo! Mas de que serviu?

  1. Assim, somos agora enviados na captura daquele grandioso pro- feta, do qual João falou. Acaso seremos culpados por esta incumbência? Se não a cumprirmos, seremos presos e até aniquilados! Algum juiz nos condenaria por este procedimento?

  2. Deixa que todos os anjos e Deus Mesmo desçam à Terra e nos jul- guem; garanto-te que nossa culpa será idêntica à de João. Se Deus existe, deve ser mais sábio que as criaturas! Assim sendo, não percebo porque mo- tivo permite a existência de tais monstros e ainda lhes dá plenos poderes!

  1. Eis o único motivo de nossa descrença em Deus. A última cente- lha de nossa fé apagou-se com a decapitação de João Baptista. É possível que ele receba, no Além, o prêmio pela paciência e resignação com que aceitou sua morte cruel. Por mim, não troco metade da minha vida por uma mais feliz que seja no Além, da qual pessoa alguma teve certeza! Os poderosos sempre estão com a razão, enquanto seus servos são conside- rados criminosos! Peço-te, senhor, que me orientes a respeito!”

  1. BOARESPOSTADE CIRENIUS

  1. Perplexo, Cirenius Me diz em surdina: “Este homem é inteli- gente e tem boa índole; não seria possível atraí-lo para a nossa causa?”

  2. Digo Eu: “Jamais se consegue abater uma árvore com um só golpe! Com certa dose de paciência muito se alcançará; além disto, não se deve permitir que alguém, ao ser levado à luz, olhe o Sol ao meio dia. Pois, administrando-se-lhe luz forte de uma só vez, poder-se-á cegá-lo, por muito tempo; sendo habituado pouco a pouco à iluminação, será um dia capaz de vislumbrar tudo na maior claridade sem risco algum.

  3. Este homem Me prestou um bom serviço pelo relato fiel e por ter sido testemunha ocular do destino de João Baptista. Não por Mim, mas por causa de Meus discípulos; deve Zinka relatar o motivo que levou Herodes a prender Meu predecessor. Faze-lhe esta indagação.”

  4. Dirige-se Cirenius ao relator: “Amigo, minha sentença atinge apenas aqueles que estão em comum acordo com um déspota. Criatu- ras como tu, que reconhecem e condenam tal atitude desumana, saberei defender com justiça.

  5. Existe, porém, um motivo mui sublime para que Deus, não raro, permita o triunfo do vício, enquanto que a virtude é muitas vezes abafada até a morte. Tua atual capacidade de compreensão é insuficien- te, não te permitindo perceberes isto e muito menos a aceitarão teus colegas, munidos, como estão, apenas dum conhecimento superficial. Em breve, talvez, assimilarás o porquê da existência dos Herodes!”

  6. Diz Zinka: “Senhor, tu que tiveste a bondade de me tratar por ‘amigo’, não deixes que este título seja apenas um tratamento formal,

mas aplica-o soltando meus vinte e nove companheiros! Crê-me, todos nós agimos a contragosto, e se nos libertasses, farias a mais justa obra humanitária!”

  1. Responde Cirenius: “Deixai isso por minha conta, pois aqui se acham muitos redimidos, embora alguns merecessem a pena capital. Espero que, em breve, tal se dê também convosco. Agora desejava saber o verdadeiro motivo que levou Herodes a prender João.”

  1. PRISÃO DE JOÃO BAPTISTA.AS RELAÇÕES ENTRE HERODES E HERODÍADES

  1. Diz Zinka: “Se me for permitido falar abertamente, poderei, uma vez que fui o próprio carrasco, apontar a verdadeira razão; se, no entanto, tua pergunta é um ardil, prefiro calar-me a respeito duma his- tória cuja recordação provoca-me profunda revolta!”

  2. Diz Cirenius: “Podes falar sem rodeios!”

  3. Prossegue Zinka: “Muito bem! Já te disse da minha incredulida- de; pois se nosso infeliz amigo pregava a existência dum Deus de Justi- ça, que, em absoluto, podia estar de acordo com os horrores praticados no Templo, fácil é imaginar a reação às prédicas de João.

  4. De há muito os templários o teriam liquidado, se não temessem o povo, na maior parte, conhecedor de suas fraudes. Assim, resolveram fazer crer a Herodes que João tencionava provocar um levante con- tra o cruel Tetrarca. A fim de se certificar dessa trama, Herodes nos acompanhou ao deserto onde João levava vida austera. Em lá chegando, verificou tratar-se de uma mistificação sem precedentes por parte do Templo, fato que o revoltou bastante.

  5. Quando os sacerdotes insistiram em liquidar o profeta, ele re- agiu, em minha presença, dizendo: ‘Jamais farei assassinar quem quer que seja, a conselho de cães miseráveis!’ A tal resposta enérgica, os cava- leiros do inferno se retiraram. Fingindo conformação, contrataram, em segredo, assassinos para o extermínio de João.

  6. Informado disto, Herodes dele se apiedou e nos disse: ‘Tenho de salvar esse homem; para tal fim, ide e transmiti-lhe meu plano. De-

veis trazê-lo como prisioneiro, no entanto, pretendo protegê-lo.’ Dito e feito. Mas essa resolução logo chega ao conhecimento das víboras do Templo, e também a notícia do contato mantido entre João e seus adeptos. Conjecturaram, então, um plano pelo qual Herodes, por suas próprias mãos, pusesse término aos dias do profeta.

  1. Sabedores da atração que Salomé exercia sobre o Tetrarca, o qual, no entanto, não se atrevia, como judeu, a cometer adultério, os sacerdotes enviaram-lhe um emissário astuto. Este, sabedor da esterili- dade da mulher do Tetrarca, induziu-o a fazer uma pequena oferenda ao Templo, alegando que, assim agindo, ser-lhe-ia permitido manter uma concubina.

  2. De bom grado, Herodes aceitou essa sugestão, entregando al- gumas libras de ouro ao portador. Em seguida, enviou um mensageiro à filha de Herodíades, que aquiesce ao seu desejo, cedendo assim, à inescrupulosa influência de sua genitora. Esta a conduziu ataviada com ricos trajes a Herodes, entregando-a às suas graças. Ele, porém, tratou-

-a apenas com carinho, presenteou-a regiamente, permitindo-lhe livre acesso aos seus aposentos sem, no entanto, pecar com ela.

  1. De volta à casa materna, é inquirida sobre o sucedido. Informa- da do insucesso, logo percebi a decepção da velha, pois tive de acompa- nhar Salomé. Perderia ela assim o direito a uma indenização por parte de Herodes; este fato levou Herodíades a instruir a moça na arte de se- dução. Senti-me tão enojado com a atividade da genitora, que relatei o fato ao Tetrarca. Profundamente revoltado, este procurou João Baptista e lhe expôs o caso.”

  1. OASSASSÍNIODEJOÃO BAPTISTA

  1. (Zinka): “João, no entanto, lhe disse: ‘Afasta de ti Herodíades e sua filha; uma é serpente, outra, víbora! Além disto, conheces a Vontade de Deus Onipotente de Abraham, Isaac e Jacob e Sua Ordem que deu ao homem, desde o início, somente u’a mulher. Seja ela estéril ou não, uma vez casados, não podes manter uma concubina, pois se te munires de paciência, Deus bem pode permitir que tua mulher conceba, mesmo

em idade avançada! Lê a História dos patriarcas e lá acharás a confirma- ção de minhas palavras.

  1. Não aceites a separação sugerida pelo Templo, porquanto tal não foi inspirado por Deus e sim, por Moysés, em virtude da dureza dos sentimentos humanos. Podes estar certo de que essa determinação não foi do Agrado do Senhor! Considera, pois, apenas tua legítima esposa e dá autorização a Zinka para que impeça a penetração daquela criatura intrigante em tua casa! Seguindo este conselho permanecerás na amiza- de de Jehovah; do contrário, Seu inimigo de ti se apossará, fato que te trará o aniquilamento!’

  2. Persuadido pelas palavras de João, o Tetrarca resolveu afastar-

-se de Herodíades. Mas tanto ela quanto a filha tudo fizeram para tentá-lo; sempre que saía, deparava com Salomé adornada, usando de todos os atrativos possíveis; não tardou que ele próprio procurasse encontrá-la.

  1. Por ocasião de seu aniversário, Herodíades empregou todos os recursos para ser incluída, juntamente com sua filha, entre os convi- dados. Inquirida pelos templários em que pé estava a amizade entre o Tetrarca e sua filha, confessa nada existir de seguro, embora soubesse que ele lhe fazia a corte.

  2. Interfere um dos sacerdotes: ‘Disto apenas é culpado aquele profeta perigoso, protegido por Herodes! Mas de nada lhe adianta- rá isto, tornou-se um obstáculo entre vós e o Tetrarca! Quanto mais cedo João Baptista for exterminado, tanto maior será vossa ascendência no palácio!’

  3. Assim informadas, mãe e filha conjeturaram um meio seguro para o extermínio do profeta e a moça prometeu-me ouro e prata em abundância, caso lhe auxiliasse nesse projeto. Com o fito de me inteirar dos pormenores, aparentemente, concordei.

  4. Herodes, porém, me disse: ‘Que posso fazer? O melhor talvez seria isolarmos ainda mais o pobre João, permitindo-lhe apenas o con- tato com seus antigos adeptos, pois, facilmente poderia um templário, comprado pelas duas mulheres, cometer um crime. A fim de salvá-lo, consentirei nas visitas de Salomé ao meu palácio.’

  1. Como servo tive de obedecer, embora soubesse que tal medida não favorecesse a João. Daí por diante, Salomé visitava diariamente o Tetrarca, empregando todos os meios para conquistá-lo. Começaram, então, os templários a insistir junto a Herodes, influenciando-o contra João Baptista. Herodíades jurou no Templo que ela tudo faria nesse sentido e a moça, por sua vez, impediria o convívio entre os dois ho- mens. Conhecendo o temperamento de Herodes, não mais me atrevi a lembrá-lo das palavras do profeta.

  2. Deste modo, a trama prosseguiu até o natalício; alguns dias an-

tes, Salomé conseguiu uma vitória, porquanto deixou, numa tática bem estudada, de comparecer ao palácio, o que irritou muito o apaixonado Rei e o seu triunfo concretizou-se.”

  1. APRISÃODEJOÃO BAPTISTA

  1. (Zinka): “A maneira pela qual se verificou o crime é por todos conhecida; entretanto reinava, entre os discípulos de João, a crença de sua ressurreição e ida para a Galileia, onde pregava! Tal notícia chegou aos ouvidos de Herodes, e Salomé estava arrependida por ter obedecido a Herodíades. Herodes, de coração opresso, mandou-me à procura de João, para solicitar-lhe perdão pela injúria cometida.

  2. Lembrando-me das profecias de João sobre o Messias, repeti-as ao Tetrarca que me disse: ‘Pois vai e traz-me aquele de quem ele falou com tanta veneração; talvez nos possa ajudar!’ Expliquei ao Rei que eu nada conseguiria contra o poder do Nazareno, cuja força de pensamen- to poderia aniquilar milhares de seres. O soberano e sua mulher, porém, insistiram no seu desejo, prometendo trezentas moedas de prata pela captura de Jesus!

  3. Retruquei: ‘Se ele não vier por livre e espontânea vontade, não adianta querer forçá-lo, pois conhece, até ao âmago, nossos pensamen- tos.’ Respondeu-me ele: ‘Se o profeta for bom, saberá, também, que tenho boas intenções. Não pretendo repetir o que fiz com João!’

  4. E assim, aqui estamos, perto de nove semanas, nessa busca sem resultado! Nesse tempo, enviei mensageiros a Herodes expondo-lhe o

insucesso de nosso empreendimento; ele, entretanto, insiste dizendo achar-se aqui o ressuscitado João ou o tal poderoso profeta. Soubemos, nesse ínterim, dos fatos milagrosos ocorridos na zona de Cesareia Phi- lippi; encontramos, no entanto, apenas uma cidade em cinzas! Agora vos pedimos, caso seja possível, nos livreis daquele déspota, e vos sere- mos gratos!”

  1. OSUPOSTOPRIVILÉGIODE HERODES

  1. Responde Cirenius: “Atenderei ao vosso pedido, após certificar-

-me da autenticidade de tal autorização romana; tiveste oportunidade de verificá-la?”

  1. Afirma Zinka: “Como não? Pois tive de copiá-la perto de cin- quenta vezes, para depois fazê-las revalidar pelo Governador. Levavam apenas a assinatura de Augusto e não a tua.”

  2. Concluiu Cirenius: “Assim sendo, deve tratar-se duma nova au- torização que desconheço. Podes precisar em que época veio de Roma?”

  3. Responde Zinka: “No ano passado; a petição continha o pe- dido ao Imperador que, como soberano, tinha autoridade suficiente para, desprezando as conveniências, conferir ao Tetrarca o direito aci- ma mencionado. Claro é que tal documento foi acompanhado por boa soma em dinheiro, e seus cinco portadores, fariseus, poucos dias antes, haviam procurado Herodes oferecendo seus préstimos em Roma, pois para lá iriam a negócios.

  4. Tal oferecimento coincidiu com suas intenções, tanto mais quan- to os cinco judeus nada aceitaram à guisa de comissão. Assim, inicia-se a viagem com trinta camelos que transportavam a vultosa soma e que levaria, na melhor das hipóteses, três a quatro semanas. Comumente, leva-se outros tantos dias à espera de audiência com o Imperador e até a solução de assunto de tal ordem, decorrem, no mínimo, seis meses. Falta, ainda, calcular o trajeto de volta e, então, saberemos o tempo imenso gasto em tal empreendimento.

  5. Os referidos mensageiros, porém, fizeram entrega da autoriza-

ção mencionada em menos de seis semanas, congratulando-se com o

Tetrarca pelo bom êxito. Guardando o donativo generoso, inclusive os animais, os espertos fariseus falsificaram a assinatura imperial, fraude esta que o próprio Herodes ignora! Eis minha opinião particular e, em absoluto, quero julgar quem quer que seja!”

  1. AUTORIZAÇÃO FALSIFICADA

  1. Confirma Cirenius: “Amigo, isto não é uma suposição, mas a verdade plena, pois a viagem marítima daqui a Roma e vice-versa leva no mínimo quarenta dias. Além disto, a todo estrangeiro em Roma é imposta a permanência forçada de pelo menos setenta dias, não con- seguindo ele, antes deste prazo, qualquer solução para suas pretensões, medida sábia que visa canalizar maiores rendas para os cofres do Estado. De sorte que Herodes supõe possuir direitos maiores de que aqueles conferidos pelo tetrarcado.

  2. Agora compreendo por que nunca fui informado sobre o as-

sunto em apreço! Por força de minhas funções de plenipotenciário em Roma, sobre toda a Ásia e parte da África, sou notificado de todos os assuntos do Governo; qualquer outra atitude levar-me-ia a pensar em conspiração contra o Império! Daí se conclui ser falsa a autorização concedida por Herodes; devo esclarecer ao Tetrarca e, em seguida, ti- rar-lhe o documento falso que será enviado ao Imperador, como prova contra os criminosos, passíveis de castigo!”

  1. POLÍTICADOS TEMPLÁRIOS

  1. Interrompe Zinka: “Nobre senhor, esqueces o lado político que confere aos sacerdotes certos privilégios mundanos, aproveita- dos com verdadeira astúcia, pois se fazem passar por deuses, empre- gando o Verbo Divino a bel-prazer. O próprio Imperador subme- te-se a esse jogo inescrupuloso, explorando a superstição popular; as criaturas são assim mantidas obedientes e humildes perante o soberano, não se atrevendo a reclamar contra as leis e os impos- tos pesados.

  1. O Imperador, por sua vez, não se oporá a esses falsários, pois em ocasiões favoráveis sugerem, em seu nome, novas determinações cujos benefícios revertem para ambos. E se ele os chamar à responsabilidade, não se considerarão os únicos responsáveis e argumentarão, com a exce- lência dos motivos, para justificá-los. Finalmente o Imperador ver-se-á obrigado a elogiá-los e gratificá-los.

  2. Experimenta chamá-los à ordem, e terás de confirmar a autori- zação dada por Herodes; convencer-te-ão de sua necessidade e com ela enfrentarão o domínio do Tetrarca. Poderia ele, deste modo, angariar um poder prejudicial, até aos próprios romanos. Que te parece?”

  3. Responde Cirenius: “Não compreendo bem, pois se Herodes engendrava plano dessa ordem, por que não me puseram a par, secreta- mente? A distância entre Jerusalém e Sidon ou Tyro não é tão longa e, facilmente, teria encontrado os meios para vencer este empecilho. Além do mais, terão os templários de responder pelo dinheiro e os trinta ca- melos desviados!”

  4. Opõe Zinka: “Nobre senhor, podes possuir altos conhecimentos de Estado, mas nesse assunto és mais inexperiente que qualquer um! Ignoravas o caso por dois motivos: primeiro, o perigo dum possível atraso; segundo, desviar toda e qualquer atenção alheia. Tua reação se- ria violenta, provocando uma revolta entre o povo, e Herodes dela se aproveitaria, contra Roma. Quanto ao dinheiro e animais, só poderiam ser entregues a ti após te informarem do ocorrido.”

  5. Contesta Cirenius: “Mas não haveria um meio de intervir nessa trama sacerdotal?”

  6. Responde Zinka: “Infelizmente as coisas se acham tão emara- nhadas, que até Deus não te poderia aconselhar de modo diferente, isto é, por ora só resta aceitar tal situação. Pelo meu cálculo, também aceito por João Baptista, não se passarão quarenta anos para sua queda definitiva e vossa conquista total de toda a Judeia!”

  1. ADOUTRINADOPROFETA GALILEU

  1. Afirma Cirenius: “Amigo, reconheço tua perspicácia e prudên- cia, e Herodes educou-te para seres um advogado sem par. Já não mais sendo partidário de sua política e podendo contar com a nossa prote- ção, podes saber o que se passa aqui! Antes de mais nada, dize-me o que farias caso surgisse o grande profeta!”

  2. Responde Zinka: “Eu? Nada, deixá-lo-ia seguir caminho! Ape- nas tentaria falar-lhe, certificando-me das palavras de João, pois se este externou-se de forma tão elevada a seu respeito, quão sábio e poderoso não será em realidade?!

  3. Saiba que, se realmente tencionasse prendê-lo, de há muito o poderia ter feito, pois nunca ignorei o paradeiro de Jesus. Retinha-me, porém, receio incontido e preferiria falar-lhe, jamais usando hipocrisia!”

  4. Nisto, dirijo-Me Pessoalmente a Zinka: “Caro amigo, conheço Jesus de Nazareth como a Mim Mesmo e te posso afirmar não ser Ele inimigo, mas benfeitor de todos aqueles que O procuram, em busca de auxílio! É inimigo do pecado, mas não do pecador verdadeiramente arrependido, humilde e desejoso de regeneração. Jamais julgou e con- denou alguém, mesmo que seus pecados excedessem aos grãos de areia desta Terra.

  5. Sua Doutrina se resume no conhecimento de Deus, amando-O sobre tudo e a seu semelhante, seja nobre ou plebeu, rico ou pobre e sem discriminação de sexo, tanto quanto a si próprio. Quem sempre agir assim e evitar o pecado, em breve saberá que tal ensinamento não é humano, mas vem de Deus! Só Deus e aqueles que com Ele aprende- ram, sabem o caminho pelo qual se alcançará a Graça da Vida Eterna.

  6. Aos instruídos pelo conhecimento humano, longe se acham do Reino de Deus. Ouvem as palavras humanas, sem lhes darem crédito porque partem de um mortal e não frutificam em seus corações. A Pa- lavra proferida pela Boca de Deus não é morta, mas viva; movimenta o coração e a vontade da criatura para a atividade, vivificando-a plena- mente. Uma vez assim fecundada pelo Verbo Divino, continua ilumi- nada e livre para sempre, jamais sentindo e provando a morte, mesmo

morrendo fisicamente mil vezes! — Eis, amigo, em poucas palavras, a base da Doutrina do Grande Profeta de Nazareth! Que Me dizes a respeito?”

  1. OPINIÃODEZINKASOBREA DOUTRINA

  1. Após breve meditação, Zinka responde: “Caro amigo, nada se lhe pode contestar, muito embora seja um tanto complexa. Muitos sá- bios baseavam seus princípios no amor, sob alegação de que este facul- tava toda sorte de alegria. Todavia, existem duas espécies de amor e é difícil se afirmar qual a preferível.

  2. Tu, porém, esclareceste nitidamente que espécie de sentimento o homem deve cultivar para alcançar a felicidade. Logo, esta doutrina não é humana, mas de Deus, provando Sua Existência. Agradeço-te de coração, pois parece-me ter reencontrado o Deus perdido.

  3. João Baptista esforçou-se para me convencer do Ser Divino, sem consegui-lo, à vista dos meus argumentos bem fundamentados lhe te- rem dificultado a tarefa.

  4. Tu, porém, dispersaste-me todas as dúvidas! Se a pessoa não achar a entrada que dá acesso ao palácio imperial, jamais a descobrirá no centro do labirinto, onde o soberano localizou sua morada. Agora, peço-te me esclareças quando tiveste a felicidade de encontrar aquele homem excepcional, que tanto desejaria conhecer.”

  5. Digo Eu: “Permanece aqui, que o encontrarás após a próxima conversa. Além disso, Marcus fará servir o almoço dentre em breve, do qual servir-te-ás à nossa mesa, enquanto teus vinte e nove companhei- ros sentar-se-ão ao lado.”

  6. Assim que Marcus ordena trazer os pratos, Zinka se admira que tantas mesas sejam servidas ao mesmo tempo. Comentando isto com Ebahl, o hospedeiro lhe diz: “Certamente não prestaste atenção quando isto foi feito.” Replica Zinka: “Amigo, por mais absorvido que esteja num assunto, nada escapa à minha percepção. Já não me inte- ressa qualquer informação, apenas persisto em dizer tratar-se de algo sobrenatural.”

  1. ZINKASEADMIRADO MILAGRE

  1. Zinka, de boa estatura, levanta-se e observa que, embora to- das as mesas estivessem ocupadas pelos hóspedes que saboreavam os pratos bem preparados, os alimentos não diminuíam, fato que o deixa atordoado. Isto, porém, não só acontece aos outros, como a ele próprio, não conseguindo terminar o saboroso peixe que lhe servira Ebahl.

  2. A mesma agradável surpresa acomete aos seus colegas que, não obstante terem saciado sua fome, o apetite os anima a prosseguir; fi- nalmente, Zinka insiste numa explicação por parte de Cirenius. Ele, porém, diz: “Após terminado o almoço, haverá tempo para palestras, portanto, serve-te à vontade!”

  3. Diz Zinka: “Amigo e nobre senhor, jamais fui glutão; se, no en- tanto, permanecer em tua companhia, bem poderei cair nesse defeito e continuo afirmando que aqui se passa algo de sobrenatural. Talvez nos encontrássemos perto do grande Profeta que procuro com meus companheiros?! Neste caso, pedir-te-ia para nos deixar seguir caminho ou então prender-nos novamente, pois nosso juramento a Herodes nos forçaria a matá-lo!”

  4. Diz Cirenius: “Que tolice é esta? Onde se viu uma lei obrigar alguém ao cumprimento dum crime?! Pelo fato de serdes meus pri- sioneiros, estais quites com Herodes e apenas tendes de obedecer às minhas ordens.

  5. Se surgisse o grande Profeta, nenhum de vós se atreveria a to- cá-lo, pois haveria de sentir o peso do rigor de Roma! Ainda há pouco te classifiquei de homem inteligente; agora és tudo menos isto! Acaso tentavas enganar-me?”

  6. Responde Zinka: “Absolutamente; confirmo minhas opiniões anteriores, entretanto, por ser prisioneiro, vejo-me impossibilitado de pedir-te explicação sobre o fenômeno ora presenciado, o que me abor- rece. Todavia, resolvo não mais ligar a este fato e não quero mais saber o que há pouco tanto me intrigou! Podeis estar despreocupados, pois não vos molestarei com futuras indagações!”

  1. ASEDEDOSABER.AVERDADEIRAARTEDO CANTO

  1. Em surdina, Cirenius Me pergunta que resultado obter-se-á com Zinka. Respondo: “Muito bom; como, porém, necessitava de repouso, fiz com que caísse nessa indiferença.

  2. Deves saber que uma alma sedenta de conhecimento elevado não se desinteressa tão facilmente. Passa-se com ela o mesmo que sen- te um noivo apaixonado; sua eleita, entretanto, sendo volúvel, pensa consigo mesma: ‘Se não for este, será outro!’ Percebendo com o tempo essa atitude, o noivo se entristece e resolve não mais pensar nela; mas..., quanto mais se esforça, tanto maior a atração; finalmente deseja que todas as asserções referentes à noiva sejam infundadas.

  3. Acontece, porém, ter ele a oportunidade de vê-la com outro, e sua revolta é quase insuportável: jura que jamais pensará nela e até a amaldiçoa! Tudo isto, todavia, de nada adianta, pois que os pensamen- tos apaixonados o assediam constantemente.

  4. Por que isto, se resolveu excluí-la de sua mente?! Acontece um amigo lhe dizer: ‘Olha, foste injusto para com tua noiva, que apenas queria experimentar teu afeto. Sendo pobre e tu rico, não acreditava que a quisesses desposar e tomava tuas promessas como pilhérias, pois é comum aos moços agirem deste modo. Agora ela se certificou de teus propósitos e te quer mais do que nunca. Sabes, portanto, o que fazer!’ Tais palavras do amigo foram um verdadeiro bálsamo para o noivo, que mal podia aguardar o momento para tomá-la como esposa.

  5. Fato idêntico se passa com Zinka: aparentemente come e bebe,

dando impressão de não mais se interessar pelo milagre; no íntimo, conjetura mil coisas! Por isso, não te preocupes.

  1. Conheço as criaturas e sei o que se passa nos corações, cujos sentimentos se acham sob Minha Orientação; ajo sempre quando ne- cessário. Deixai-nos saborear o almoço. Necessitamos de reforço para a tarde, e o jantar não será servido tão cedo.”

  2. Todos estão de bom humor, louvam a Deus e até tentam cantar. Além de Hermes, porém, não há quem tenha voz e ele mesmo se recusa, temendo a crítica dos romanos. Como os outros insistem, ele se defen-

de: “Meus amigos, faço meu canto de louvor a Jehovah no coração, e tenho certeza que isto é de Seu Agrado!”

  1. Afirmo: “Tens razão, Hermes, o cântico de teu coração soa muito mais agradavelmente aos ouvidos de Deus que o fútil canta- rolar que sensibiliza somente aos ouvidos, deixando o coração frio e insensível.

  2. O canto é agradável aos Ouvidos de Deus quando a voz é meiga e pura, traduzindo o estado de êxtase do coração pleno de amor. Assim não sendo, ele se assemelha à água lamacenta; e, se dela aproximássemos uma chama, fácil seria imaginar os odores dela emanados!”

  3. Eis que a adorável Yarah Me diz: “Senhor, já que estamos tão alegres, que tal se Raphael cantasse algo?!”

  4. Respondo, amável: “Vai e pede-lhe este favor, que Eu não Me oporei.”

  5. Repetindo Yarah seu pedido ao anjo, este esclarece: “Não fazes ideia do nosso canto e aviso-te que não suportarás minha voz por longo tempo, por ser ela pura e excessivamente comovedora. Se cantar, que seja, por um quarto de hora, morrerias de comoção, pois na Terra não existe o que se lhe pudesse comparar! Assim, querida, se quiseres, can- tarei, todavia não posso responsabilizar-me pelo efeito.”

  6. Diz Yarah: “Canta um único som, ao menos, que ele certamen- te não me matará!”

  7. Aduz Raphael: “Fá-lo-ei, e todos, mesmo os distantes daqui, ouvi-lo-ão e indagarão sobre sua origem. Para tanto vou me preparar e tu também, pois até um único som terá efeito surpreendente.”

  1. RAPHAEL, CANTOR

  1. Ouvindo tais palavras, Zinka indaga de Ebahl, a seu lado: “Este jovem é cantor especializado?” Responde o hospedeiro: “Parece-me; nunca tive o prazer de ouvi-lo e também estou curioso por conhecer sua voz.” Prossegue Zinka: “Quem é ele e sua companheira?” Responde Ebahl: “Sei que o jovem é de Genezareth e professor dela, minha filha de quinze anos.”

  1. Nisto diz Raphael: “Ouvi, pois!” Eis que todos percebem, de muito longe, um som tão indescritivelmente puro, embora fraco, que ficam extasiados, e Zinka exclama: “Este não é cantor terreno, só pode ser um anjo de Deus!”

  2. O som, porém, torna-se mais forte e vibrante e quando alcança sua máxima potência, soa qual acorde em ré bemol maior com toda a sua série harmônica, perdendo-se, no final, num suave lá bemol duma pureza jamais percebida.

  3. Os ouvintes caem em êxtase, do qual o anjo os tira a um aceno Meu. Todos despertam como dum sonho feliz e Zinka, cheio de entu- siasmo, atira-se sobre Raphael, abraça-o com efusão e diz: “Não és mor- tal! Com esta voz poderás despertar mortos e vivificar pedras! Quem te ensinou a cantar de tal forma?!

  4. Estou completamente fora de mim e todas as minhas fibras ainda vibram em virtude do deslumbramento e da beleza deste canto! Tenho até a impressão de não ter sido emitido por tua boca, mas pa- receu-me que todos os Céus se tivessem aberto, vertendo sobre a Terra morta, a harmonia vinda de Deus!

  5. Ó Deus de Abraham, Isaac e Jacob, não és apenas uma palavra pronunciada! És unicamente a Verdade e a Perfeição Pura e Eterna! Este som me restituiu o que havia perdido, devolveu-me o Santo Criador, Deus e Pai! Tornou-se para minha alma um Evangelho Celeste! Aquilo que talvez milhares de palavras não teriam conseguido, foi obtido por este único som celestial, que concretizou o meu ser! Meu coração, outrora endurecido, tornou-se qual cera ao Sol e cheio de sentimentos de pureza!

  6. João, meu caro amigo! Se o tivesses percebido no último instante de tua existência, tua morte se teria tornado um fanal para os Céus do Pai! Todavia, no escuro cárcere que ocultava o Santo de Deus, apenas se ouvia clamores de aflição e dor!

  7. Ó criaturas, quão obscurecidos se acham vossos corações e al- mas, por não terdes ouvido e sentido o que jamais esquecerei! Santo e Querido Pai, que estás no Céu, jamais desconsiderando os rogos sin- ceros dum pecador, permite possa novamente ouvir este som, quando chegar a hora de minha partida para o Além!”

  1. O CONVÍVIO COM DEUS PELA VOZ INTERNA DO CORAÇÃO

  1. Após tais palavras comovedoras de Zinka, exclama Yarah: “Ó Raphael, como agora és diferente! Partiste-me o coração! Por que fos- te cantar?”

  2. Responde ele: “Mas então não me obrigaste a tal? Agora não mais me é possível anulá-lo! Considera que nos Céus tudo se lhe deve igualar e terás oportunidade de organizar tua vida à imagem desse som; quem assim não agir, não ingressará no Reino do Amor, Puro e Eterno.

  3. Acabas de ouvir o som do Amor e da Máxima Sabedoria de Deus! Guarda bem isto e age de acordo, que serás justificada diante de Deus, que te elegeu para noiva celeste, dando-me para teu guia.

  4. Isto que acaba de acontecer se dá apenas diante de Deus e de Seus filhos. O mundo materialista nada perceberá, porquanto não o assimilaria. Observa as pessoas naquelas mesas, como discutem sobre este assunto incompreensível.

  5. O Senhor Se acha aqui há vários dias, sendo amanhã o último; somente Ele sabe o que fará então. Ilumina, pois, teu coração de amor e humildade e oculta o que assiste de extraordinário; relatá-lo a pessoas mundanas seria o mesmo que atirar pérolas aos porcos. Segue o que ora te aconselho, que serás um instrumento útil nas Mãos do Senhor, na Terra como no Céu. Ouviste?”

  6. Responde Yarah: “Caro Raphael, tuas palavras não me agradam, mormente a partida do Senhor, que amo sobre tudo nesta vida! Que será de mim quando não mais puder vê-Lo e falar-Lhe!”

  7. Diz Raphael: “Ora, passarás muito bem, pois te será possível fazer-

-Lhe indagações com o coração, pelo qual também ouvirás as respostas.

  1. Que, por exemplo, acontece conosco? Por ora me vês aqui; mas se for da Vontade do Senhor, terei de me dirigir ao mundo mais distante e pelo tempo que Ele achar necessário. Crê-me, geralmente nos encon- tramos longe do Senhor, todavia em Sua Eterna Presença Espiritual; estamos constantemente com Deus, como Ele em nós, em Sua Ação Imensurável.

  1. Quem realmente ama o Senhor acha-se sempre com Ele. Se de- seja Dele uma orientação, basta inquiri-Lo no íntimo que receberá de pronto a resposta plena pela mesma via; assim Deus ensina as criaturas. Por aí vês não ser preciso Sua Presença para seres feliz; basta ouvi-Lo e senti-Lo para possuir a bem-aventurança!

  2. Nem eu estarei visível ao teu lado; necessitas, apenas, chamar-

-me no coração, e aí estarei contigo, respondendo suavemente mas de modo perceptível, porque usarei, como veículo, os pensamentos suaves de tua alma. Logo saberás ter sido eu o autor e não tu; portanto, deves agir dentro daquele conceito.

  1. Não basta, apenas, saber o que agrada a Deus, mesmo alguém se comprazendo na Doutrina Celeste, enquanto não resolve pô-la em prática. Eis por que urge ouvi-la, compreendê-la e depois praticá-la. Assim não sendo, nada é resolvido!”

  1. COMOSEDEVECUIDARDOCAMPO EMOTIVO

  1. Raphael: “Lembras-te, querida Yarah, que o Senhor durante Sua Estada em Genezareth te ensinou, Pessoalmente, o cultivo de várias plantas, organizando uma pequena horta.

  2. Sua Atitude Benevolente causou-te grande alegria. Teria sido tal satisfação suficiente para colheres os frutos esperados? Essa atitude tal- vez te proporcionasse o crescimento da erva daninha, — e só! Todavia cultivaste tua hortazinha, de acordo com a orientação recebida, de sorte que podes aguardar boa colheita.

  3. De modo semelhante é o coração humano uma horta que, sen- do bem trabalhada e não temendo praticar os ensinamentos recebidos, em breve possuirá tantas Bênçãos e Graças Divinas, de sorte a poder dispensar nosso conselho e auxílio, vivendo de suas próprias potências espirituais.

  4. O Senhor visa justamente que a criatura se torne cidadã independente do Céu, dentro de Sua Ordem Imutável, quando, então, alcança o máximo grau de evolução. Terás compreendido isto, Yarah?”

  1. Responde ela: “Perfeitamente; tuas palavras deram grande con- solo ao meu coração e delas farei princípio de vida, cheio de alegria e verdade. Penso não te ser tarefa difícil, minha educação espiritual. Mas será que outras criaturas fazem o mesmo?”

  2. Diz Raphael: “Trata primeiro de ti, que o Senhor Se incumbirá dos outros.”

  1. INDAGAÇÕESDE ZINKA

  1. Zinka não perdera uma palavra desse ensinamento e se dirige a Ebahl, que lhe inspira maior confiança: “Amigo, este jovem não só é bom cantor, como possui conhecimento sobrenatural. Dize-me se não é aquele de quem João falava? Apenas me parece jovem demais, pois consta ter alcançado a casa dos trinta.”

  2. Obtempera Ebahl: “Caro amigo, é um de Seus principais adep- tos. O Profeta de Nazareth é Possuidor de Poder e Sabedoria tais, que os próprios anjos descem à Terra para ouvi-Lo e louvá-Lo!

  3. Prova isto o jovem mencionado que não sabes como classificar; como ser humano é demasiado angelical, e como anjo, talvez um tanto terreno! Há mais de um mês habita em minha casa e é professor de minha filha; além disto, não tem pais terrenos mas, em compensação, um poder incompreensível. Além do mais podes te dirigir a ele que, absolutamente, não é orgulhoso!”

  4. Responde Zinka: “Já sei a quantas ando, apenas desejava saber se o tal Profeta aqui se encontra, pois do contrário não compreendo a presença dum anjo. Dá-me pequena orientação.”

  5. Diz Ebahl: “Um pouco de paciência, amigo, e terás oportunida- de de conhecê-lo. Afirmo-te, contudo, achar-se ele aqui, do contrário, não verias os dignitários de Roma em nosso meio.”

  6. Satisfeito, Zinka começa a observar Cornélius e Cirenius, mor- mente o anjo, supondo que este Me trairia! Como Eu lhes inspirava as palavras, seu trabalho para descobrir-Me é baldado; além disto, a refei- ção terminava, nós nos levantamos e dirigimo-nos à praia, palestrando sobre assuntos de somenos importância.

  1. JESUS RESSUSCITA OS DOIS CADÁVERES. ZINKA O RECONHECE COMO SENHOR

  1. Em breve chegamos ao local onde Risa aguarda a ressurreição das afogadas. Eis que Cirenius lhe diz: “Então, amigo, já estão dando sinal de vida?”

  2. Responde o judeu: “Nobre amigo, é completamente inútil todo meu esforço e somente Deus lhes poderá restituir a vida.” Intervenho: “Pensas realmente assim?”

  3. Diz ele: “Basta observares a cor arroxeada e o odor que exalam para saberes que somente ressuscitarão no Dia do Juízo Final!”

  4. Nisto Zinka se adianta para também fazer suas observações, di- zendo: “Tens razão, se é que existe tal famoso Dia; pois sei da transfor- mação a que está sujeita a matéria: transforma-se em vermes, moscas, escaravelhos, ervas e plantas. Quantas pessoas não são estraçalhadas pe- las feras ou dizimadas pelo fogo! Deveriam, acaso, reunir seus elemen- tos materiais, para a ressurreição no Dia do Juízo Final?! Afirmo, como conhecedor do processo de decomposição, que até Deus terá dificulda- des nesse empreendimento. Poderá proporcionar-lhes um corpo etéreo; neste, não mais lhes doerá a cabeça!”

  5. Digo-lhe: “Amigo, és inteligente e não raro atinges o ponto vul-

nerável; no caso em apreço, erraste! Não resta dúvida que alma alguma fará uso de seu corpo mortal no Além; estes corpos, contudo, deverão ser, por certo tempo, receptáculos de suas almas! Uma será tua esposa, dar-te-á considerável prole e tu a amarás de todo coração; a outra será desposada por Risa sem, todavia, dar-lhe filhos!”

  1. Em seguida, pronuncio os nomes das duas afogadas, que ime- diatamente se levantam surpreendidas, sem saber o que se passa. Risa e Zinka se jogam a Meus Pés e o último exclama: “És Tu, de quem João falou! Todavia não és o profeta, mas o Próprio Jehovah!”

  2. Esta cena atrai naturalmente os outros, e o persa Schabbi diz a Zinka: “Sinto que julgaste acertadamente. Ele é Jehovah! E o jovem arcanjo é precisamente aquele, que em tempos idos conduziu o jovem Tobias! Agora iniciar-se-á uma nova Era!

  1. Muitos aborrecer-se-ão com Ele e tentarão aplicar-Lhe a mesma injustiça que sofreu João; este desejo, porém, dizimá-los-á em virtude de Seu Poder e Sabedoria que os cegará como as trevas, pois jamais a Terra foi por Ele pisada!

  2. Eis a opinião de nosso grupo que já não teme o mundo, a não ser Ele! Foste testemunha do Poder de Seu Verbo pela ressurreição destas moças, que necessitam de vestes apropriadas. Para tanto dirigir-me-ei às mulheres que nos acompanham!”

  1. HISTÓRIADASDUAS MOÇAS

  1. Como Schabbi Me pedisse autorização, Eu lhe digo: “Como não? Jamais alguém pecou por ter praticado a caridade!”

  2. Não demora e ele está de volta com camisas de seda branca, vestidos de fina lã persa, azul claro, e dois pares de alfinetes de ouro, enfeitados com longas fitas. Além disto, dois pentes em forma de diade- ma, ornamentados com pedras preciosas. As moças, porém, recusam-se a aceitar as joias.

  3. Digo Eu: “Já que é de Minha Vontade, podeis aceitá-las como presente nupcial!” Assim, enfeitam-se, assemelhando-se a duas prince- sas. Zinka, todo embevecido, diz: “Eis outro milagre! Quando há pou- co as vi inertes, pareciam-me de idade avançada, desprovidas de toda graça; agora, são dois tipos de rara beleza!”

  4. Aduz Cirenius: “Caso sejam órfãs, adotá-las-ei como se fossem minhas filhas!”

  5. Diz a mais velha, chamada Gamiela: “Não temos pais e aque- les que assim tratávamos, não tinham o menor parentesco com nossa família. Com a idade de dois e três anos fomos levadas à casa dum comerciante grego, que mais tarde, adotou o judaísmo e, pelo relato duma velha ama, um vendedor de escravos nos trouxera de Sidon a Capernaum, onde o tal grego nos comprou pelo preço de cinco suínos, cinco bezerros e oito carneiros.

  6. Naquela ocasião, nosso tutor recebeu um documento onde constava nossa procedência, pois nossos pais seriam romanos de alta

estirpe. Nossa viagem prende-se, justamente, à descoberta dessa supo- sição, que um parente distante nos deveria esclarecer. Por infelicidade caímos em mãos de piratas que nos atiraram ao mar, após deixar-nos na maior miséria! Onde nos encontramos e quem sois?”

  1. CIRENIUSRECONHECESUAS FILHAS

  1. Diz Cirenius: “Um momento, Gamiela, como se chama tua irmã?” Responde aquela: “Ida!” Eis que Cirenius Me beija e Me abraça, dizendo: “Senhor, como agradecer-Te?! Meu Deus, meu Pai! Restitu- íste-me minhas filhas que foram raptadas há dezessete anos! Até hoje ignoro como foi possível tal fato, pois minha casa era constantemen- te vigiada!

  2. Mandei vários investigadores à busca das meninas e um capitão destemido esforçou-se durante três anos. Então enviei um mensageiro a Nazareth à Tua procura! Tu, todavia, eras apenas um menino de seus quatorze anos e não havia vestígio de profecias.

  3. Teus próprios pais afirmavam ter-se, desde os doze anos, dissipado toda sabedoria, identificando-Te aos demais meninos. Como insistissem que Te externasses sobre o meu caso, afirmaste, então, não teres vindo ao mundo em virtude das profecias, mas para o trabalho.

  4. Quando Te relembraram os milagres praticados até aos doze anos, afirmaste que ‘o que foi, já não era mais’, sem dares maiores expli- cações. Assim, todas as minhas pesquisas foram baldadas e chorei anos seguidos a perda de minhas filhas, e agora as encontro de novo! Como agradecer-Te, Senhor?”

  5. Digo Eu: “Já o fizeste, antecipadamente, pelo cuidado que dis- pensaste a todos aqui. Como Meu primeiro amigo na Terra, muito Me tens feito e não deves ficar sem recompensa. No Além, todavia, teu mérito será ainda maior!

  6. Restituindo-te as filhas, não deves esquecer de que já escolhi seus respectivos maridos, de origem simples, é verdade, mas são de certo modo Meus filhos, circunstância esta que te alegrará!”

  1. Responde Cirenius: “Senhor, Tua Vontade é para mim um man- damento; saberei encaminhar meus genros de sorte a se tornarem úteis, espiritual e materialmente.

  2. Agora, minhas filhas, deixai-vos abraçar e beijar, pois sou o pai mais feliz deste mundo! Quão contente não ficará vossa mãe ao ter-vos de novo. Muito embora não vos possa ver por ser cega, sentirá a grande felicidade que Deus nos concedeu! Como cega tornou-se minha esposa, recuperando a visão, temporariamente; a conformação com a cegueira definitiva aguçou-lhe a intuição, de sorte que vos reconhecerá de pronto!

  3. Que desespero não teria eu sentido ao ver-vos boiando n’água, de cabelos amarrados, se soubesse quem realmente sois! O Senhor, po- rém, foi Magnânimo evitando isto, permitindo que minha alegria fosse completa!”

  1. MODÉSTIADE ZINKA

  1. Nisto se aproxima Zinka e diz a Cirenius: “Nobre senhor! Como vejo, as coisas tomam um rumo inesperado: estas moças não são filhas dum simples comerciante, mas da casa imperial, e eu apenas um judeu! Que vale isto, quando és o irmão do falecido Imperador Augusto e um dos patrícios mais ricos de Roma?!

  2. Minha felicidade ao lado de Gamiela seria completa, mas não a posso desposar. Hoje, levado pelo entusiasmo do reencontro, serias capaz de concordar com o enlace; amanhã, talvez ficarias arrependido! Que sofrimento não seria isto para mim?! Apenas aceitá-la-ei com a certeza de que não me será tirada. Como dignitário romano peço-te me dês oportunidade de trabalhar em tuas terras, pois não quero voltar a Jerusalém!”

  3. Diz Cirenius: “Deixa isto por minha conta. Quanto à minha filha, a recebeste das Mãos do Próprio Senhor, cujas Determinações, para mim, são santificadas. Pela Sua Vontade, sou pessoa de destaque no Império romano; no Além, meu amigo, todos somos iguais! Por isto, não te impressiones com minha posição social, que procuro usar em benefício da Humanidade. És e serás sempre meu filho!”

  1. Exclama Zinka: “Em verdade, somente uma alma plena da Ver- dade Divina pode assim se expressar! Minha fé jamais será abalada, pois só Ele merece meu amor e dedicação!” Em seguida, ele se joga a Meus Pés, dizendo: “Senhor, perdoa-me os pecados, para que possa adorar-Te de coração puro!”

  2. Respondo: “Levanta-te, Meu irmão! Já te perdoei, pois conhecia teu coração! Foste designado para prender-Me, e Eu permiti que Me prendesses pelo teu sentimento e para tua salvação! Vem, sê feliz e tor- na-te um instrumento útil para o Meu Reino!”

  3. Zinka se levanta e começa a meditar, profundamente, sobre a grandiosidade e significação deste acontecimento. Mais tarde, ao Meu lado, ainda se fará ouvir, porque, depois de Mathael, é o espírito mais lúcido de nossa assembleia.

  1. AÇÃOE VERBOSIDADE

  1. Nem bem acalmamos os escrúpulos de Zinka, aproxima-se Risa para iniciar discurso idêntico, como segundo genro de Cirenius. Rapha- el, porém, bate-lhe no ombro, dizendo: “Amigo, fica com tua verdadeira personalidade, pois estás longe de ser um Zinka! És bom e honesto, mas não deves agir contrariamente aos teus sentimentos. Compreendes?”

  2. Responde Risa: “Amigo celeste, seguirei teu conselho e externa- rei o que diz meu coração. Ainda sou jovem e tenho poucas experiên- cias, mormente com o sexo feminino. A segunda filha de Cirenius é-me mui simpática; sinto, porém, não estar à altura de fazê-la feliz! Até o momento, não estou apaixonado e fácil seria desistir desta felicidade, o que não se daria mais tarde. Por isto, peço ao Senhor e ao Prefeito que me desliguem deste compromisso. Falei o que sinto e ser-te-ia grato, caso me pudesses ajudar.”

  3. Protesta Raphael: “Amigo, necessitarás de pouco auxílio, por

isto aceitemos o que Ele determinou! Se bem que podes renunciar a tudo — pois, além da forma física, Deus nada determina sem conside- rar o livre-arbítrio da criatura — não é de grande sabedoria subestimar, por menor que seja, Seu Aceno. Compreendeste?”

  1. Responde Risa: “Perfeitamente, e digo mais: Quem faz a Vonta- de de Deus não pode errar, pois ninguém melhor do que Ele sabe das nossas necessidades. Já basta a luta pela vida material, onde o homem muitas vezes fracassa; se ainda pretende reagir contra sua felicidade, difícil será seu progresso espiritual. Tenho razão?”

  2. Obtempera Raphael bondoso: “Sim, todavia, esclareço-te ser mais útil agir em benefício do próximo do que falar em excesso! Teu exemplo, em ambos os casos, terá adeptos, sendo que no último o re- sultado não será apreciável, pois, de índole fraca e não possuindo o teu grau de conhecimento, serão fatalmente levados à presunção. Pela falta de coerência e convicção em suas opiniões, com o tempo, toda sorte de falsas doutrinas serão divulgadas, levando a Humanidade às trevas, onde aquelas teorias dificilmente poderão ser esclarecidas; enquanto que as variadas formas do Bem tornam as criaturas nobres e sinceras. Um coração franco é o melhor viveiro para a verdadeira sabedoria e saberá expressar-se de modo apropriado, sempre que necessário.

  3. Digo isto, por pressentir em ti forte preferência para a conver-

sa fútil, desconhecendo, entretanto, aquilo que deve conter um bom discurso. Por isto fala pouco, ouve com atenção e age tanto quanto possível de acordo com Sua Vontade e Graça, se desejas tornar-te um verdadeiro discípulo do Senhor.

  1. Os que forem destinados a falar e pregar, serão por Ele esco- lhidos; os outros, apenas reservados para a prática dentro dos moldes ditados pela Sua Doutrina, recebendo séria incumbência, tornando-se assim merecedores das Graças Perenes de Deus. Transmite isto aos ami- gos, entre os quais alguns têm o teu defeito. O Senhor os destinou à ação e não à divulgação de suas ideias.

  2. Ele te confere a felicidade terrena para que possas futuramente fa- zer o Bem; convocado para doutrinador, ter-te-ia falado: — Vem e segue-

-Me, para aprenderes a Sabedoria Divina, pois a doutrinação exige mais que a prática, por ser esta o fator principal, impulsionado pelo Verbo!

  1. Que alegria Cirenius dá ao Senhor, causada não pela verbosi- dade, mas, exclusivamente, pela prática das obras do Bem! Quem age como ele, saberá, em época oportuna, expressar-se de modo convincen-

te, pois um coração bondoso não é destituído de luz celeste. Aquele que adquiri-la no exercício das ações do Bem saberá, nitidamente, quando e o que deve falar. Compreendeste-me bem?”

  1. Responde Risa: “Como não?! Falaste a pura Verdade e ela é fa- cilmente assimilada. Agirei como me orientaste, guiando meus colegas à mesma senda; desejava, porém, saber qual a missão de Zinka.”

  2. Esclarece Raphael: “Risa, existe uma grande diferença entre vossas experiências: Zinka é uma alma nobre do Alto, possuidora de vastos conhecimentos, embora conte apenas dez anos mais que tu; eis por que será convocada para agir e falar. O mesmo se dará contigo, desde que estejas mais experiente.”

  1. CONJETURASDEHEBRAME RISA

  1. Gravando tais palavras no fundo do coração, Risa volta para jun- to de seus colegas, sendo felicitado pelo seu noivado; ele os interrompe, todavia, transmitindo-lhes o ensinamento do anjo.

  2. Eis que se manifesta Hebram: “É extraordinário tal discurso e só pode ter origem divina; todavia o orador falou antes de agir, o que acho justo, porquanto toda boa ação deve ser precedida por ensinamen- to adequado.

  3. Tem razão Raphael, pois as próprias leis indicam ao homem como agir, basta apenas querer para fazer surgir uma boa ação. Todavia, presumo que, a simples identificação do Bem não seja conhecimento suficiente para criaturas materialistas, levadas que são, facilmente, pelo egoísmo. Urge divulgar a cartilha da lei do amor, de sorte que o adepto receba ensinamentos claros e convincentes para a prática do Bem, escu- dando-o contra as tentações.

  4. Assim não sendo, a prática da virtude, embora reconhecendo-se seu incontestável valor, permanecerá problema preso a uma série de dificuldades e renúncias, conduzindo a criatura à desistência dos seus bons propósitos. Segue ela apenas os impulsos dos instintos, até alcan- çar a maturidade. Por isto, sou de opinião que a lei do amor ao próximo deve ser exemplificada.”

  1. Aduz Risa: “Tens razão e afirmas exatamente aquilo que Ra- phael havia explicado: só deve falar e doutrinar quem foi convocado pelo Senhor, pois também poderá provar suas assertivas, assim como fui induzido pelo anjo a agir. Mas se ambos fôssemos doutrinar, profe- riríamos muita tolice, e facilmente seríamos contestados por qualquer bom orador. Se, no entanto, praticarmos boas ações, não achará como contradizer-nos. Não é isto?”

  2. Diz Hebram: “Incontestavelmente! Mas quão estranho é o ho- mem! Recorda-te que, durante nossos estudos da Escritura, ficávamos constantemente comovidos com as passagens referentes ao Espírito Di- vino, que nem nos atrevíamos mencionar!

  3. E agora nos encontramos diante de Deus, que determinou Suas Leis no Monte Sinai! O arcanjo, guia do jovem Tobias, convive conosco como simples criatura, ensinando-nos a Vontade do Pai! Além disto, re- alizam-se os maiores milagres, o que em absoluto nos abala! Qual seria o motivo? Pelo justo deveríamos cair em êxtase, todavia, permanecemos insensíveis!”

  4. Conjectura o amigo: “Acalma-te! Certamente o Senhor assim o quer, pois se nos encontrássemos em constante deslumbramento, muita coisa passaria despercebida a nossos olhos. Uma vez os fatos serenados, nossa alma terá oportunidade de se manifestar!”

  5. Concorda Hebram: “Novamente dou-te razão; todavia não acho prejudicial a pessoa se empolgar com acontecimentos de tal ordem. Se essa insensibilidade dependesse de nós, seria um grande pecado; assim, agradeçamos ao Senhor, por tudo que nos facultou de Mãos cheias e fa- çamos o maior esforço em praticarmos Seus Ensinamentos. Admiro-me também do adiantamento espiritual de Zinka, ex-servo de Herodes. Onde teria adquirido sabedoria tão profunda?” Responde Risa: “Não tenho ideia; talvez assimilou, como amigo de João Baptista, os conhe- cimentos daquele profeta. Agora, calemo-nos; parece-me que o Senhor quer Se externar.”

  1. UM ACONTECIMENTO DURANTE A ADOLESCÊNCIA DE JESUS

  1. Durante essa palestra, dei oportunidade às moças de Me reco- nhecerem como Aquele que há poucos meses havia ressuscitado algu- mas pessoas em Capernaum. Gamiela, então, declara lembrar-se per- feitamente ter o velho carpinteiro José, a pedido de seu pai de criação, construído um estábulo para carneiros, naquela cidade, trabalhando em companhia de seus seis filhos, dos quais Eu era o menor. Todavia, não podia supor ocultar-Se em Mim o Espírito do Altíssimo.

  2. Ida, porém, protesta: “Mas sim, cara irmã! Estás lembrada de que ao pagar nosso pai a José o trabalho feito, ele regateou algumas moedas no preço, quando Jesus dele Se aproximou, dizendo: ‘Não faças isto, que não te trará bênção alguma! Embora gentio, crês no Deus de Abraham. Este Deus Poderoso habita em Mim, concedendo-Me tudo que Eu Lhe venha rogar! Assim também Se acha nos corações dos justos e ouve suas preces. Se acaso fosses prejudicar ao velho José, que fez um trabalho pesado, Eu pediria a Meu Deus e Pai que punisse tua dureza, e haverias de sentir as consequências! Considera não ser aconselhável ofender aos que Deus protege!’ Nosso pai, porém, pouca importância deu a tais palavras, insistindo no abatimento do preço. José, então, dis- se: ‘Sou honesto e te afirmo que, justamente, essas poucas moedas se- riam todo o meu lucro e que me possibilitariam pagar o aluguel! Como fazes tanta questão, embora rico, podes guardá-las; todavia, não proce- des com justiça, e isto não traz benefício a quem quer que seja!’

  3. A dureza de meu pai me fez chorar; fui ao meu quarto, apanhei

minhas economias, sendo logo imitada por Gamiela e, despercebida- mente, metemos perto de cem moedas na sacola de José. Apenas Tu, Senhor, observaste nosso gesto, dizendo: ‘Isto vos será recompensado futuramente!’ E tinhas a expressão de um transfigurado. Em seguida, querias deixar nossa casa; como era tarde e Nazareth ficava a várias ho- ras de distância, eu Te disse: ‘Não seria melhor pernoitar aqui, à vista da iminência dum temporal?’ Respondeste-me: ‘O Senhor tanto fez o dia como a noite, por isto não há razão para temê-los! A tempestade está

também sob Seu Poder que é, aliás, desconhecido do mundo. Nada, pois, nos prejudicará. Adeus, Minhas filhas!’ Assim, deixaste rapida- mente nossa casa.

  1. A partir de então, muito tenho meditado sobre Tuas Palavras, sem jamais ter-Te encontrado. Nosso pai de criação sentiu o tremendo efeito de sua ganância: naquela mesma noite o raio bateu três vezes sobre o novo estábulo, no qual se achavam mil e setecentas cabeças de carneiro, queimando tudo, não obstante todo esforço empregado para debelar o incêndio. Então, nosso pai arrependeu-se do ato egoísta que praticara e disse: ‘Este castigo veio do Alto e bem o mereci. Jamais um trabalhador honesto será lesado em minha casa!’ E assim foi. O velho carpinteiro de Nazareth nunca mais foi visto, e presumo ter morrido, pois era já bem idoso e fraco.

  2. Meio ano mais tarde, fomos ao grande mercado de Nazareth e

indagamos sobre ele e seus filhos; constava que se haviam dirigido para zonas da Samaria, onde construiriam algumas casas.

  1. O que naquela época não nos foi permitido, Tu nos reservaste hoje, Senhor, e de modo maravilhoso! Compreendo o sentido de Tuas Palavras tão profundas! Agora sabemos Quem é o Senhor do dia, da noite e da tempestade! Por isto, rendemos-Te nosso preito de gratidão por todas as Graças recebidas, sem, todavia, merecê-las!”

  2. Digo Eu: “Como não?! Lembrai-vos apenas da vossa atitude para com José, que julgava ter sido vosso pai, o doador da importância; Eu, no entanto, esclareci-o a respeito. Ele muito elogiou vossa bondade de coração e Eu Mesmo Me comprometi recompensar-vos; por isto, salvei-vos a vida que podeis gozar em plena saúde e em companhia de Cirenius.” As moças se dirigem àquele e a alegria os faz chorar.

  1. CIRENIUSPROMETEDIVULGAREDEFENDERA DOUTRINA

  1. Após Cirenius ter vertido lágrimas de contentamento no que é imitado pelas filhas e genros, ele Me abraça soluçando: “Ó Tu, Eterno Amor Puríssimo! Quem seria capaz de não Te amar?! Senhor, deixa-me morrer nesta felicidade!

  1. Senhor e Pai, amo-Te desde Teu Nascimento, pois me concedes- te a Graça do Teu Convívio há longos anos. Todavia, não estava seguro do domínio do meu mundo interior e exterior; mas agora, presumo ter alcançado a força necessária através da Tua Graça e Amor para palmi- lhar, até o fim da vida, dentro da Tua Vontade Santificada.

  2. Dirijo, na maior parte, somente pagãos, cujo politeísmo ainda tenho de proteger a contragosto; mas não é possível se abater uma árvo- re de um só golpe. Pretendo divulgar o conhecimento do Deus Único e Verdadeiro, ao menos no território onde governo.

  3. A classe sacerdotal, por certo, dar-nos-á grande trabalho, mas, fi- nalmente, há de ceder às novas orientações. O mais triste neste mundo é que o homem encontra a mentira com facilidade; a Verdade, somente na busca penosa que não raro acarreta perigos.

  4. Os egípcios da antiguidade adotavam o seguinte sistema: a pes- soa interessada em estudar qualquer ciência devia, antes de mais nada, depositar uma taxa na Universidade onde lhe eram demonstrados os inúmeros benefícios. Quem, no entanto, fosse à busca da Verdade Ab- soluta, à qual se condiciona a vida da alma, tinha de passar por uma série de atribulações; se, mesmo assim, conseguisse dela se integrar, per- maneceria sacerdote sob juramento de jamais transmiti-la ao leigo.

  5. Deste modo, sempre foi mui difícil alcançar o Conhecimento da Verdade, enquanto a mentira se alastrava sobre o orbe. As criaturas a ela se acostumaram, em virtude de se sentirem à vontade sob tal regime, e não será fácil fazê-las desistir.

  6. Paciência, porém. A promessa de outras vantagens talvez con- vença aos sacerdotes da necessidade de divulgarem a Verdade Única, se bem que sua completa disseminação na Terra é coisa problemática. Pessoas de boa índole certamente tudo farão nesse sentido, e para Teu Poder, Senhor, seria facílimo consegui-lo. Tu, porém, sabes melhor por- que deve ser assim, por isto, seja feita Tua Vontade!”

  1. ALEIIMPERATIVAEALEI FACULTATIVA

  1. Digo Eu: “Caro amigo, tuas opiniões bem Me agradam, pois o Pai no Céu Se compraz quando Seus filhos se deixam por Ele aconse- lhar; entretanto, existem coisas imprescindíveis, que devem ser observa- das, sem o que não se alcança determinada meta.

  2. Eis por que Deus instituiu duas leis: uma, puramente mecâ- nica, chama-se ‘lei imperativa’, de onde surgem todas formas e suas derivações, provando sua utilidade. Esta lei jamais poderá ser alterada. A outra denomina-se ‘lei facultativa’, que constitui a base da Doutri- na da Vida!

  3. Esta última dá margem à destruição de todas as partículas psí- quicas, o que pouca diferença ocasiona no total da individualidade; todavia não pode a criatura sustar a lei imperativa (biológica ou moral), mesmo abusando de seu livre-arbítrio. Oculta na forma, (corpo), per- dura a semente que de novo começa a germinar, atraindo e reorganizan- do aquilo que se havia desequilibrado.

  4. Assim vês certos povos, completamente corruptos em relação à alma vilipendiada por mentiras, hipocrisias e maldades; no entanto, sua forma humana perdura. Em tempo oportuno, porém, faço com que o espírito (o gérmen vital), receba um fluido maior (calor) que o faz crescer e destruir a anterior desordem psíquica. Processo idêntico se dá com a raiz da planta, que, ao absorver a gota d’água estagnada, pro- duz um novo vegetal sadio e forte, desdobrando-se em flor e semente. Por este motivo, jamais deveis condenar um povo corrupto, pois toda forma humana encerra um espírito, cuja força poderá transformar um demônio em anjo.

  5. Geralmente, são os falsos doutrinadores, a ganância dos poten-

tados e a temporária possessão de maus espíritos que se infiltram em carne e alma, os causadores da perdição do homem. Jamais, porém, poderão aniquilar o espírito invulnerável. Exemplo vivo temos em Ma- thael e seus colegas, cujos físicos haviam sido massacrados por maus elementos. Eu os libertei e despertei seus centros vitais, tornando-os homens perfeitos.

  1. Temos, no entanto, de considerar a diferença entre as criaturas; algumas almas são do Alto, mais fortes e resistentes aos ataques dos espíritos perversos desta Terra. Assim constituídas podem suportar uma provação maior, sem sofrerem prejuízo físico. Despertando-se seu es- pírito, isto é, o gérmen oculto da vida, e este penetrando na alma com suas raízes eternas, aquilo que até então era corrupto imediatamente é curado, surgindo um homem perfeito tais como: Mathael, Philopoldo e tantos outros.

  2. Existem anjos encarnados cujas almas não podem ser perverti-

das: João Baptista, Moysés, Elias, Isaías e outros te sirvam de exemplo. Atualmente há vários que encarnaram para Comigo percorrerem o ca- minho estreito da provação; no entanto, saberão suportá-lo com verda- deiro espírito de sacrifício.”

  1. DIVERSIDADEDASALMASDESTE ORBE

  1. (O Senhor): “Entre as almas do Alto, algumas se originam de mundos solares perfeitos. São mais fortes ainda que as de procedên- cia do nosso sistema solar, aqui encarnando para alcançarem a Filia- ção Divina.

  2. Quanto mais imperfeito o planeta, tanto mais fracos são seus emigrantes. Muito embora tenham de passar provação menor, suas al- mas podem levar grande dano. Todavia possuem um espírito potente que, uma vez despertado, equilibrará a alma.

  3. Finalmente ainda existem — e isto na maioria — almas descen- dentes dos primórdios deste planeta. São precisamente escolhidas para a Filiação Divina, sendo as mais fracas. Com facilidade, poderiam per- verter-se, totalmente, se não existissem entre cem, uma ou duas, fortes, provindas do Alto, que as protegessem contra a corrupção completa. Mesmo havendo entre elas ovelhas desgarradas, serão futuramente le- vadas ao aprisco.

  4. Toda alma — fraca, inepta ou pervertida — possui dentro de si a centelha divina, que jamais se perverterá! Uma vez seu espírito desper- tado, imediatamente ela se torna feliz, cheia de amor e sabedoria. Nesse

caso tanto pode ser um filho do Altíssimo, quanto um anjo encarnado, uma alma dum Sol central, dum Sol planetário de menor categoria ou talvez dum planeta atrasado e sem luz própria, cujo número no Espaço é idêntico aos grãos de areia e às ervas da Terra.

  1. Qualquer um de vós, por exemplo, se for renascido, poderá pro- vocar um estado sonambúlico numa criatura tola ou supersticiosa, atra- vés de passes, partindo do nariz às têmporas, até ao estômago. Nesse sono, a alma por mais perturbada que esteja, libertar-se-á de seus algo- zes físicos, permitindo assim ao espírito se manifestar temporariamente. Às perguntas a ele dirigidas, dará respostas que deslumbrar-vos-ão pela profundeza.

  2. Se após curto lapso, tal pessoa é trazida novamente à vida nor- mal — no que se deve respeitar sua própria determinação —, o espírito volta ao seu pouso, e a alma penetra novamente no corpo, sem se lem- brar do ocorrido. Continuará tão tola e supersticiosa quanto antes, pois ignorará tudo que fez e disse. Que isto vos sirva de prova, pois alma alguma será tão pervertida a ponto de impossibilitar sua regeneração.

  3. Claro é que algumas necessitam de longo tempo, aqui ou no Além, até alcançarem firmeza sadia e coerente, virtudes necessárias para despertar a centelha divina dentro de si, impregnando-se e benefician- do-se de sua luz. Duvidar de uma alma, muito embora ela se apresente aos olhos do mundo como obra dos infernos, vergada sob o peso de seus crimes, — é pecar contra o Amor e a Sabedoria de Deus.”

  1. TRATAMENTODEMOLÉSTIAS PSÍQUICAS

  1. (O Senhor): “Por isto, não deveis condenar as criaturas, para não vos tornardes juízes de vós mesmos! Não seria, pois, incompreen- sível desumanidade condenar um enfermo a castigos, apenas por que se tornou doente? Ora, muito maior absurdo seria julgar uma pessoa psiquicamente enferma, só porque sua alma se tornou fraca e doentia, pelos motivos mencionados.

  2. De acordo com vossas leis, classificais essas pessoas de crimino- sas, submetendo-as a castigos incríveis. Que fazeis com isto? Punis uma

alma, que no fundo tornou-se doentia sem culpa própria. Perguntai-vos o que Deus dirá de vossos julgamentos!

  1. E tu, Meu caro Cirenius, que terias feito sem Mim aos cinco criminosos, como juiz supremo de Roma?! Terias exigido uma confissão plena, entregando-os ao suplício da cruz, pois jamais poderias imaginar que espíritos tão elevados neles se ocultassem!

  2. Enraivecido pelos seus crimes, não só os terias feito executar, como também alimentarias a cômoda opinião de teres prestado rele- vante serviço a Deus e à Humanidade. Na realidade, todavia, terias pre- cisamente causado prejuízo, exterminando criaturas que iluminariam seu semelhante como o Sol primaveril, a todos animando para o Bem e a Verdade! Hoje, por certo, agirias de modo diferente.

  3. Eis a situação das leis terrenas: para as moléstias físicas há recur- sos em médicos e remédios; para os males da alma, existe apenas um có- digo de leis pesadas — e finalmente a espada mortal! Não seria mais hu- mano, mais sábio e inteligente, formar maior número de médicos para as almas, do que para o físico que em breve será alimento dos vermes?!

  4. Ninguém melhor do que Eu sabe das inúmeras dificuldades en- contradas na cura du’a moléstia psíquica, comparada às do físico; toda- via, nenhuma é inteiramente incurável, existindo, porém, uma que será fatal para o corpo!

  5. Para o físico frágil e perecível, construís uma quantidade de sa- natórios, farmácias, estações de águas; inventais unguentos, emplastros e poções curadoras; para a saúde da alma imortal, porém, não cogitais de meio algum!

  6. No teu íntimo agora indagas: Como poderíamos fazê-lo sem Tua ajuda, Senhor, e quem nos haveria de ensinar? Não deixas de ter razão, pois este conhecimento exige uma pesquisa mais profunda da natureza humana, do que a simples experiência da cura d’um estômago afrontado. Portanto, merece a alma muito maiores cuidados do que os incômodos dum glutão!

  7. De tempos em tempos, Deus inspirou verdadeiros médicos da psique, que ensinavam o caminho certo para sua cura. Os que seguiram tal orientação foram, incontestavelmente, curados. Mas os ricos e pode-

rosos da Terra consideravam-se de plena saúde psíquica e desprezavam tais médicos; perseguiam-lhes e até mesmo lhes proibiam exercer a pro- fissão, embargando o ensinamento da cura d’alma, o seu conhecimento e impossibilitando que suas raízes se ramificassem, transformando-se em tronco seguro de ramagens frondosas.

  1. Se por acaso fosse deitada semente sadia e forte, pessoas ego- ístas tudo fariam para cortar os galhos da árvore, tirando-lhe mesmo a casca, tão necessária, até vê-la sucumbir. Assim, até hoje, nada se fez para a cura psíquica a não ser a invenção de leis, prisões de variadas ca- tegorias e os múltiplos instrumentos destinados a terminar com a vida humana. São produtos de almas igualmente doentias, porém, fortes; merecem ajuda, rápida, caso se queira cogitar da cura e felicidade das mais fracas e inferiores.”

  1. SANATÓRIOSEMÉDICOS PSIQUIATRAS

  1. (O Senhor): “Precisamente por este motivo, vim em Pessoa à Terra a fim de instituir, para sempre, um sanatório psíquico destinado a todas as almas, pois as criaturas não o teriam conseguido. Todavia, a sobrevivência de tal sanatório será problemática, considerando-se que certas pessoas sentir-se-ão abaladas em seus direitos mundanos.

  2. O amor-próprio e a atração pelas coisas terrenas — como hábito do inferno implantado no coração do homem — opor-se-ão à pró- pria cura, preferindo os meios materiais, como sejam: leis, julgamentos e punições.

  3. Após Minha Passagem, muitos considerarão tais medidas apli- cando-as em benefício alheio. Terão, todavia, de suportar, em Meu Nome, toda sorte de perseguições por parte dos poderosos do mundo, portadores, entretanto, de almas fracas. Saberei, porém, protegê-las!

  4. Se acontecer que almas desta Terra, enfermas por culpa própria, tencionarem arrasar tal Casa de Saúde nu’a manifestação de loucura, delas Me apossarei e julgando-as, determinarei sua cura psíquica em sanatório do Além, onde haverá clamores e ranger de dentes, até sua cura definitiva!

  1. Se para os males do mundo um remédio eficaz tem sabor amar- go, que travo não encerrará aqueles usados no Além, para a cura duma alma doente, uma vez esgotados, em vida, os meios de regeneração? Serão curadas, mas suportarão tratamento longo e desesperador! Por- tanto, feliz daquele que consegue sua sanidade em Institutos terrenos!

  2. Pelos motivos acima expostos deveis, como juízes poderosos, tornar-vos verdadeiros psiquiatras, julgando as almas enfermas com justiça, para que alcancem a cura total!

  3. Em verdade, à medida que concorreis para o aumento do de- sequilíbrio psíquico de alguém, usando os recursos de vossa doentia incompreensão, vossa própria alma tornar-se-á, na mesma proporção, enferma e vossa cura no Além será mais amarga que a da outra. Ela é doente apenas em decorrência de vossa dureza de sentimentos e pode- rá ser rapidamente curada no Além; ao passo que a alma intolerante do juiz cairá, após todo julgamento injusto, duplamente na moléstia psíquica do réu, duplicando, portanto, seu próprio mal. É fácil se ima- ginar o tempo imenso e penoso que a alma miserável dum juiz terá de enfrentar até sua cura!

  4. Se tu, como médico incapaz e enfermo, fores chamado para so-

correr um doente e aceitares tal pedido visando lucro, receitando um medicamento que piora seu estado precário, que resultará daí?! Não conseguindo debelar a moléstia, também não serás pago, de acordo com vosso uso. Se além disto te contaminares pelo terrível mal, terás prejuízo duplo!

  1. Vindo, porém, em teu lugar um médico inspirado, curará teu cliente com um simples remédio, enquanto que, para tua cura, ne- cessitarás dum meio mais forte, de ação mais enérgica que abalará teu corpo.”

  1. AVERDADEIRA JUSTIÇA

  1. (O Senhor): “Suponho que compreendestes o que acabo de falar e prossigo: Em absoluto vos quero insinuar ser necessário desmantelar todas as prisões e institutos de correção, que não deixam de ser um mal

necessário, tampouco romper com os grilhões e instrumentos de cas- tigo. As almas doentias devem ser cuidadosamente isoladas e mantidas reclusas, até sua cura.

  1. Não devem, porém, ser ira e vingança os motivos para tal me- dida, mas unicamente vosso grande amor ao próximo que vos leva a cuidado extremoso! Se o espírito de amor vos indicar ser preciso a apli- cação de remédios amargos, não deveis vos atemorizar, pois seria inútil e prematura a manifestação de piedade. Somente inspirados no amor, deveis ministrar ao doente medicação drástica, que lhe trará a cura de- sejada e vos cumulará de bênçãos.

  2. O remédio que Eu Mesmo apliquei aos cinco criminosos, na- quela noite, por certo não foi de bom paladar; todavia, Meu Grande Amor o considerou inevitável para a cura completa, de tal maneira que, pela manhã, estavam libertos, podendo vos atestar se algum deles se aborreceu com Minha Atitude.

  3. Quem, levado pela raiva e vingança, martirizar de modo incle- mente um criminoso, sê-lo-á mil vezes mais do que esse, e seu castigo no Além será tanto mais doloroso!

  4. Sereis recompensados com a mesma medida aplicada ao próxi- mo; quem agir com verdadeiro amor, recebê-lo-á em troca; agindo com ira e vingança, receberá o mesmo tratamento, porém em doses multi- plicadas, até que todas as fibras de sua alma endurecida se abrandem.

  5. Com isto vos demonstrei, nitidamente, a verdadeira natureza humana e não podeis alegar desconhecimento de causa. Agi dentro deste pensamento e transmiti-o aos vossos inferiores que, portadores de almas doentias, não se apercebem de sua própria situação. Deste modo, sereis cooperadores justos e equilibrados no Meu Reino desta Terra, e Meu Agrado vos acompanhará por todas as veredas. Se, porém, recairdes no vosso antigo sistema, considerai que vossas almas foram novamente atingidas pelo mal e pedi que Eu vos cure, evitando sofri- mento dobrado!

  6. Vós, juízes, que muitas vezes aumentais o sofrimento psíquico

da criatura através de julgamentos ferrenhos, meditai seriamente sobre a missão que vos foi conferida e sobre aquilo que é justo dentro da

Ordem de Deus! E vós, regentes de povos, que finalmente representam poder e reputação, deveis ser pais de vossos súditos e vos dedicar à saúde plena e ao Bem das almas de vossos filhos! Vossa tarefa se concretiza em serdes médicos psiquiatras.

  1. Se vossos próprios filhos muitas vezes não respeitam os manda- mentos que instituis, deveriam, por isto, ser martirizados e crucificados para servirem de exemplo aos demais?! Talvez um pai desnaturado fosse capaz duma ação desta ordem; entretanto, a História da Humanidade poucos casos semelhantes registrará. Os genitores de boa índole sabe- rão repreender, com rigor, as falhas de seus filhos e em casos extremos, talvez lhes apliquem o relho! Que alegria não hão de sentir com sua regeneração!

  2. Empregai, como juízes, o mesmo sistema e vossa satisfação será

completa! Ponde-vos no lugar dos que são obrigados a obedecer vossas ordens: não seria de vosso agrado se agissem com clemência e miseri- córdia?! Aplicai, pois, sempre aquilo que desejaríeis se vos fizessem, se fôsseis enfermos!”

  1. AETERNALEIDEAMORAO PRÓXIMO

  1. (O Senhor): “Eis a interpretação prática das Leis mosaicas e de todas as profecias: Amai a Deus, vosso eterno Pai, sobre todas as coisas e a vossos irmãos necessitados, como a vós mesmos, que sereis psiqui- camente sadios e tão perfeitos como Seus filhos, motivo por que fostes chamados! Sem esta perfeição, não chegareis junto Dele para saciar-vos à Sua Mesa.

  2. Com isto, meu caro Cirenius, demonstrei-te a maneira de se dar combate à mentira, mesmo estando ela enraizada na alma; todavia, poderá ser anulada pela verdade gerada pelo amor, assim como a luz do fogo. Acaso serás tomado como sábio se, ao necessitares iluminar um recinto, o incendeies completamente?! Por isto, Minha Doutrina e Verbo, não devem ser transmitidos pela espada!

  3. Se tencionas curar uma ferida, não lhe deves aplicar outra, maior; pois seria preferível deixá-la sem cura!

  1. Em verdade, quem pretender disseminar o Meu Verbo e Doutri- na, de arma na mão, não será abençoado pelo zelo demonstrado mas, ao contrário, relegado às trevas! Se iluminares um quarto com lamparinas a óleo, todos se alegrarão com a agradável luz produzida; metendo-lhe fogo, amaldiçoar-te-ão, fugindo, como se foras um doido.

  2. Quem prega a salvação das almas deve usar palavras compre- ensivas e meigas, e não gritar qual louco, espumando de cólera, pois uma pessoa enraivecida não consegue melhorar quem quer que seja. Apenas será ridicularizada e, caso não se cale, será, finalmente, expulsa da sociedade.

  3. De modo idêntico, ninguém deve dirigir palavras de reconci- liação a quem quer que seja, enquanto sente no peito o espinho da raiva; pois envenenar-se-á com o próprio fel, arrastando seu semelhante à idêntica reação.

  4. Ao transmitirdes Minha Doutrina deveis vos apresentar sempre amáveis, porque sois portadores duma Comunicação Celeste que deve ser propagada com carinho!

  5. Que diria uma pessoa abordada com as seguintes palavras: — Ouve, pecador condenado por Deus! Eu te odeio por causa dos teus pecados e em nome da Justiça Divina; entretanto, concito-te, usando de todos os meios a meu alcance, a participares do meu banquete por- que, do contrário, te condenarei para sempre! Aceitando o meu convite, poderás contar com minha graça, ao menos por este dia!

  6. Penso que qualquer pessoa, por mais tola que seja, recusará tal convite! Se for por demais fraca, acederá, esperando escapar às conse- quências; sendo forte e positiva, fará uso de seus direitos de anfitrião.

  7. Eis por que, na divulgação da Minha Doutrina, é preciso con- siderar tratar-se de convite para uma Ceia Celeste, e como verdadeiros mensageiros do Bem, tendes de vos apresentar amáveis e amoráveis. Pois não será possível falar de coisas boas, de feições irritadas e quem assim agisse, demonstraria total inaptidão para tal incumbência. Com- preendestes?”

  8. Responde Cirenius, contrito: “Senhor, compreendi o que me toca e procurarei seguir Tuas Diretrizes! Reconheço ter pecado contra a

Humanidade, não obstante estar imbuído da melhor intenção! Quem poderá remir esses erros?”

  1. Digo Eu: “Não te preocupes e tem confiança!”

  1. O SONAMBULISMO

  1. Nisto, aproxima-se Cornélius, dizendo: “Senhor, há pouco fa- laste ser possível a uma pessoa renascida provocar estado de sonambu- lismo em alguém, e, mesmo sendo ele inculto, sua alma manifestar-

-se-ia inspirada. Não posso fazer ideia desse fato; poderias entrar em pormenores?”

  1. Digo Eu: “Como não? Pois isso é imprescindível para a recu- peração da saúde física e psíquica; o simples passe já alivia a mais forte dor e, em consequência, dá clarividência ao enfermo que poderá obter a cura. Não obedecendo estritamente à determinação dada, será difícil recuperar a primitiva saúde.

  2. Se nesse estado de cura alguém cair em transe, não deve ser in- comodado e enfraquecido por perguntas tolas, limitando-se àquilo que for estritamente necessário.

  3. Todo aquele que aplicar o passe terá de fazê-lo em Meu Nome, porque, do contrário, não surtirá efeito. Além disto, é preciso ter fé inabalável e vontade segura.

  4. O verdadeiro amor ao próximo deve ser o único móvel para a aplicação do passe, que fluirá pela palma da mão até os dedos, pene- trando, qual orvalho suave, nos nervos do doente, curando-o de suas dores atrozes.

  5. Saiba-se, todavia, que é mais difícil provocar este estado sonam- búlico no homem que na mulher. Em certos casos, a mulher poderia consegui-lo com ele; isto, porém, somente com a assistência dum anjo invisível, atraído pela prece e pureza de coração.

  6. Tais mulheres devotas poderão ajudar as parturientes, no que agiriam acertadamente, pois muitas pretendem aprender esta ciência em Bethlehém, onde é ensinada uma série de meios supersticiosos, que antes prejudicam do que beneficiam.

  1. Quantas cerimônias tolas e ridículas realizam-se por ocasião das primogenituras. Nascendo uma menina, levantam-se, durante três dias, lamúrias, gemidos e choros, em sinal de protesto e pesar! Quando che- ga um varão, matam-se vitelos e carneiros e assam-se pães de trigo. Os cantores, assobiadores e violinistas são convocados a fazer um barulho infernal e esperam que isto alivie a jovem mãe! Assim sendo, seria pre- ferível o auxílio supra mencionado!”

  2. Diz Cornélius: “Não resta dúvida; como, porém, a mulher po- deria alcançar tal beatitude?”

  3. Respondo: “Muito facilmente! Primeiro é preciso uma boa educação e ensino completo, que só poderá ser ministrado a uma vir- gem, depois de ter provado sua pureza de sentimentos. Todavia, será também possível ao sexo masculino socorrer e aliviar uma gestante pelo passe”.

  1. PUREZAFÍSICAEPSÍQUICA.CURAÀ DISTÂNCIA

  1. Interrompe Stahar, atento às Minhas Palavras: “Tal atitude não deixaria impuro o homem por um dia, de acordo com as determinações de Moysés?”

  2. Digo Eu: “De agora em diante, nada te maculará, a não ser pen- samentos maus e lascivos, desejos, paixões, má fama, mentira e calúnia, injúria e maledicência. O resto apenas sujará a pele que facilmente pode ser limpa.

  3. Moysés deu aos judeus leis severas, porque alimentavam gran- de tendência para a imundície física, cujos reflexos também prejudi- cam a alma.

  4. A verdadeira higiene psíquica se faz com uma justa penitência, pelo arrependimento dos pecados praticados contra o próximo e o fir- me propósito de se corrigir. Não agindo deste modo, podeis regar com sangue dez mil bodes que representem vossos pecados, amaldiçoá-los e atirá-los ao Jordão, que vossos corações e almas continuarão impuros como dantes. Com a água se limpa o corpo e com a vontade firme e submissa a Deus, coração e alma. Assim como a água fortalece o físi-

co, uma vontade honesta enobrece a criatura. Assim fortificada poderá, então, dar um passe à distância, em Meu Nome, conseguindo o alívio do enfermo.

  1. Quem ainda não se encontrar nesse estado de Graça, poderá recorrer ao passe anteriormente descrito, que levará o doente a estado de êxtase, determinando, também, sua cura. Todavia este tratamento é mais demorado ao ministrado por pessoa renascida em espírito, cujo resultado seria imediato.

  2. Assim, até a alma ignorante duma criança poderá predizer o fu- turo, quando se uniu ao espírito pelo sono sonambúlico. Voltando ao estado anterior, a alma novamente reunida ao corpo, ignorará o que se passou. Isto prova que, por mais pervertida que seja, é ela passível de regeneração.”

  1. UMAPROVADE SONAMBULISMO

  1. (O Senhor): “A fim de vos dar um exemplo, providenciarei a vinda dum homem tolo e mau, de Cesareia Philippi. Algum de vós fará com que caia em êxtase e, então, presenciareis sua profunda sa- bedoria. Quando voltar ao normal, será o mesmo de anteriormente e teremos dificuldades em lhe incutir qualquer conhecimento sobre Deus e o homem.”

  2. Diz Cirenius: “Isto me alegra sobremaneira, Senhor, pois nos proporcionas novos conhecimentos no campo psíquico. Estará aquela pessoa a caminho para cá?”

  3. Digo Eu: “Sim, está à tua procura, a fim de solicitar-te ajuda financeira, pois perdeu um casebre, dois carneiros, uma cabra e um burro por ocasião do incêndio. Informado de tua presença aqui, e sa- bendo socorreres as vítimas, pleiteia indenização. Embora paupérrimo, seu prejuízo não foi tão grande, pois roubara os dois carneiros, precisa- mente, alguns dias antes do incêndio, enquanto os outros animais, há um ano, chegaram da mesma maneira às suas mãos.

  4. Por aí vês ser ele trapaceiro e além disto, muito tolo, defeitos oriundos de sua ganância sem par. Com facilidade poderia ter salvo seus

trastes; preferiu, entretanto, às escondidas, apossar-se de alguma coisa, mesmo por meios ilícitos. Como nada achasse, voltou aborrecido para casa, encontrando o que possuía calcinado no meio das cinzas.

  1. Até hoje chora sua desgraça; há uma hora atrás soube que te encontravas aqui e resolveu abordar-te. Informo-te desses pormenores para teu governo; o resto descobrirás por conta própria.”

  2. Indaga Cirenius: “Devo pagar-lhe alguma indenização?”

  3. Respondo: “É preciso primeiro interrogá-lo de acordo com as leis de Roma; depois poderás agir de modo humano. Zinka está desti- nado a lhe aplicar o passe, porque é detentor de maior força, que ainda aumentará pelo contato de Minhas Próprias Mãos.”

  4. Zinka, que havia ouvido com atenção, adianta-se e diz: “Senhor, que devo fazer, pois desconheço tal tratamento?”

  5. Digo Eu: “Pousa tua mão direita sobre a testa e a esquerda na boca do estômago, que ele cairá em transe, começando a falar, porém, com voz mais fraca do que a usual. Querendo despertá-lo, basta colocar as mãos de modo inverso durante alguns instantes. Assim que voltar a si, retira-as e o tratamento estará finalizado.”

  6. Confiante, Zinka aguarda a chegada de tal homem; todavia, pergunta se deve iniciar, de pronto, os passes. Respondo: “Dar-te-ei aviso; antes, deveis vos integrar da sua imbecilidade, isto é: do estado doentio de sua alma. Depois, quando tivermos ensejo de senti-la forte e sadia, convencer-nos-emos que criatura alguma deve condenar outra por mais corrupta que seja, porque sua alma abriga o germe da vida. Preparai-vos, pois, que ele vem aí!”

  1. OCIDADÃO ZOREL

  1. Mal terminara, chega o homem chamado Zorel, coberto de tra- pos chamuscados, fazendo grande alarido. Digo, então, a Julius que pergunte-lhe o que deseja. Zorel o enfrenta, dizendo: “Sou cidadão de Cesareia, completamente arruinado pelo incêndio e somente hoje fui informado da ajuda prometida pelo Prefeito. Por isto aqui estou e pe- ço-te me digas se não houve engano!”

  1. Responde Julius: “Sim, Cirenius está socorrendo aos prejudica- dos, mas apenas àqueles cuja reputação é incontestável. Se não estive- res nessas condições, nada receberás, pois ele é mui criterioso! Acha-se sentado àquela mesa, à sombra dos ciprestes, dando audiências, onde poderás falar-lhe.”

  2. Zorel reflete um pouco e finalmente resolve ir até lá, porém, co- xeando! Quando acerca-se de Cirenius, faz três profundas reverências. Em seguida, põe-se a gritar: “Nobre senhor e severíssimo soberano! Eu, Zorel, ex-cidadão de Cesareia Philippi, peço-vos uma pequena ajuda em dinheiro e roupas, pois estou reduzido apenas a estes trapos.

  3. Fui proprietário honesto dum casebre e duma pequena lavoura. Minha esposa, perdi-a há dois anos. Não tenho filhos e vivo em compa- nhia duma criada. Meus bens se restringiam a alguns carneiros, velhas ferramentas e alguma roupa. Tudo, porém, foi devorado pelas chamas, enquanto ajudava a debelar o incêndio.

  4. Agora sou mendigo como muitos, pois até minha serva, meu único esteio, abandonou-me, o que não esquecerei! Se um dia tiver a ventura de reaver meus bens, saberei como enxotá-la!

  5. Além do mais fugirei, no futuro, do sexo feminino, pois nada vale! Dizem que sou estúpido, por não saber lidar com o sexo frágil, e que minha mulher morreu de desgosto! Se tal fosse verdade, não teria guardado viuvez perto dum ano, e minha última companheira não teria permanecido, embora mal paga.

  6. Aliás, acho vergonhoso ter o homem nascido da mulher; seria mais honroso se o fosse duma ursa! Neste ponto os deuses cometeram uma falha, além de outras mais. Sou politeísta crente; todavia, cometem muitas tolices como aquela do incêndio, pois se Apollo não tivesse um rendez-vouscom certa ninfa, abandonando seu carro celeste, a tragédia do incêndio não teria sucedido!

  7. Deve-se considerar os deuses apenas quando sábios; agindo como simples mortais, acarretando prejuízo grave para as criaturas, não merecem ser honrados. Tu, nobre senhor, sendo também politeísta, compreenderás minha situação embaraçosa, da qual somente Apollo é responsável! Por isto, peço-te socorro!”

  1. ZOREL EXTERNA SUAS IDEIAS SOBRE A PROPRIEDADE PARTICULAR

  1. Indaga Cirenius: “Quanto desejas?” Responde Zorel: “Nem muito, nem pouco; ficaria satisfeito podendo reaver o que me perten- cia!” Pergunta Cirenius: “Conheces as leis romanas que protegem a propriedade?”

  2. Responde Zorel: “Algumas, que sempre respeitei. A infração contra leis ignoradas é nula. Além disto, sou grego e no meu país não se considera muito a propriedade particular; pois os bens comuns geram amabilidade, amor fraternal, concórdia e honestidade entre as criaturas.

  3. Fossem menos severas as leis que regulamentam a propriedade particular, e haveria menos furtos e fraudes. Sendo este meu princí- pio, não vacilei em me apropriar, ilegalmente, de coisas insignifican- tes. E quem me pedisse algo emprestado, nunca teria de recear minha reclamação.

  4. Meus animais não foram comprados, tampouco roubados, por- quanto os achei na floresta. Seu dono, certamente, é possuidor de gran- des manadas e não foi prejudicado; todavia, foram de muita utilidade para mim. Os judeus admitem, mesmo, a rebusca, lei de autoria do Próprio Jehovah. Por que deveria ser, então, infração para os romanos?! Tu, como dignitário, terás meios para castigar-me; entretanto, não te será possível dobrar meus princípios!”

  1. ZORELOUVEA VERDADE

  1. Diz Cirenius, em surdina e de olhos arregalados: “Senhor, há pouco afirmaste a tolice deste homem que, no entanto, revela-se bom advogado! O próprio roubo foi tão bem defendido que não o posso contradizer.”

  2. Digo Eu: “Calma, Meu amigo, pois ele próprio contestará suas ideias. Prossegue na arguição; quero que aprendais diferençar a astú- cia mental do raciocínio!” Aduz Cirenius: “Ótimo, estou curioso por ver o fim!”

  1. Interrompe-o Zorel: “Nobre dignitário de Roma! Que devo aguardar? Partilhas da minha opinião ou queres que aceite a tua, embo- ra ainda não proferida?”

  2. Responde Cirenius: “Antes de satisfazer-te, temos algo a dis- cutir, pois tua honestidade não me parece integral. Não quero ave- riguar se realmente ‘encontraste’ os animais, perdidos na floresta. Informo-te do seguinte: em nosso meio, existe pessoa clarividente, cuja capacidade foi sobejamente comprovada e, assim sendo, dou-lhe todo crédito!

  3. Tal pessoa anunciou tua vinda antes de teres deixado a cidade e, também, que poderias ter evitado tua desdita se tivesses ficado em casa; mas teus princípios sobre os direitos de propriedade levaram-te a farejar na cidade em chamas. É compreensível que tua empregada te abando- nasse, em tal situação, pois conhece tua índole. Teria ela de restituir-te todos teus bens sob ameaças de maus tratos, porquanto a culparias de tua desgraça! Eis o que me foi dito a teu respeito. Podes defender-te, que te ouvirei com paciência.”

  1. ZORELPEDELIVRE RETIRADA

  1. Diz Zorel, pensativo: “Nobre senhor! Não sei para que me de- fender quando afirmas dar mais crédito a um clarividente, que a nume- rosas testemunhas! Além disto, és detentor de todo poder! De sorte que apenas acrescento: Perdoa-me a queixa enunciada.

  2. Todavia, persisto na minha afirmação, ser mil vezes pior uma propriedade particular, sancionada por leis severas, que a posse comum. Não necessito repetir os motivos. Acrescento apenas, ver-me obrigado a desistir do meu ponto de vista em virtude do poder brutal.

  3. Nas leis de proteção de propriedade não vejo benefício para as criaturas, mas a maior ofensa à razão. Que pode, porém, um homem, isolado e coberto de andrajos, contra milhares?!

  4. Pode-se depreciar o direito legal de posse comum em virtude de pequenos prejuízos, que todavia não estão em relação aos males surgi- dos da posse particular. Tenho dito. Nada de bom me espera em tais

circunstâncias, portanto será melhor eu me retirar. Com tua permissão, naturalmente!

  1. Se achares que eu seja criminoso, castiga-me, mas dá-me a liber- dade, ou a morte! Já não me afeta coisa alguma, pois sou indefeso e vós, romanos, perseguis todo pobre diabo com vossas leis! Dize-me, posso ir ileso ou devo aguardar castigo?”

  1. PREPARATIVOSPARAOTRATAMENTO SONAMBÚLICO

  1. Diz Cirenius, severo, porém amável: “Não deves te afastar, tam- pouco aguardar castigo, mas somente tua salvação. Jamais nos alegra- mos em castigar aos criminosos e muito nos regozijamos, quando se regeneram! Apenas quando reincidem, conscientemente, em ato crimi- noso, podem esperar pena severa.

  2. Tu, porém, levado pela miséria, violaste as leis e te encontras pela primeira vez diante dum juiz. Eis o único motivo porque não serás con- denado; entretanto terás que te modificar bastante! Tua alma bem do- entia será aqui curada e terás de reconhecer o benefício das leis, agindo dentro dos seus princípios. Assim serás libertado, fato que te alegrará.

  3. Para que tua cura psíquica e moral se processe, alguém de nosso grupo te dará um passe. Com esse suave tratamento, teu raciocínio será despertado, facultando-te a compreensão do Bem, derivado do cumpri- mento das leis. Concordas?”

  4. Responde Zorel, mais animado: “Como não? Concordo com tudo que não seja pancada, decapitação ou crucificação! Duvido, po- rém, poderes alterar meus princípios com tal tratamento, pois um tron- co velho não se enverga tão facilmente. Onde está essa pessoa?” Desper- cebidamente Cirenius Me indaga se deve agir.

  5. Digo Eu: “Ainda não; sua alma necessita de algum repouso, por- quanto Zorel está excitadíssimo e seria difícil fazer com que caísse em êxtase. Do mesmo modo, não deve Zinka ser apontado como o escolhi- do para o tratamento. Em tempo vos darei um sinal.”

  6. Todos silenciam por alguns instantes e Zinka mal pode conter a ânsia para entrar em ação. Zorel, por sua vez, conjetura o que lhe suce-

derá. Analisando nosso grupo chega à conclusão de que só poderemos fazer o Bem.

  1. Este preparo é necessário para o êxito completo, pois o “doente” deve sentir fé e confiança, do contrário, não haveria possibilidade de cura, mesmo tendo o outro, rico potencial de forças psíquicas. Outra coisa seria em se tratando dum renascido, que necessitaria para tal so- mente de sua vontade, maneira pela qual também ajo. Agora Zorel está preparado e Eu dou sinal a Zinka para começar.

  1. CONFISSÃODE ZOREL

  1. Imediatamente Zinka se aproxima de Zorel, dizendo: “Irmão, é da Vontade do Senhor, cheio de Misericórdia, Bondade, Amor e Sabe- doria, que eu te cure, apondo-te minhas mãos. Nada temas, tem con- fiança, que em nada serás prejudicado. Permite, pois, que te toque!”

  2. Responde o outro: “Amigo, com tal linguagem podes mandar-

-me até para o inferno, que obedecerei. Inicia, pois, teu tratamento!” Diz Zinka: “Então senta-te neste banco; transmitir-te-ei Fluidos de Deus!” Indaga Zorel: “De qual deles? Zeus, Apollo, Marte, Mercúrio ou Plu- ton? Peço-te não cogitares do último, cuja força titânica me apavora!”

  1. “Não fales tolices”, responde Zinka, “teus deuses existem apenas na tola fantasia das criaturas. Existe um Deus Único e Verdadeiro que desconheceis, muito embora os pagãos Lhe tenham erigido vários tem- plos. Por isso não percamos tempo com futilidades.”

  2. Mal Zinka coloca suas mãos sobre o outro, este cai em transe. Depois de alguns minutos, começa a falar, de olhos fechados: “Meu Deus, que criatura miserável e má sou eu; podendo regenerar-me, só basta querer! Eis a maldição do pecado da mentira e do orgulho que me impede tornar bom!

  3. Minha alma está tão maculada por pecados, que não percebo minha pele; pois acho-me envolto por fumaça densa. Meu Deus, quem me poderia libertar deste peso? Sou ladrão e mentiroso e só abro a boca para positivar a última mentira. Tudo que possuo foi roubado e por intermédio da falsidade!

  1. Se bem que na minha ignorância não considerasse isto pecado, deixei passar muitas ocasiões oportunas sem proferir a verdade. Meu consolo único está em não ter cometido assassínio! Pouco faltou, pois se minha serva não tivesse fugido, teria sido vítima de minha ira diabólica!

  2. Sou um monstro, e com a astúcia da raposa, tornei-me verdadei- ro diabo! Minha alma está seriamente enferma e tu, Zinka, talvez não consigas curá-la.

  3. A neblina agora está se dissipando um pouco mais, e tenho a impressão de poder respirar mais livremente. Nesta crescente claridade percebo, porém, minha figura monstruosa cheia de chagas horripilan- tes! Onde estaria o médico capaz de me curar moralmente, pois minha saúde física é perfeita?!

  4. Se alguém visse minha alma, ficaria estarrecido diante da sua horrível figura. Quanto mais clara é a visão, tanto mais horrenda ela se torna! Zinka, não haveria um meio de melhorá-la?”

  1. PURIFICAÇÃODAALMADE ZOREL

  1. Nesse momento Zorel começa a gemer, dando impressão de querer acordar. Eis que digo aos presentes: “Isto é o início do estado sonambúlico, quando a alma, desprendendo-se de suas paixões carnais e mundanas, é revelada em toda sua crueza, visão que provocou em Zo- rel viva repugnância! Para tais moléstias psíquicas, só há um remédio: o completo conhecimento, profunda repulsa pelas mesmas e, finalmente, a vontade firme delas se livrar. Chegado a este ponto, a cura será fácil.

  2. O sono de Zorel perdurará por mais uma hora e dentro em pouco falará de modo mais coerente e elevado. Caso te faça perguntas, amigo Zinka, responde-lhe pelo pensamento, pois ouvir-te-á perfeitamente.”

  3. Mal termino, Zorel prossegue, dizendo: “Chorei a minha gran- de desdita e, das lágrimas, formou-se um lago, como o de Siloah em Jerusalém. E eu me lavo nessa água, que cura as feridas e chagas da minha alma. Quão benéfico é esse banho! Embora ainda perceba as cicatrizes, o mal já passou! Como teria sido possível se formar um lago de minhas lágrimas?!

  1. É ele circundado por zona maravilhosa: a zona do consolo e da esperança; tenho a impressão de que aqui encontrarei cura completa. A água anteriormente turva, agora é límpida e clara, o que me causa grande bem-estar!

  2. Agora também percebo a manifestação duma vontade, traduzida pelas seguintes palavras: Tenho de agir, porque quero! Quem poderá impedir minha vontade! Quero a Verdade e o Bem, por ser isto o resul- tado de meu livre-arbítrio!

  3. Reconheço a verdade plena, qual luz Divina emanada dos Céus! Nossos deuses são apenas quimeras e tolo é quem neles acredita. Eu, porém, percebo a Luz e o Verbo. Deus Mesmo, todavia, não me é dado vislumbrar, por estar demasiadamente elevado.

  4. Eis que o lago se tornou lagoa e suas águas tocam-me os qua- dris e é limpidíssima; todavia, não abriga peixes; seria difícil, pois eles provêm do Hálito de Deus, mui Poderoso. Eu sou apenas uma alma humana, incapaz de produzir peixinhos do Senhor! A não ser que a criatura seja plena do Espírito Divino e com essa faculdade, poderia produzi-los. Eu, porém, estou longe dessa perfeição.

  5. O fundo da lagoa está coberto de capim vicejante; à medida que cresce, remove a água. A esperança se torna mais poderosa que os conhecimentos e os frutos subsequentes.

  6. Agora vejo um homem, na margem oposta, que me acena! Bem tinha vontade de ir ao seu encontro; mas desconheço a profundidade da lagoa e facilmente poderia me afogar.

  7. Eis que uma voz se faz ouvir do fundo d’água: — Podes trans- por-me sem susto, que sou toda por igual! Vai àquele que te chama, pois te salvará e guiará! Coisa estranha! Aqui, até a matéria fala! Nunca se viu isto!

  8. Animo-me pois, a atravessar o lago em direção daquele ami- go que, tão amavelmente, me chama. Vejo-te atrás da figura dele, mas não és tão simpático quanto ele! Quem será? Tenho vergonha de me apresentar nu, embora meu corpo não mais apresente vestígios de mo- léstia. Se ao menos tivesse uma camisa. Mas..., que fazer? Tenho de ir mesmo assim!”

  1. AALMAPURIFICADARECEBE VESTIMENTA

  1. Como Zorel fizesse pequena pausa, Zinka indaga: “Como é pos- sível ele ver tudo isto e até atravessar a água, quando se acha deitado como morto?”

  2. Respondo: “Sua alma está vislumbrando seu progresso, daí se formar no campo do sentimento um mundo novo, e aquilo que deno- minamos movimento de pensamento, apresenta-se na esfera da alma como mudança de local.

  3. O lago formado por suas lágrimas e que curaram sua psique re- presenta o arrependimento de seus pecados, e o banho, merecida peni- tência e necessário ato de contrição. A água pura aponta a noção de suas falhas, e o fato do lago se transformar em lagoa demonstra a vontade firme de purificação e a busca da cura pelo próprio esforço. A grama vi- cejante, no fundo d’água, demonstra a esperança pela aquisição da saú- de completa e da Graça Divina. Esta última é representada por Mim, na outra margem, como Emanação do Espírito Divino e da Vontade. O caminhar pela água da contrição e do arrependimento representa o progresso da alma no campo de sua regeneração.

  4. Tudo isto é apenas ficção da alma, pela qual reconhece seu esta-

do verdadeiro e o que empreende e faz para seu aperfeiçoamento, isto, exclusivamente pela vontade, sem interferência externa. Esta terá de surgir quando Zorel se achar novamente integrado no corpo.

  1. Dentro em pouco estará a Meu lado, prosseguindo na sua nar- ração. Sede atentos, pois tudo que disser corresponderá ao seu estado psíquico. Surgirá, ainda, muita coisa absurda até que penetre no tercei- ro estado, isto é: na temporária união com seu espírito. Então ouvireis palavras sábias!

  2. Por ora, manifestou-se, apenas, sua alma momentaneamente purificada; no terceiro estado sonambúlico, falará seu espírito! Seu ín- timo não mais apresentará falhas e seu discurso aquecerá vossos cora- ções!” Eis que Zorel se aproxima, dizendo: “Aqui estou, nobre amigo! Que trajetória difícil! Não podes me dar uma camisa? Envergonho-me de estar nu!”

  1. Respondo, visível através do Meu Espírito e Vontade: “Podes deixar a água, pois terás a vestimenta de acordo com tuas obras!”

  2. Diz a alma dele: “Amigo, não fales de minhas obras, pois são todas más. Minha roupagem será então, horrivelmente suja e rota!”

  3. Digo Eu: “Se assim é, temos água de sobra para torná-la limpa!” Opõe ele: “Oh, seria o mesmo que alguém pretendesse clarear um ne- gro! Todavia, será tal vestimenta melhor que nenhuma e, assim, prefiro sair do lago.”

  4. A Meus Pés se acha uma toga pregueada, porém inteiramente suja, embora sua cor original fosse cinza esbranquiçada, particularidade da vestimenta pagã no Além. Zorel apanha a toga com repugnância, volta para a água e começa a esfregá-la até conseguir clareá-la.

  5. Estando, porém, úmida, não se anima a vesti-la. Eu, então, encorajo-o a fazer, lembrando-lhe de que não se intimidara diante da própria água. Ele assim faz e falando em voz alta diz: “É verdade; an- teriormente não me impressionei com o lago, por que deveria temer a camisa úmida?”

  1. OCORPO PSÍQUICO

  1. Nesse instante, Zinka faz a seguinte pergunta, em pensamento: “Mas, então a alma também possui corpo?” Tal indagação se baseava no conceito judaico de ser a alma algo de vaporoso; pois como espíri- to puro, não tem forma, muito embora seja constituída de vontade e intelecto.

  2. Por isto, Zinka arregala os olhos quando o outro lhe responde: “Por certo tem a alma um corpo, se bem que etéreo, mas para ela, este corpo é tão real como a própria matéria. Possui tudo que existe no fí- sico. Não te é possível percebê-lo com olhos carnais, entretanto sinto, vejo e percebo tudo, pois a alma usa dos mesmos sentidos para o inter- câmbio com o corpo.

  3. Os sentidos físicos são as rédeas nas mãos da alma pelas quais domina o corpo, na vida vegetativa. Se ele não os possuísse, seria intei- ramente imprestável e um peso insuportável para a alma.

  1. Imagina alguém, cego e surdo, destituído de qualquer sensação física: qual seria a vantagem que usufruiria a alma num corpo assim dotado? Não se desesperaria em seu estado consciencial?!

  2. De modo idêntico ela não tiraria proveito dos sentidos físicos mais apurados, se não os tivesse em seu corpo psíquico. Assim sendo, ela se apercebe, nitidamente, daquilo que o corpo percebe e assimila do mundo exterior. Daí te convencerás possuir ela um corpo.

  3. Transmito-te este conhecimento que poderás gravar em tua me- mória; eu, ao voltar ao estado anterior, nada saberei a respeito, por tê-lo assimilado apenas com a psique e não com meus sentidos físicos.

  4. Se os tivesse percebido através dos sentidos físicos, estes teriam gravado certas impressões nos nervos cerebrais e no nervo vital do co- ração, e minha alma os encontraria e reconheceria quando novamente integrada no corpo. Como no momento me acho libertado do mesmo, não podendo destarte influenciar seus sentidos, nada saberei depois da- quilo que vejo, ouço, falo e sinto, e o que se passa no meu íntimo.

  5. A alma também possui peculiar capacidade de recordação e pode lembrar-se, minuciosamente, de todos os acontecimentos, porém, somente em estado livre. Achando-se submersa no corpo que a obscu- rece, ela registra apenas as impressões grosseiras, abafando tudo que seja espiritual. De si mesma, não raro, sabe somente que existe sem se dar conta dos pensamentos elevados, ocultos em seu íntimo.

  6. Também és dono duma alma sem conhecê-la, e isto porque se acha temporariamente envolta na carne. Somente agora, depois de eu ter através de minha voz, impressionado os nervos da parte inferopos- terior da tua cabeça, e de tua alma a ter registrado, em seu centro emo- tivo, sabes, por ela, que tens uma psique de acordo com teu pensar e querer, e possuir ela a mesma forma que teu físico.”

  1. AALMADEZORELACAMINHODA RENÚNCIA

  1. (Zorel): “Eis que tal amigo me diz: ‘Vem, Zorel, levar-te-ei para outra zona!’ Caminho, pois, com ele através de uma alameda deslum- brante e as árvores se curvam diante dele. Deve ser muito elevado e

grande no Reino dos Espíritos, pois algumas árvores se envergam até quase ao solo!

  1. Tu, Zinka, nos acompanhas; tens aparência nebulosa e não te apercebes do que se passa. Que mundo estranho! Até as próprias árvores falam e dizem sussurrando: ‘Salve, ó Santo dos santos! Salve, Rei dos reis de Eternidades em Eternidades!’ Não achas isto muitíssimo estra- nho?! Todavia, ages como se este fato fosse coisa corriqueira!

  2. O amigo homenageado me diz não seres tu mesmo quem nos segue, mas uma imagem de tua alma. Ela projeta certas irradiações lu- minosas; quando atingem nossa aura, adquirem forma de modo seme- lhante à imagem que se refletisse na face dum espelho. Prova isto, não estares caminhando, mas flutuando à altura de sete pés. Agora compre- endo porque não vês as árvores curvarem-se e não as ouves falar!

  3. Neste instante, a alameda se torna mais estreita e as árvores mais baixas; entretanto, a extraordinária manifestação continua. O caminho se torna mais difícil, cheio de espinhos e abrolhos e mal podemos andar! Não vejo o fim, embora o amigo afirme estarmos chegando. Oh! Agora o solo está completamente juncado de pedras e espinhos, quase nos impedindo de prosseguir.

  4. Indago, então, do amigo porque havíamos encetado tal trilha, e ele me diz: ‘Olha à esquerda e à direita que descobrirás um mar profun- do! Isto aqui é o único lugar firme, não obstante perigoso e cheio de es- pinhos, dividindo ao meio estes dois mares imensos. Ele une o mundo terreno ao grande Paraíso dos bem-aventurados. Quem lá quiser chegar, deverá percorrê-lo.’

  5. Tu, Zinka, concordarás ser bem estranha tal resposta. Por isso indago novamente: ‘No mundo também existem muitos caminhos ruins, mas os homens procuram melhorá-los. Por que não se adota o mesmo sistema aqui?’

  6. E o amigo responde: ‘Por ser precisamente este espinheiro a pro- teção do cabo contra as ressacas impetuosas. Suas vagas enormes nele se quebram e lá deixam sua espuma que, pouco a pouco, torna-se pedra, firmando esta parte importante. Este cabo chama-se Humildade e Ver- dade Básica; ambas têm sido, até hoje, semeadas de espinhos!’

  1. As palavras do amigo, Zinka, levaram-me luz ao coração, onde sinto se localizar uma forma, qual embrião no corpo materno. Esta luz aumenta mais e mais e deve ser a centelha divina no coração humano. Que grande Bem isto me faz!

  2. Continuo, ainda, caminhando na mesma trilha; seus espinhos, porém, não me confundem nem me magoam. Agora sua densidade diminui, as árvores têm o mesmo tamanho anterior e se forma nova alameda. O cabo se alarga cada vez mais e vejo, à longa distância, uma paisagem maravilhosa, com montanhas verdejantes, onde surge a al- vorada! Ainda nos encontramos na alameda imponente e as árvores frondosas continuam curvando-se em veneração, sussurrando quais harpas sublimes!

  3. Oh, Zinka, se pudesses vislumbrar este quadro! Continuas, po-

rém, silenciosamente em nosso encalço, no que não tens culpa. Meu amigo, agora, afirma que, em tempo, ser-me-á dada a recordação de tudo isto; terei, todavia, de sofrer em vida, as penas deste caminho pedregoso.”

  1. ZORELNO PARAÍSO

  1. (Zorel): “A minha luz interna se intensifica e penetra todo o meu ser! Que bem-estar indefinível sinto! Vejo a luz na forma duma criança de quatro anos e de expressão mui amável. Deve ser bastante sábia e se parece com uma estampa maravilhosa do Verdadeiro Deus dos judeus. É a cópia fiel da Verdadeira Divindade!

  2. Começo a reconhecer a Existência de Um só Deus; e somente os de coração puro verão o Seu Semblante! Jamais me será conferida esta Graça, pois meu coração já estava impuro! Tu, sim, amigo Zinka, pois nele nada descubro de mácula, a não ser a sombra e o fio pelos quais te achas preso ao mundo.

  3. Só agora vislumbro, ao longe, o final da aleia. Do mar não há mais vestígios; por todos os lados se apresenta um continente fértil e vicejante; jardins e mais jardins! Palácios e palácios! Meu amigo me esclarece ser isto o Paraíso.

  1. Mortal algum, até hoje, penetrou no Céu, pois não foi ainda construída a ponte que estabelece a ligação. Todos os justos que vi- veram desde o início da Criação permanecem aqui com Adam, Noé, Abraham, Isaac e Jacob. Aquelas montanhas são as fronteiras deste país maravilhoso. Quem as galgasse poderia vislumbrar o Céu com a imensa falange dos anjos de Deus, sem poder ali ingressar, até que fosse cons- truída uma passagem sobre o tremendo abismo.

  2. Movimentamo-nos tão rápidos como o vento. O ser luminoso, dentro de mim, já alcançou o tamanho dum menino de oito anos e tenho a impressão de que seus pensamentos me atravessam qual raios. Sinto sua incompreensível sublimidade e profundeza; todavia não abarco suas formas. Devem conter algo excelso e cada pensamen- to me transporta a êxtase indescritível! A Terra toda não faz ideia do que seja, também não lhe é facultada! Ela é um julgamento da Graça Divina, entretanto, um julgamento, onde as Graças são parcamente distribuídas.

  3. Aproximamo-nos das montanhas colossais e tudo se torna mais

encantador! Que multiplicidade de milagres! Nem mil anos dariam para descrevê-los! Naquelas montanhas habitam pessoas de rara beleza, que todavia, não nos percebem, entretanto, as próprias árvores cumpri- mentam o meu amigo! Que povo estranho!

  1. Nesse instante alcançamos o cume de elevada montanha! Meu Deus, meu Deus, vislumbro lá ao longe um horizonte claríssimo, onde deve começar o Céu de Deus que se estende ao Infinito!

  2. Entre cá e lá se abre um abismo maior que a distância entre o Sol e a Terra! Aí deve ser construída a ponte, o que para Deus é bem possível!

  3. Agora meu duplo luminoso atingiu o mesmo tamanho que eu, e coisa singular, estou ficando sonolento e o amigo me ordena que me deite sobre a relva perfumada!”

  1. RELAÇÃOENTRECORPO,ALMAE ESPÍRITO

  1. Digo Eu: “Agora entrará no terceiro estado sonambúlico, pres- tai, pois, atenção às suas palavras!”

  2. Indaga Cirenius: “Senhor, que se passa quando Zorel adormece na relva que é, entretanto, invisível? Não poderia alcançar tal estado sem este fato?”

  3. Respondo: “Sim, se sua alma fosse pura; mas enquanto se acha presa ao corpo por vários laços, preciso é que se dê certo aturdimento quando então é transportada a outra esfera. Aquilo que a alma de Zorel viu e disse, em seu segundo estado de êxtase, era apenas ficção. Agora entrará na visão real e tudo que disser será realidade.”

  4. Prossegue Cirenius: “Que vem a ser o sono e como se processa?”

  5. Digo Eu: “Já que fazes questão de sabê-lo, responderei agora. Se usas uma vestimenta, ela vive pelos movimentos que fazes, isto é, sub- mete-se à tua vontade, assim como teus membros obedecem à vontade da alma. Ao tomares um banho tiras tua roupa, por desnecessária. En- contra-se ela neste período num repouso completo. Ao saíres do banho, readquirirá a movimentação anterior e viverá, de certo modo, contigo. Por que te despiste durante o banho? Por ter sido tua roupa pesada, provocando-te pressão. Como te fortaleceste no banho, ela te será leve como pluma.

  6. Quando tua alma se tornou cansada e fraca pela luta do dia,

desperta nela a necessidade dum repouso reparador. Despe, assim, sua roupagem física e se dirige a um banho fortificante de água espiritual onde se purifica e revigora. Alcançado isto, volta à sua vestimenta mate- rial, sendo-lhe fácil a movimentação de seus membros pesados.

  1. Por certo percebeste, através do relato de Zorel, ter surgido uma individualidade luminosa no coração de sua alma, estando ela na mes- ma conexão que existe entre alma e corpo. Tal individualidade jamais havia recebido um estímulo em sua alma, que representa sua roupagem. Repousava no coração da psique, como o ovo no ventre materno, antes da fecundação. Através deste tratamento especial, tendo por veículo a Minha e a palavra de Zinka, o gérmen de origem primária foi por mo-

mentos despertado e vivificado, e cresceu até que sua alma, isto é, sua vestimenta, fosse preenchida pelo espírito.

  1. A alma, porém, muito embora purificada no que é possível, contém certas partículas materiais, demasiadamente pesadas para o espírito, jamais treinado para suportar este peso. Esta individualidade espiritual, apenas artificialmente desperta e obrigada a um crescimento forçado, é ainda muito fraca para carregar a alma e, portanto, ávida de repouso e fortalecimento. Este aparente sono da alma na relva, nada mais é que o despir do espírito das partículas materiais de sua alma. Conserva somente aquilo que lhe é afim na psique, enquanto o resto tem de repousar, assim como o corpo descansa quando sua alma se fortifica, ou, quando tua roupa se acha inerte no momento em que, por um banho salutar, proporcionas alívio ao físico.

  2. Todavia, perdura, durante este estado, uma união com as partes

mais grosseiras. Se, por exemplo, alguém viesse durante o teu banho e se apoderasse de tua roupagem, a fim de destruí-la, teu amor natural para com ela protestaria contra tal usurpação. Uma união muito mais íntima existe entre corpo e alma, e quem tentasse, antes do tempo, rou- bá-lo e destruí-lo, seria mal recebido por ela.

  1. O laço que une espírito e alma é mais poderoso ainda, por- quanto ela própria — mormente em se tratando duma alma pura — é um elemento de origem espiritual, e o espírito reagiria violentamente se houvesse tentativa de roubo. Imediatamente se incendiaria, aniquilan- do tudo que dele se achegasse.

  2. A alma, no entanto, terá de se despojar de tudo que seja maté- ria, a fim de que o espírito possa se apoderar daquilo que nela lhe é ho- mogêneo, tornando-se assim um ‘eu’ perfeito. A parte material da alma se apresenta ao espírito como roupagem da mesma. Lembras-te de que Zorel falava duma camisa impura por ele lavada no lago, e que vestiu ainda úmida? Tal roupagem é precisamente a parte externa da alma que necessita repousar, para que o espírito nela penetre e a ela se una.

  3. Este processo sempre requer certo tempo, porque tudo perten- cente à própria vida livre (alma) deve entrar em união perfeita (matri- mônio espiritual) com a entidade nova e sublime, antes que o novo ho-

mem, ou seja, a criatura renascida e munida dos sentidos, possa surgir por conta própria. Esta transplantação espiritual se faz durante o sono, no qual Zorel ora se encontra; chegado este momento, tudo foi feito para o aperfeiçoamento espiritual, não mais necessitando de outro para sua subsistência em espírito.

  1. Apenas pelo conhecimento, na perfeição do puro amor e na sabedoria celeste, em seu poder organizador, administrador e regente, existe um crescendo para o Infinito e como consequência, felicidade sempre maior. Zorel dentro em breve se apresentará como espírito per- feito, transmitindo de viva voz aquilo por que passou!”

  1. ZORELVISLUMBRAA CRIAÇÃO

  1. Durante Minha Palestra com Cirenius, Zorel permaneceu como morto. Em seguida, começa a se mexer e toma a expressão transfigu- rada, despertando grande admiração aos próprios soldados, e um deles diz: “Este homem se assemelha a um deus adormecido!”

  2. Finalmente, Zorel abre a boca e diz: “Somente aquele que é per- feito reconhece Deus, amando-O e adorando-O!” Segue-se uma pausa. Prossegue então: “Todo o meu ser é luz e não percebo sombra nem mesmo fora de mim, porquanto a luz me inunda. E nesta profusão luminosa vejo um facho radioso qual Sol, onde Se mostra o Senhor!

  3. Anteriormente, julgava ser meu amigo e guia, apenas uma alma humana como nós. Só agora O reconheço; não Se acha comigo, mas vejo-O naquele Sol. Inúmeras falanges de espíritos flutuam a Seu re- dor, em círculos variados! Que Majestade indefinível! Oh criaturas, ver Deus e amá-Lo sobre todas as coisas é máxima ventura!

  4. Penetro, igualmente, nas profundezas da Criação do Deus Úni- co e Poderoso. Vejo nosso planeta com todas as ilhas e continentes, a profundeza dos mares e seus habitantes. Que variabilidade infini- ta de seres!

  5. Percebo o trabalho dos pequeninos espíritos na formação do reino vegetal, idêntico ao constante labor das abelhas nos favos da col- meia, instigadas pela Vontade do Todo Poderoso. Ele, que foi meu ami-

go e guia na estrada espinhosa da minha provação, ora habita naquele Sol imensurável, donde emana Sua Vontade Infinita!

  1. Ele, somente, é o Senhor, e tudo tem de se submeter à Sua Von- tade; pois nada existe que se Lhe pudesse opor. Seu Poder tudo abrange e Sua Sabedoria é insondável. Tudo no Espaço Infinito Dele deriva, e percebo como irradia forças semelhantes aos raios solares na aurora, que se projetam em todas as direções; onde um raio em algo toca, manifes- ta-se a vida, fazendo surgir novas formas. A forma humana é o final de Sua Criação e todo o Céu, cujos limites somente Deus conhece, repre- senta um homem, assim como cada comunidade de anjos, também é um homem perfeito.

  2. Eis um grande mistério de Deus, e quem não tiver alcançado

o meu estado atual, não poderá compreendê-lo; pois apenas o espírito puro, provindo de Deus, assimila o que é espiritual, sua constituição e o porquê de tudo. Nada existe no Infinito que não tenha sido destinado à criatura; tudo se concretiza na necessidade temporária e eterna.”

  1. ANATUREZADOHOMEMESEUDESTINO CRIADOR

  1. (Zorel): “Deus Mesmo é o Homem Original mais Perfeito e Eterno; Sua Natureza é fogo, cujo sentimento é Amor; Luz, cuja ema- nação é Sabedoria, e uma projeção de calor, cujo sentir é a Mesma Vida na esfera perfeita da Própria Consciência. O fogo se tornando mais forte, intensifica, igualmente, a Luz e o Calor criadores, projetando-se em todo o Infinito. A Criação assim surgida, assimila cada vez mais Luz e Calor, tornando-se apta a novas formações. Tudo se multiplica, projetado do Fogo, da Luz e do Calor originais, preenchendo o Espaço.

  2. Tudo, portanto, se origina da Individualidade de Deus e se de-

senvolve até se tornar semelhante ao Espírito do Homem Original, per- manecendo, então, em plena liberdade na forma humana.

  1. Onde se manifesta luz, fogo e calor, apresenta-se também o homem, perfeito ou em início de sua carreira evolutiva. Milhões de átomos se manifestam; os corpos isolados se atraem, transformando-

-se num de maior semelhança à forma humana. Este ser projeta maior

quantidade de luz e calor, e com isto se apresenta necessidade mais forte de progresso. Imediatamente as múltiplas formas rompem a membra- na, se bem que em estado de evolução, atraem-se e se enfeixam numa outra, através da substância advinda de sua vontade, para a projeção duma criação mais aperfeiçoada. Este ato evolutivo perdura até alcançar a forma humana, onde ora me encontro, sendo idêntico à luz e ao calor originais, isto é: semelhante a Deus, que vislumbro neste instante em Sua Luz Original: o Fogo e o Calor plenos, — a Própria Divindade.

  1. Por isto, é o homem primeiramente homem por Deus, e só de- pois, homem por sua própria evolução. Enquanto existe como ema- nação da Divindade, assemelha-se a um embrião no ventre materno; só quando aceita a Ordem Divina, torna-se criatura íntegra, capaz de alcançar Sua Semelhança. Atingido este estado, é ele eterno como Deus, e criador de outros mundos e seres. É estranho que veja todos os meus pensamentos, sentimentos e desejos, recebendo um invólucro através de minha vontade. Deste modo se efetua a Criação até ao Infinito!

  2. O amor manifestado como calor necessita de polarização; quan-

to mais poderoso é este sentimento e sua produção de fogo e calor, tanto maior sua luz.

  1. A exigência do amor se expressa em imagens luminosas. Essas, porém, surgem e se desvanecem como os quadros que a fantasia gera, enquanto a pessoa se encontra de olhos fechados. Outras se apresen- tam maiores e inclinadas à projeção de estruturas mais concretas. Na criatura renascida — meu estado atual — o pensamento é fixado, por- que atingido pela vontade, recebe rápida membrana, não sendo mais possível alterar sua forma. Essa membrana de qualidade extremamente etérea, permite a infiltração de maior calor e luz por parte de quem a projetou. Essa influenciação aumenta luz e calor do pensamento origi- nal, começando a se desenvolver mais e mais e será, de acordo com a sabedoria e o conhecimento plenos, coordenada em todas as partículas e derivações. Uma vez alcançando o pensamento sua ordem orgânica, começa a se manifestar vida própria e consciente.

  2. É compreensível possa uma individualidade renascida projetar,

em tão poucos instantes, um sem número de ideias e pensamentos.

Querendo fixá-los com sua vontade, perdurarão e se desenvolverão, tornando-se, finalmente, semelhantes ao seu criador em sua máxima perfeição, onde projetarão seus similares, produzindo multiplicidade infinita, pela mesma forma projetada. Disto já temos exemplos concre- tos no mundo material.

  1. Encontrais a autoprocriação no reino vegetal e animal, e até nos corpos cósmicos. Todavia, tal procriação é limitada: duma determinada espécie de semente se reproduz um número exato de outras. O mesmo acontece com os animais, isto é: quanto maior a espécie, tanto mais re- duzida a prole. De modo idêntico no homem, e mais ainda nos corpos cósmicos. No Reino dos espíritos, porém, não existe limitação no sentir e pensar. Sendo possível a todo pensamento e ideia serem fixados pela vontade de quem os projetou, compreende-se jamais ter fim a procria- ção dos seres.

  2. Tu, Zinka, indagas no teu íntimo onde finalmente se localizará

neste crescendo. Amigo, considera apenas ser infinito o próprio Espaço e se fosses eternamente criar milhões de sóis a cada instante, estes gira- riam de modo tão rápido pelo Espaço, nele perdendo-se como se nunca tivessem sido criados! Ninguém compreende a Eternidade do Espaço Infinito, nem os próprios anjos, muito embora estremeçam diante de sua profundeza!

  1. Vislumbro com os olhos da alma o Todo da Criação! Toda essa nossa constelação com suas inúmeras estrelas, entre as quais existem galáxias que comportam bilhões de sóis e planetas, — nada represen- ta comparada ao Imenso Todo! Posso, todavia, afirmar haver algumas, cujo diâmetro ultrapassa milhões de vezes a distância daqui à estrela mais longínqua.

  2. Esses corpos são imensos, entretanto apresentam-se à tua vista como meros pontinhos luminosos! Poderias criar um bilhão de sóis com seus planetas, luas e cometas, e distribuí-los nessa nossa galá- xia, que a preencheriam tanto quanto uma gota d’água aumentaria o mar. E bilhões vezes bilhões de galáxias, tampouco seriam percebidas no que diz respeito ao Espaço, como bilhões de gotas de chuva no imenso oceano.

  1. Observa a Terra! Embora milhares de córregos, rios e torrentes caiam no mar, este de modo algum é aumentado; calcula o surgimento de inúmeras criações, que elas também se perderão no Espaço Infinito. Por isto não te preocupes com o possível excesso de seres no campo da Criação, pois no Infinito existe Espaço Eterno e Deus é bastante Pode- roso para prover sua manutenção e destino.”

  1. OSPROCESSOSEVOLUTIVOSEMA NATUREZA

  1. (Zorel): “Afirmo-te, Zinka: Tudo que pensaste, falaste e fizeste em tuas diversas encarnações é registrado no Livro da Vida. Trazes um exemplar no cérebro de tua alma, enquanto o original se acha aberto diante de Deus. Quando tiveres alcançado a perfeição — como ora me acho perfeito — saberás de tudo que se passou contigo. Alegrar-te-ás com aquilo que foi bom; pelo teu desvio da boa ordem, não sentirás propriamente tristeza como homem perfeito que és; mas reconhecerás a grande Misericórdia e os Sábios Desígnios de Deus. Isto te fortalecerá no amor a Deus e na máxima paciência para com os irmãos fracos e imperfeitos, que Ele encaminhará para tua proteção, aqui ou no Além.

  2. De tais pensamentos registrados surgirão, futuramente, novas

criações de variados matizes. São entregues ao fogo solar, a fim de al- cançarem certa maturação e depois serem expelidos violentamente no Espaço, aí alcançando, pouco a pouco sua emancipação. Nesses mun- dos recém-nascidos se desenvolvem, sucessivamente, muitos milhares de pensamentos e ideias, como as sementes deitadas no solo através da força germinativa atuando em seu centro e servindo de núcleo para a posterior formação de seres minerais, vegetais e animais, cujas almas, mais tarde, transformar-se-ão em almas humanas.

  1. Tais mundos neocriados podem ser avistados, em maior par- te, nas estrelas nebulosas e cadentes que rasgam a abóbada celeste. Sua origem deriva dos pensamentos, ideias e ações registrados no Li- vro de Deus.

  2. Por aí vês que mesmo o mais leve pensamento — aqui ou em outros mundos — jamais se perderá. E os espíritos criadores dum novo

planeta, surgido pela Vontade de Deus, compreendem ser ele sua pró- pria obra, pois se encontram em estado perfeito, aceitando venturosa- mente a direção, desenvolvimento, vivificação completa e a organização interna daquele corpo cósmico e de seus futuros habitantes.

  1. Ao observares nossa Terra, vês apenas a matéria, enquanto que distingo os seres algemados, seu desenvolvimento progressivo em for- mas úteis e os inúmeros espíritos de várias categorias, numa atividade incessante.

  2. Em cada gota de orvalho pendente na ponta duma erva, vejo miríades de seres se movimentarem! A gota d’água é apenas a primeira manifestação dum pensamento divino. Os pequeninos espíritos (ele- mentos) nela algemados, isolam-se nu’a membrana peculiar e assim criam existência mais definida e bem diversa da original. Por este pro- cesso desaparece a gota d’água, e suas formas neocriadas, espalham-se por sobre a planta. Aí se atraem, tomando forma diferente e cem mil se formam numa individualidade. Esta é envolvida em nova membrana que, pela influência de luz e calor, se transforma num organismo útil para nova criação. Eis que este ser entra em atividade preparatória para outra transformação, mais evoluída. E assim é a atividade dum ser já encapsulado em qualquer forma para o preparo de outra, mais elevada e perfeita, a fim de concretizar os elementos psíquicos e, finalmente, a vida espiritual, na forma humana.

  3. Poderia revelar-te muita coisa sobre a Ordem provinda de Deus;

sinto, escoar-se o prazo desse meu aperfeiçoamento. Por isto acrescento o pedido de usares de paciência quando voltar a ser o mesmo homem ignorante e aborrecido, conduzindo-me ao caminho certo; pois nada disto que ora te revelei, ficará na minha memória, no entanto, ser-me-á de grande utilidade.

  1. Por certo, meu espírito, levado à perfeição pela força, cansar-se-á deste estado insólito, manifestando pouco interesse. O atual repouso, porém, fortificá-lo-á, despertando-o e fazendo com que sinta a necessi- dade da verdadeira perfeição da vida que ora pude saborear, e tudo fará para o rápido progresso da alma em sua maturação dentro da Verdade, e na capacidade justa de unir-se ao espírito.

  1. Novamente adormecerei por meia hora, finda a qual, deves fa- zer com que eu desperte pelo apor em sentido contrário de tuas mãos; uma vez despertado, não me deixes afastar até que tenha descoberto o Homem dos homens, nesta mesa! Pois é o Mesmo que ora vejo no Sol do Reino Eterno dos Espíritos! Agradeço-te pela caridade com que me trataste!”

  1. NÃO JULGUEIS!

  1. Após estas palavras Zorel adormece; Zinka, porém, exclama: “Que revelações extraordinárias! Se tudo for verdade, teremos ouvido o que profeta algum jamais sonhou! Estou completamente confundido pela sabedoria deste homem!”

  2. Concorda Cirenius: “Realmente, coisas tão sublimes nunca fo- ram imaginadas. Os ensinamentos de Mathael eram bem profundos; Zorel, porém, ultrapassa-o! Se lhe fosse possível repeti-los em estado de consciência, fá-lo-ia sentar num trono, a fim de que pregasse à Huma- nidade os meios necessários para a aquisição da Verdadeira Vida!”

  3. Digo Eu: “Muito bem, amigo Cirenius! Por ora, é imprescindível não o que Zorel externou no terceiro estado sonambúlico, mas que futu- ramente não condeneis alguém só pelo fato de ser uma alma doentia. To- dos vós presenciastes habitar um espírito numa alma mui enferma; se ela for curada pelo vosso amor ao próximo, tereis conseguido um prêmio, que o mundo jamais vos poderá oferecer. Acaso seria possível determinar o benefício que tal homem renascido poderia fazer?! Isto se passa desper- cebido ao vosso conhecimento; Eu, porém, sei que vale a pena tal esforço!

  4. Por isto vos digo: Sede sempre misericordiosos para com os cri-

minosos e pecadores; pois só é possível pecar uma alma doente, e o pecado é a consequência de sua enfermidade.

  1. Quem de vós poderia julgar ou condenar alguém pela infração de um dos Mandamentos, quando todos vos achais sob a mesma lei?! O Meu Mandamento reza, justamente, que não deveis julgar o próxi- mo! Se assim fizerdes, pecais, igualmente, contra Mim. Como poderíeis condenar alguém se sois pecadores idênticos?! Não sabeis que ao im-

pordes uma pena severa a vosso irmão, psiquicamente enfermo, tereis pronunciado vossa própria condenação, duplicando suas penas a serem expiadas no Além e, muitas delas, ainda em vida?!

  1. Se entre vós existe pecador com função de juiz, que renuncie à profissão pois, pela condenação aplicada ao semelhante, acarretará, para si, duplos sofrimentos, dos quais será mais difícil se libertar do que o réu. Poderia um cego guiar outro a caminho certo?! Ou poderia um surdo relatar algo sobre os efeitos das harmonias da música?! Ou um coxo prometer a um semelhante: Vem, infeliz, levar-te-ei ao albergue!

— Não cairão ambos dentro da vala?!

  1. Por isso gravai bem: Não deveis julgar quem quer que seja, e recomendai isto aos vossos futuros discípulos! Pelo cumprimento de Minha Doutrina fareis anjos das criaturas ou então demônios e juízes de vós próprios.

  2. No mundo não existe pessoa perfeita; quem, todavia, possuir maior compreensão de sentimentos e capacidade intelectual, deve ser guia e médico de seus irmãos enfermos, e o forte deverá amparar o mais fraco, do contrário ambos sucumbirão!

  3. Proporcionei-vos exemplo nesse sentido através do relato de Zo- rel, a fim de que possais reconhecer o erro de condenardes um crimino- so à vossa moda! Tal sistema será o dominante no mundo e dificilmente se destruirá, completamente, o dragão da tirania, tornando-se a Terra palco de provações para Meus futuros filhos; em vosso meio, porém, não deve ele vigorar porque os Céus vos cumularam de frutos providos de fartas sementes.

  4. Se neste momento saboreais os frutos de Meu Zelo, não esque- çais lançar suas sementes nos corações alheios para que colham com fartura. A maneira pela qual ocorre este fato vos foi demonstrada niti- damente. Fazei o mesmo que sereis aptos a projetar nova vida, fazendo jus à Vida Eterna em sua plenitude!

  5. Agora chega o momento em que tu, Zinka, deves apor tuas mãos em Zorel, a fim de que desperte; quando voltar a si, Marcus lhe poderá dar um pouco de vinho diluído para revigorar seu físico. Exter- nando-se ele como dantes, não vos aborreçais e tampouco lembrai-lhe o

que disse em estado de êxtase, pois poder-lhe-ia causar dano físico. Pou- co a pouco podeis indicar-lhe Minha Pessoa; muita cautela, porém, pois um choque nesse sentido anularia todo esforço até agora empregado!”

  1. MATERIALISTADE ZOREL

  1. Zinka então apõe suas mãos em Zorel e ele desperta de pronto. Marcus em seguida lhe oferece uma grande taça de vinho diluído que Zorel toma com avidez, pedindo outro tanto. Permito-o sob condição de conter mais água do que vinho. Assim refeito, Zorel começa a nos observar, um a um. Não tirando os olhos de Mim, diz após alguns ins- tantes: “Zinka, aquele homem não me é estranho e quanto mais o fito, mais me convenço tê-lo visto alhures. Dize-me quem é!”

  2. Responde Zinka: “É filho dum carpinteiro de Nazareth e um curador habilidoso. Seu nome corresponde a seu caráter, pois se chama ‘Jesus’, isto é: Salvador de alma e corpo. Seu Poder de vontade é insupe- rável e Seu saber angelical!”

  3. Diz Zorel, em surdina: “Isto tudo não me esclarece o motivo por que tenho a impressão de conhecê-lo e ter viajado em sua companhia, todavia, não me recordo desse fato. Explica-me isto!”

  4. Responde o outro: “Muito fácil; tiveste talvez um sonho, do qual apenas tens uma fraca recordação.”

  5. Diz Zorel: “Podes ter razão, pois nunca vi aquele nazareno. Agora outro assunto; eu aqui vim para receber um auxílio do Prefei- to. Achas que me atenderá? Se nada tiver de esperar, poderias intervir em meu favor, fazendo com que me dispense. Que farei aqui? Nada me interessa desta controvérsia teosófica; pois minha filosofia se baseia em a Natureza que se renova constantemente. Além disto, defendo o ponto de vista de serem comida e bebida, os fatores mais importantes para a vida.

  6. No que diz respeito às artes e ciências, não sinto necessidade

de aumentar meus conhecimentos; portanto seria tolo de minha parte permanecer aqui para me inteirar de teses profundas, difundindo-as em outras plagas, tornando-me importante.

  1. Sinto verdadeira repugnância pelas leis humanas que apenas vi- sam cercear a liberdade alheia, e se eu fosse mais inteligente, saberia dos motivos de tais injustiças, o que por certo não aumentaria minha felicidade.

  2. Amigo, a pessoa que quisesse viver como dono de todas as ma- ravilhas do mundo, teria de arcar com a miséria do próximo, e seus tiranos bem mereceriam castigo severo. Mas quem seria seu juiz?! Aos miseráveis interessa a destruição, pois quando deixam de existir, leis, perseguições e penas, não têm mais efeito! Eis minha convicção, que dificilmente poderá ser contestada! Ninguém pretende ouvir a Verdade; todos se enleiam em fantasias e se julgam felizes.

  3. Intoxicai-vos, miseráveis, com o veneno da mentira e dormi sob o doce peso da loucura, se isto vos faz feliz! Deixai-me saborear o meu furto, que nada vos faço. Dai-me do vosso supérfluo apenas aquilo que me foi tirado pelo incêndio. Se, como sempre, nada me pretendeis dar, permiti ao menos que me retire e colha alguns feixes de gravetos para aquecer-me como animal. Se quiserdes infelicitar-me mais do que sou, matai-me agora mesmo! Caso contrário, eu mesmo saberei fazê-lo!”

  4. Intervém Zinka: “Em absoluto deves pensar de tal modo! Pois,

enquanto dormias, Cirenius tomou as providências necessárias em re- lação ao teu futuro, mas isto, só depois de reconheceres ser falha tua convicção ora externada. Aceita melhor orientação, que serás feliz!”

  1. ZORELCRITICAMORALE EDUCAÇÃO

  1. Antepõe Zorel: “Tuas palavras soam bem amáveis e estou con- victo da tua sinceridade; mas..., que orientação deveria aceitar?! Dois mais dois são quatro, e eu seria tolo supor que fossem sete; portanto acho difícil mudar minhas convicções.

  2. Ninguém poderá negar um Poder inteligente e eterno donde se derivam todas as manifestações de vida. Quão ridículo, porém, as criaturas ignorantes admitirem tal Onipotência numa forma humana e, às vezes, até animal!

  1. Se os judeus tivessem permanecido em sua doutrina antiga, te- riam finalmente, uma ideia razoável da Divindade que denominam ‘Jehovah’. Desvirtuaram-na completamente, superlotando seus templos com imagens e ornamentos ridículos e os próprios sacerdotes punem os fiéis que não aceitam tais baboseiras. Acaso deveria eu me tornar judeu, nestas condições?!

  2. Consta terem eles recebido Leis da Própria Divindade, cujo cumprimento seria o meio para a conduta certa do homem. De que adianta proibir roubo e fraude aos pobres, enquanto se ludibria e furta o próximo como detentor do trono da Glória?!

  3. Se um pobre coitado é forçado a se apossar daquilo que o rico tem em abundância, ele é chamado à responsabilidade e castigado com rigor. O legislador que pratica tais infrações a toda hora, está acima das leis e só acredita em seu lucro. Poderia tal conceito ter ori- gem divina?!

  4. O próximo não me deveria querer aplicar aquilo que não fosse de seu agrado, pois se a miséria me leva a mendigar e ninguém me atende, seria justo condenar-me se me aposso daquilo de que necessito?! Ainda se fosse levado a assim agir pelo ócio, a lei seria aplicável; não que queira caluniar uma sábia lei, todavia não consegue ela melhorar a índole humana.

  5. Além do mais, é injusta a lei de prisão contra a moral sem co- gitar da natureza, tempo e inclinação do homem. Basta considerar as circunstâncias que, muitas vezes, influenciam ambos os sexos. Na maior parte trata-se de pessoas sem educação e orientação. Alimentam-se, não raro, de coisas que estimulam seus instintos e até conseguem satisfazê-

-los. O caso se torna, porém, conhecido e o pecador é castigado por ter infringido uma lei divina!

  1. Tolos que sois com vossas leis! Não seria ridículo o jardineiro que principiasse a envergar as árvores com toda sorte de estacas, após terem alcançado certa altura? Assim sendo, por que Deus — ou Seu suposto profeta — não proporciona inicialmente uma educação sábia, para depois determinar o cumprimento de seus Mandamentos?! Fala, Zinka, se tenho razão em meu ponto de vista.”

  1. Responde este: “No fundo não te posso contestar, amigo Zorel; todavia, asseguro-te existirem coisas estranhas de cuja realidade não fa- zes ideia. Só quando te tiveres compenetrado do porquê, reconhecerás quanto de bom e verdadeiro repousa em tuas afirmações.”

  2. Diz Zorel: “Externa-me tua opinião caso não concordes.”

  3. Responde Zinka: “Disto não teríamos proveito; melhor será te dirigires àquele homem que alegas conhecer; somente ele te poderá elucidar.” Concorda Zorel: “Muito bem; mas afirmo-te que sua tarefa não será fácil!”

  1. ENGANOS MATERIALISTAS

  1. Com tais palavras Zorel se dirige a Mim e diz: “Nobre senhor e mestre na arte de curar! Estes trapos não me honram, todavia me co- brem os membros. De acordo com as afirmações de Zinka, és tu a pes- soa competente para me elucidar. Certamente ouviste meus princípios bem fundados, que para mim representam a verdade plena; se te for possível antepor algo melhor, ser-te-ei grato. Não sei qual título devo empregar para teu tratamento; como homem de Bem que aparentas, tal não te deve preocupar. Peço-te, pois, me orientes no que falhei: teria o homem menos direitos que o animal, o qual, a fim de saciar suas neces- sidades não hesita em se tornar ladrão?”

  2. Digo Eu: “Amigo, enquanto comparas teus direitos humanos

aos de um animal, estás plenamente certo; pois seria absurdo prescre- ver-lhe determinações morais, sabendo-se ser sua natureza seu único legislador.

  1. Se, todavia, o homem existir por uma razão mais elevada — o que até hoje não te passou pela ideia, o que demonstra estar tua inte- ligência apenas interessada pelas necessidades mais inferiores, — teus princípios matemáticos não se acham bem alicerçados.

  2. Pelo fato de ter tido o homem um destino superior, pensas estar o recém-nascido em posição inferior ao do animal, porque começa ape- nas a se tornar adulto depois de alguns anos de grandes cuidados? Terá de se submeter a uma organização qualquer e conquistar seu sustento

com grande esforço e abnegação. Por este motivo, também recebeu cer- tas leis como primeiro guia para um destino maior, considerando-as de livre vontade, em virtude de sua emancipação e determinação individu- al, únicos meios que lhe facultam alcançar seu objetivo elevado; nunca, porém, como homem-animal!

  1. Enquanto te dedicares apenas às exigências físicas, não farás pro- gresso como criatura; quando, porém, te aperceberes de que em teu íntimo habita um outro ser de necessidades bem diversas das do corpo e com finalidade mais importante, não te será difícil reconhecer em que solo arenoso se baseiam teus princípios!

  2. Conheço tua boa vontade e o quanto tens investigado na eluci- dação do porquê de todo mal, que enterra o Gênero Humano. Como sempre sentias um especial prazer em furtar, teus pensamentos procu- ravam justificar tal atitude. Tendo sido desde jovem amigo e aprecia- dor das mulheres, a moral condenando o ato excessivo, aborreceu-te fortemente.

  3. Com tais tendências, tens razão em teus princípios, assim como propugnas por uma lei pela qual todas as crianças deveriam receber educação que lhes incutisse a ordem social de tal forma a lhes impossi- bilitar, quando adultas, a infração, anulando, com isto, toda legislação posterior.

  4. Tal ordem foi instituída pelo Próprio Criador dos mundos, seres e animais! Cada animal recebe em sua natureza, ainda no ventre ma- terno, a pré-educação por ti exigida e não mais necessita de outra, pois aquela já encerra todos os princípios básicos. Aquele que criou anjos, Céus, mundos e homens, necessariamente deveria saber o imprescindí- vel para educar as criaturas, a fim de se tornarem seres independentes,

— e nunca irracionais.

  1. Se fores analisar teus princípios de vida mais minuciosamente, chegarás à conclusão de ser a linguagem grande prejuízo por induzir o homem a coisas nocivas, pois a própria mentira não se teria enraizado na Humanidade. Até mesmo o pensamento é perigoso, levando as pessoas a maldades e hipocrisias! Finalmente não conviria possuírem os cinco sentidos, tentação constante contra a qual se deve defender o homem!

Observa, pois, teu representante humano dentro de teus princípios e indaga se existe diferença entre ele e um pólipo, com exceção da forma!

  1. Para que fim então cogitar do destino elevado do homem? Qual seria a educação aplicável a um pólipo? Quando chegaria tal cria- tura ao conhecimento de si própria e do Deus Verdadeiro, da Causa de todas as coisas, toda Luz e Bem-aventurança?! Analisa a constituição sadia dum homem através do teu raciocínio crítico, e acharás que um ser tão sábio e artisticamente constituído, deve por fim, ter ainda outra finalidade, além daquela de encher seu ventre dia a dia, para depois tratar de expelir seus excrementos!”

  1. JUSTIFICÁVELPROTEÇÃODA PROPRIEDADE

  1. (O Senhor): “Alegas, como justificativa para teu roubo, possuí- res direitos de posse à vista da situação de penúria em que te encontras, não sendo isto pecado contra a Lei de Deus. De fonte segura te posso afirmar, ter Jehovah considerado tal necessidade quando criou os Man- damentos, formulando a seguinte Lei: Não deves impedir que o burro se alimente no teu campo durante o trabalho e tampouco amarrar a boca do boi que puxa o arado. E ao transportares os molhos de trigo para o teu celeiro, deixa no campo as espigas caídas, a fim de que os pobres colham aquilo de que necessitam. Todos devem estar prontos para socorrer aos necessitados e saciá-los quando famintos! Esta Lei de Jehovah demonstra ter Ele considerado, suficientemente, a pobreza.

  2. É mais que natural não ser possível a todos se tornarem pro-

prietários. Para os primeiros habitantes desta Terra, ainda era fácil sua divisão, pois não havia dono. Hoje em dia ela é habitada, mormente nas zonas férteis, por grande número de criaturas. Não se pode contestar a posse às famílias que, de longa data, vem preparando o solo para o seu sustento, e sim, protegê-las devidamente, porquanto ainda beneficiam centenas de outras, não proprietárias.

  1. Quem possui grandes terras necessita de muitos colonos que vi- vem, como o dono, do seu produto. Seria aconselhável possibilitar a todos os mesmos direitos de posse? Quem deveria cultivar os campos?

Cada dono de persi? E se ele adoecesse? Portanto, não é mais viável haver poucos proprietários com celeiros e provimentos, do que propor- cionar aos recém-nascidos o direito de posse, quando finalmente não haveria meio de sustento?

  1. Continuo a indagar de tua inteligência matemática: Se não houvesse uma lei de proteção à propriedade, que farias tu se outros viessem para tirar teu provimento, por não se disporem a trabalhar? Não haverias de indagar do motivo pelo qual não providenciaram, em tempo, com o que se alimentar? E se te respondessem: Não tínhamos disposição para tal e bem sabíamos que os vizinhos semeavam! Não acharias justo a existência duma lei que punisse tal delito e os obrigasse a trabalhar, e que fosse devolvido teu estoque? Eis a exigência da lógica!

  2. Se consideras teus princípios matemáticos como os melhores do

mundo, faze uma caminhada de algumas léguas em direção ao Oeste, onde encontrarás, nas imensas regiões montanhosas, uma quantidade de terras sem dono. Lá poderás tornar-te proprietário e ninguém porá obstáculos. Podes até mesmo levar algumas mulheres e empregados, organizando, naquelas regiões longínquas, um próprio domínio, e não serás molestado nem daqui a mil anos. Somente alguns ursos, lobos e hienas terás de liquidar, pois poderiam perturbar o teu merecido sono. Deste modo, ao menos conhecerás as dificuldades sem par com que os proprietários terão de lutar, até que o solo seja trazido ao atual estado de progresso. Com tais experiências, também compreenderás a injustiça de tirar a posse dos ricos, a fim de entregá-la aos ladrões e infratores.

  1. Como nunca foste amigo do trabalho e de favores, arrogaste o direito de roubar despercebidamente! Compraste somente o campo de duas fangas com o casebre; isto, porém, com o dinheiro que desviaste, em Sparta, dum comerciante rico. Naquela cidade o furto era permi- tido, quando feito com esperteza. Há muitos anos, porém, existem lá as mesmas leis de proteção à propriedade, de sorte que tua atitude não deixa de ser um roubo. O restante de teus bens apanhaste em Cesareia Philippi e seus arrabaldes!

  2. Ai daquele, entretanto, que te tirasse algum objeto; ensinar-lhe-

-ias teus direitos qual esbirro romano! Ou teria sido de teu agrado se

outro viesse colher os frutos de teu campo apenas por ser pobre? Por- tanto: aquilo que não achas justo para ti, também não o é para o teu próximo! Sendo a situação conforme te expus, consideras ainda teus princípios como únicos e indiscutíveis?!” Zorel queda perplexo, convic- to de sua derrota.

  1. DESCENDÊNCIADE ZOREL

  1. Aproximando-se dele, Zinka, bate-lhe no ombro e diz: “Então, amigo Zorel, aceitarás ou não o auxílio de Cirenius? Segundo me pa- rece, tuas convicções vitais — no início tão boas — não foram bem fundamentadas!”

  2. Responde ele, hesitando: “Sim, o Salvador tem razão e reco- nheço minha tolice. Como foi possível a ele saber isto tudo, e o que devo fazer?”

  3. Aconselha Zinka: “Nada mais senão pedir orientação justa e agir de acordo; o resto deixa por conta dos que te querem socorrer.” De pronto Zorel cai a Meus Pés, pedindo-Me ensinamentos. Eu, porém, indico-lhe o apóstolo João, o que muito o surpreende.

  4. Eu, então, lhe digo: “Se um senhor possui vários empregados e servos, agirá com injustiça dando-lhe uma tarefa de acordo com suas capacidades?! Não é preciso que meta as mãos para que chegue a bom termo; basta o espírito do Senhor, que o trabalho será concluído pelas mãos hábeis dos serviçais. Vai, pois, àquele que te indiquei e nele en- contrarás o homem acertado. Lá está ele, à cabeceira da mesa e usa um manto azul.”

  5. Zorel se levanta e quando perto de João diz: “Servo fiel daquele sábio senhor! Peço-te me dês o ensinamento que proporcione minha redenção, para que possa ser admitido no grupo dos que se chamam verdadeiras criaturas.”

  6. Responde João: “Receberás a Verdade em Nome do Senhor! An- tes, porém, deves reparar todo dano cometido e prometer modificar tua vida; tens de devolver ao dito comerciante em Sparta as duas libras de ouro! Além disto, tens de renegar ao paganismo e tornar-te judeu, como

foi teu avô, descendente da linha Levi. Há quarenta anos se dirigiu para Sparta, a fim de revelar aos gregos o único Deus Verdadeiro; deixou-se, porém, com toda família, convencer pelos pagãos, inclusive tu mesmo. Teus dois irmãos, que ainda vivem naquela cidade, tornaram-se sacer- dotes, dedicando seus serviços tolos a Apollo e Minerva. Tua única irmã é esposa dum comerciante que negocia com imagens e estampas de deuses, e com o meretrício. Eis teu cunhado, também judeu!”

  1. Zorel está completamente perplexo por João saber de tudo que ele mesmo procurou ocultar; todavia, julga ter o apóstolo andado pela Grécia, onde havia sido informado de tal fato. Por isto, vira-se depressa para João e diz: “Mas por que contas estas coisas diante de todo mun- do?! Não basta nós dois sabermos disto?!”

  2. Retruca João: “Acalma-te, amigo; pois se o fizesse para prejudi- car-te em alma e corpo, eu seria perverso e, diante de Deus, pior que teu cunhado na Grécia. Devo, a fim de iniciar tua salvação, denunciar-te perante os homens, para que não aparentes aquilo que não és! Se te queres tornar perfeito, deves te pôr a descoberto e estar tua alma sem segredos. Só quando tiveres afastado de ti tudo que seja contra a ordem, podes começar a trabalhar na tua perfeição. Bem poderias te livrar de teus pecados pela confissão interna e regenerar-te, de modo que teus se- melhantes te honrassem, porquanto ignoravam teus erros e seguiriam, mesmo, teu exemplo! Mas se com o tempo fossem informados de fonte segura de teus grandes delitos, quão receosos não te deveriam fitar?! Todas as tuas virtudes seriam apenas pele de cordeiro, ocultando lobo voraz; fugiriam de ti, apesar de toda tua virtuosidade.

  3. Por aí vês ser preciso também evitar as aparências, caso se queira

ser perfeito; do contrário, não se poderia ser útil ao próximo, dever principal do homem, pois, sem este objetivo, não é possível imaginar uma sociedade realmente feliz na Terra.

  1. Que benefício teria a Humanidade com a perfeição de alguns indivíduos, caso se mantivessem ocultos?! Teriam eles de suportar a des- confiança de todos. Se teu semelhante chegar a saber quem realmente és, quais tuas atitudes anteriores, e tu começares a modificar tua índole, reconhecendo o mal que fizeste e repudiando-o com sinceridade, todos

te cercarão de braços abertos, amando-te como irmão bem intencio- nado. De sorte que deves primeiro confessar tuas fraquezas, antes de poderes assimilar um ensinamento melhor. Muito embora já tenhas confessado alguns erros, ainda não te livraste de todos, e eu te auxilio neste sentido, por saber que terás dificuldade para tanto.”

  1. Indaga Zorel: “Mas como podes saber disto tudo, e quem me denunciou, pois jamais te vi?”

  1. OPASSADODEZORELCOMOTRAFICANTEDE ESCRAVOS

  1. Diz João: “Não te aflijas por isto; quando tiveres alcançado a perfeição, saberás do porquê. O pior ato de teu passado consiste em teres sido mercador oculto de escravas da Ásia Menor, entre doze e catorze anos, vendendo-as para o Egito e a Pérsia, sendo geralmente o destino dessas moças, o mais triste possível: eram vilipendiadas pelo seu comprador. Se ao menos tivessem passado por tal crime de modo natu- ral, não teria sido tão asqueroso; mas foram incrivelmente maltratadas em Alexandria, Cairo, Tebas e Memphis! Se te fosse possível ver como essas infelizes eram açoitadas pelos donos diabólicos, a fim de aumentar o gozo, tu mesmo te amaldiçoarias — embora desprovido de sentimen- tos humanos — por ter levado uma criatura a semelhante desgraça, sem descrição, na expectativa do lucro de algumas miseráveis moedas!

  2. Quantas maldições horrendas não foram proferidas contra tua

pessoa, quantas lágrimas de dor e desespero vertidas por tua culpa! Inú- meras dessas moças pereceram em consequência de atrozes sofrimentos! Todas elas pesam na tua consciência! Tua negociata imunda assumiu grande vulto mormente há três anos passados e o número das infelizes ultrapassa o de oito mil! Como irás reparar este crime?! Que te fizeram essas meninas para que as infelicitasses de modo tão brutal?!”

  1. ZORELTENTAJUSTIFICAR- SE

  1. Profundamente confundido, Zorel se cala. Depois de longa pau- sa, começa: “Amigo, se naquela época tivesse tido a compreensão deste momento, podes estar certo de que não me teria dedicado ao tráfico de escravas! Sou cidadão de Roma, e não existe lei que proíba tal negócio. Até aos judeus é permitida a compra de crianças quando eles não têm filhos; por que então não deveriam fazê-lo outros povos cultos, como os egípcios e persas?! Portanto, eram aquelas moças vendidas a povos mais cultos, e era de se esperar destino melhor do que aquele que lhes era reservado na própria pátria.

  2. Vai às zonas da Ásia Menor e encontrarás um mundo de gente,

mormente crianças, que te levam a indagar como podem subsistir sem se tornarem antropófagos! Asseguro-te que, de cada vez que lá cheguei, fui verdadeiramente assaltado pelos habitantes, que por alguns pães me entregavam um ou dois filhos, encantados com a minha vinda. Se eu comprasse cem meninas, era ainda agraciado, com mais quarenta ou cinquenta. Muitas, eu vendi aos essênios, que também prezavam os garotos. Os egípcios preferiam as mocinhas, em parte para o trabalho, e em parte para sua própria satisfação. Não duvido houvesse entre eles alguns obscenos que maltratassem as escravas, mas não eram muitos.

  1. Para a Pérsia foram poucas, e lá geralmente eram compradas por comerciantes e artistas, onde, por certo, tiveram oportunidade para ins- truir-se. Além disto, vigora lá uma lei pela qual os escravos conseguem sua liberdade, após dez anos de boa conduta. Essas, portanto, não po- dem falar de desgraça. Como já disse, talvez no Egito não passem tão bem; todavia, sua vida no lar em nada era melhor, pois sua miséria era tão cruenta, que se alimentavam de raízes e, por falta de roupas, anda- vam completamente nuas.

  2. Desses nômades, chamados zíngaros na região do Pontus, eu e

meu sócio compramos a maior parte de escravos. São verdadeiras hor- das sem pouso; habitam em cavernas e árvores, e pergunto-te se já não é caridade aliviá-los do peso de sua prole, dando-lhes em troca alimento e roupas?!

  1. Considerando o fato de eu ter livrado grande número de pessoas da escravidão e da miséria para lhes facultar vida ordenada, facilmen- te se concluirá que a desdita por ti mencionada não foi tão grande. Ainda assim, não teria agido dessa maneira se tivesse tido a compreen- são de hoje.

  2. De mais a mais, digo-te confidencialmente — não te querendo ofender em tua sabedoria elevada — ser bem estranho que Deus deixe tanta gente desprovida de qualquer socorro! E não seria de admirar se o expectador de tais situações duvidasse da Existência Divina. Meus princípios anteriores a respeito da proteção de propriedade não seriam, pois, de todo infundados!

  3. Externei-te minha justificativa contra tua severa reprimenda. Faze o que te aprouver; mas não te esqueças que Zorel não teme tua sabedoria. Deves concordar existirem situações chocantes na Terra; por que uma pessoa desfruta de todos os benefícios e milhares vivem na maior penúria?!”

  1. OSATOSDEDEFLORAÇÃOPRATICADOSPOR ZOREL

  1. Diz João: “Se pretendes medir a Sabedoria Divina pela do in- telecto um tanto desperto, tens razão em não temê-La! Sendo Ela, to- davia, medida pela Eternidade, teus argumentos são nulos! Deixemos, pois, esta controvérsia!

  2. Confirmaste — como testemunha visual — a situação deplorá- vel dos povos ciganos na Ásia Menor, alegando teres praticado caridade comprando-lhes a prole abundante, e digo que uma décima parte te compete neste ato humanitário. Descubro, no fundo da tua consciên- cia, algo que anula aquela caridade, de sorte que te responsabilizo pelas crueldades e duvido teu raciocínio poder justificar-te.

  3. De que maneira pretendes desculpar a violação, tão seguida- mente praticada?! Não acharás um motivo razoável, não contra a Lei mosaica, mas contra a de Roma que pune este crime com severidade?! Acaso te teriam impressionado os lancinantes gritos daquelas meninas? E não foste causador da morte horrenda de cinco moças? Teu sócio

ainda te apontou o prejuízo ocasionado, porquanto teriam dado o lucro de quinhentas libras, em Cairo, em virtude da sua beleza incomum. Amaldiçoaste, por tal motivo, tua sensualidade bestial; nunca, porém, por te teres tornado um assassino!

  1. Junta tudo isto, e dize-me que impressão tens de ti mesmo e se a capacidade de teu raciocínio consegue achar uma desculpa para teus crimes! Não podes querer afirmar que, como ignorante, não sabias dife- rençar entre o Bem e o mal; porque demonstraste há pouco a situação calamitosa em que vivem os povos nômades, e até me desafiaste para te explicar o motivo por que Deus deixa que isto aconteça! Possuis, portan- to, um sentimento de justiça e a noção do Bem e do mal. Como te foi possível proceder de modo tão desumano com aquelas moças? Procuras- te, em seguida, tratá-las com teus rudes conhecimentos, prejudicando-

-as ainda mais. Fala, pois, e justifica-te diante de Deus e dos homens!”

  1. REVOLTADECIRENIUSPELOSCRIMESDE ZOREL

  1. Completamente aniquilado pelo sermão do apóstolo, Zorel não sabe como se defender. Por mais que procure justificar-se, não encontra saída em seu labirinto cerebral. Eis que João o aconselha a fazer uso de sua verbosidade; o outro, nem sequer abre a boca.

  2. Nisto, Cirenius, também revoltado, diz: “Senhor, que fazer? Nessas circunstâncias, o homem cairá nas malhas da justiça! Nossas leis permitem a compra de escravos com sua prole. Nunca, porém, foi permitido vender — mormente as meninas — antes de alcançarem os catorze anos. Isto é crime!

  3. Além disto, deve todo negociante estar munido de permissão do Estado, pagando caução vultosa e imposto considerável. Zorel e seu só- cio nada disto fizeram, o que positiva outro crime contra leis vigentes, que rezam pena de dez anos de prisão.

  4. Acrescem, ainda, cinco violações que provocaram a morte das vítimas! Outro crime que em circunstâncias tão graves acarreta pena de reclusão, no mínimo, de quinze anos, ou mesmo a morte, precedendo todos esses atos a mentira, fraude e roubo diversos!

  1. Senhor, conheces meus deveres de Estado e o juramento sobre tudo que me é sagrado. Que devo fazer? No caso de Mathael e seus colegas, a completa possessão me protegia contra meus deveres. Este, porém, é um perverso perfeito e confesso! Não serei obrigado a fazer uso de minhas prerrogativas?”

  2. Digo Eu: “Compreende que, sendo Eu aqui, casualmente, o Se- nhor e tu estares preso a Mim por juramento, do qual te posso livrar quando Me aprouver, sou Eu que determino o que deve acontecer para a cura duma alma enferma. Além disto, fizeste um juramento aos deu- ses, que não existem em parte alguma, de sorte que não te pode pesar na consciência. Só tem valor o juramento a Mim prestado como prova de fidelidade; assim não sendo, és livre de qualquer compromisso.

  3. Afirmo-te não termos chegado ao final do exame deste homem; surgirá ainda algo que te deixará mais sensibilizado! É uma criatura bem esquisita, que já devias conhecer pelo que revelou de modo geral em seu primeiro estado de êxtase, quando arrependido. A atual revelação de seus atos tem de ser mais minuciosa; não deves escandalizar-te por isto, pois o permito, a fim de vos desvendar uma alma totalmente enferma e apontar o remédio que a cure. Expliquei-te, anteriormente, que seria absurdo aplicar relho e prisão à pessoa fisicamente enferma, por ter chegado a tal ponto. Quanto mais desastrado não seria aplicar-se pu- nição mortal, em virtude da completa enfermidade da alma! Dize-Me, Meu amigo Cirenius, já esqueceste o Meu Ensinamento, em virtude de teu zelo?”

  4. Responde Cirenius: “Isto não, Senhor e Mestre da Eternidade;

apenas sou levado à reação quando deparo com um criminoso empe- dernido! Vês, contudo, reconhecer rapidamente o meu erro! Já anseio pelo exame de João, cujo saber e perspicácia lhe facilitam tal tarefa. O mais interessante é que Zorel nada percebe do milagre de João saber de seus pecados mortais, praticados por toda parte, como se os tivesse presenciado!”

  1. Digo Eu: “Presta atenção, pois João o arguirá de novo.” Cirenius se cala. Eu ordeno às mulheres e moças que se retirem para as tendas, porquanto o assunto só deve ser ouvido pelos homens.

  1. JUSTIFICATIVASDE ZOREL

  1. A curiosidade de todas é imensa; todavia, obedecem, dirigin- do-se às tendas de Ouran onde deveriam ficar até serem chamadas. Em seguida, prossegue João: “Então Zorel, onde estão teus argumentos astuciosos, com os quais tencionavas entrar em luta com a Sabedoria Divina? Fala, se ainda te restam palavras!”

  2. Responde, finalmente, Zorel: “Que mais poderia dizer, pois sa- bes de tudo que fiz em vida! Agi conforme minha índole, assim como o leão e o tigre estraçalham tudo, por serem bestas selvagens! Nesse caso, cabe a culpa àquele que os criou!

  3. Se existem milhares de criaturas mansas como cordeiros, por que não sou igual a elas? Acaso sou meu próprio criador?! Se a maldade fosse ditada pela minha vontade, poderia contestar a tua sábia asserção, pois os depoimentos de pessoas isoladas, não valem como julgamento final, antes de serem comprovados. Todavia, reconheço teu profundo saber, e sei que visas apenas o meu Bem.

  4. Além disto, tens o direito de relatar, de viva voz o que pratiquei, levado por minhas inclinações. Só vos cabe matar-me, — e eu não temo a morte. Se ainda tens conhecimento de outras ações escabrosas por mim praticadas, não te acabrunhes por externá-las, pois, de há muito, perdi a vergonha!

  5. Além do mais, exageraste no caso das cinco moças, culpando-me de sua morte em virtude da violação, que, aliás, foi apenas sedução. Para tanto contribuiu a recaída de moléstia contagiosa e ter eu apenas lamentado o prejuízo monetário! Posso-te apresentar várias testemu- nhas que ouviram os meus rogos a Zeus, para conservá-las com saúde, pois tencionava adotá-las. Como todo recurso aplicado, durante trinta dias, não surtisse efeito, fiquei inconsolável e jurei não mais tocar numa virgem e abster-me do tráfico de escravas. Assim fiz até a data presente; comprei a pequena propriedade nesta zona que, entretanto, foi devora- da pelo fogo. Agora, fala tu, se pronunciei uma inverdade.”

  1. ZOREL,O MATRICIDA

  1. Diz João: “No início, eras tal qual eu te falei; mas a respeito das moças que pretendes ter apenas seduzido, proferiste u’a mentira! So- mente a última foi tratada menos brutalmente, porquanto tuas forças se estavam esgotando! Podes negar isto?! Calas-te de pavor! A moléstia contagiosa, precipitadora de suas mortes, foi por ti transmitida! Este capítulo está encerrado; passemos a outro!

  2. Aquilo que ainda pesa na tua consciência, não se prende à tua vontade; todavia, existe o ato e seu efeito! Por isso, o homem nunca deve agir levado pela raiva, porquanto suas consequências seguem as ações, como a sombra acompanha a criatura. Lembras-te, que mor- mente tua mãe — pessoa compreensiva — te advertia de tuas atitudes e amizades perversas, e qual tua reação?”

  3. Diz Zorel: “Ó deuses! Tenho uma fraca lembrança, sem contudo poder precisar o fato! Sei que jamais cometi um crime premeditada- mente; se me deixei arrastar pela ira, tenho disto tanta culpa quanto um tigre por ser um animal selvagem!”

  4. Diz João: “Isto discutiremos mais tarde; naquela ocasião pegaste duma pedra arremessando-a contra tua genitora e atingiste-a na cabeça. Desacordada, ela tombou! Tu, porém, ao invés de socorrê-la, apanhaste as mencionadas libras de ouro e fugiste para cá, num navio de piratas, tornando-te corsário por vários anos, época na qual começaste o tráfico de escravas. Pouco tempo depois, tua mãe faleceu em virtude do feri- mento e desgostosa por tua causa. Desse modo, ainda te pesa na cons- ciência o matricídio praticado, e coroando todos esses crimes, acompa- nha-te tremenda maldição de teu pai e demais irmãos! Acabo, assim, de te revelar por completo; que me dizes como homem inteligente?”

  5. Conclui Zorel: “Que poderia alegar? Não posso desfazer o que

fiz, e a tardia compreensão do meu passado criminoso de nada adianta! O arrependimento e a melhor boa vontade em querer reparar um dano seriam tão ridículos como pretender-se fazer voltar o dia que passou! Bem, posso de ora em diante me tornar um homem diferente e de boas intenções; meu passado, não me é possível remover!”

  1. ZORELJUSTIFICASUAS TENDÊNCIAS

  1. (Zorel): “Nasci com gênio irascível! Ao invés de ser ameniza- do por uma educação meiga e razoável, tratando do desenvolvimento intelectual, fui cumulado de toda sorte de castigos. Meus pais foram meus piores algozes, conseguindo fazer de mim um tigre. Não tive culpa disto, porquanto não pude escolher meus genitores antes de ser concebido e, uma vez nascido, não podia discutir a respeito da mi- nha educação.

  2. Considero teu conhecimento geral, e não duvido que possas justificar-me diante de perspectivas tais. Entre os judeus aparecem, de quando em quando, pessoas obsedadas, como tive oportunidade de ve- rificar há bem pouco em Gadara. Aquele homem era um verdadeiro demônio e o pavor da redondeza. Se fosse possível livrá-lo de seu algoz, qual seria o juiz capaz de condená-lo, em virtude de seus crimes ante- riormente praticados, instigando-lhe arrependimento e penitência?!

  3. Suponhamos que uma pedra enorme se desprenda do morro, matando casualmente vinte pessoas. Quem seria culpado desta calami- dade? Com toda a tua inteligência, não podes querer atribuir a culpa à rocha que se despencou do alto. Assim sendo, tenta julgar-me dentro da lógica e não com o capricho da tua inteligência. Sê homem, como eu!”

  1. CIRENIUSSEADMIRADAASTÚCIADE ZOREL

  1. Refletindo sobre as palavras de Zorel, João as considera bem fundadas e se dirige no íntimo a Mim, para saber como prosseguir nessa controvérsia, cujas rédeas lhe escapam. Respondo, pois, a João: “Dá-lhe algum tempo; em seguida te inspirarei o que dizer.”

  2. Cirenius, que havia acompanhado a justificação de Zorel, diz: “Senhor, confesso ter este homem um caráter todo peculiar, e tenho impressão que teu sábio apóstolo foi levado a meditar. Eu, por exemplo, nada mais saberia alegar e teria de absolvê-lo como juiz. Não compreen- do onde foi buscar tal astúcia, pois não possui educação alguma. Como é isto possível?”

  1. Respondo: “Não é de todo inculto, pois os gregos são os melho- res advogados de Roma. Conhecedores da severidade das leis romanas, estudam-nas a fundo, a fim de que possam estar aparelhados, quando chamados à responsabilidade em virtude de qualquer infração. Pessoas intencionadas em ludibriar o Estado se integram de seus direitos e da filosofia de sábios diversos. E Zorel pertence a tal classe.

  2. Antes do sono sonambúlico, não teria se pronunciado com tanta astúcia; em sua alma ainda perdura certa vibração de seu espírito, levan- do-a a críticas tão acerbas. Quando se integrar novamente na sua esfera anterior, será menos provocante. A atual arguição fá-lo mais astucioso, o que permito, especialmente, em benefício de Meus discípulos, que podem assim saborear uma boa dose de astúcia humana. Não obstan- te serem criaturas muito humildes e de corações compreensivos, são, de vez em quando, acometidas de presunção; a experiência com Zorel é-lhes um bom ensinamento.

  3. João já me confessou intimamente o fracasso de seu saber, e

os outros meditam sobre tal possibilidade. Deixo que continuem em tais conjeturas, para que cheguem a mais profundas conclusões so- bre si mesmos. Mais tarde, estimular-lhes-ei. Zorel ainda lhes dará o que pensar. Agora irei novamente inspirar a João; prestai-lhe a aten- ção devida.”

  1. JOÃO,BOM CONSELHEIRO

  1. Após breve intervalo, João se dirige a Zorel: “No fundo, não posso contestar teus argumentos; apenas não se aplicam à tua vida, por- quanto tua alma já possui noções de justiça e capacidade de julgamen- to. Pecaste contra teu conhecimento e consciência; obterás o perdão, unicamente, pelo arrependimento e a penitência, tornando-te, então, agradável a Deus.

  2. Para te tornares homem de Bem, deves reconhecer teres sido o único responsável pelos atos criminosos; assim sendo, confessarás, também, não ser justo culpar a outrem, pois agiste, consciente e con- trariamente, às tuas convicções.

  1. Se tivesses agido dentro da superstição, como base de tua vida, não serias julgado pelos teus atos, — mesmo sendo os mais perversos possíveis — cabendo-te a mesma absolvição dada à rocha e ao tigre, tomados como exemplo para justificar tua atitude.

  2. Neste caso, seria preciso ensinar-te a verdade, guiando-te neste caminho. E se alguém assim instruído, recaísse em seus antigos erros, pecaria contra sua própria convicção, atirando sua consciência numa inquietação tremenda. Portanto, servem tuas comparações somente para aqueles que jamais reconheceram algo como verdade. A voz de teu íntimo sempre te condenou; tu, porém, procuraste abafá-la com falsas razões. Também eras levado ao remorso, mas não conseguiste o arrependimento nem penitenciar-te.

  3. Por isso, Deus permitiu que caísses em grande miséria. Perdeste

tudo, e teu sócio te abandonou e se acha na Europa, onde goza a vida que os grandes lucros lhe proporcionam. Agora, encontras-te aqui à procura de auxílio, que receberás tão logo procures agir dentro do Bem e da Verdade. E tal auxílio será, então, eterno.

  1. Persistindo naquilo que consideras — tanto quanto eu — falso e perverso, serás miserável em vida e o que te espera no Além-túmulo, teu próprio raciocínio te esclarecerá, se consideras ser a vida terrena a semente, e a outra, o fruto eterno!

  2. Se plantares uma semente nobre e boa no jardim de tua vida, colherás os frutos de acordo; lançando cardos e abrolhos no solo, terás o resultado correspondente. Por certo não ignoras que cardos e abrolhos não produzem figos e uvas! Demonstrei-te o que deves fazer no futuro e minhas palavras não constituem crítica. Considera-as, portanto, que te garanto como amigo, não teres motivo para arrependimentos!”

  1. ADUPLAVONTADEDO HOMEM

  1. Responde Zorel: “Teu conselho muito me agradou, e me esfor- çarei por fazer o que me explanares como homem de bons sentimentos. Caro amigo, agora me conheço a fundo: meu íntimo não me parece dos piores; minha carne, porém, acha-se pervertida por completo. Se

fosse possível despir-me de todas as más tendências da alma e encobrir o germe vital com algo melhor, eu seria um homem de Bem; mas com minha atual constituição física, nada se pode fazer. Não sou mais a cria- tura maldosa de antanho; jamais, porém, posso confiar na minha carne. É deveras estranho, nunca ter sido levado pela vontade nas piores situa- ções. Fui como que atraído por acaso e sempre acontecia o contrário de minha vontade. Podes explicar-me tal fenômeno?”

  1. Diz João: “O homem possui duas espécies de vontade: uma, na qual o conhecimento da verdade pouca influência tem; outra, em que o mundo dos sentidos, com suas exigências atraentes, exerce grande poder, através de variados hábitos. Se o mundo exterior te apresenta um bom bocado, com a possibilidade dele te apossares, a inclinação começa a influenciar no potencial da vontade do coração; se o conhecimento da verdade tenta intervir, pouco êxito terá, porquanto a atração mais forte sempre sairá vencedora.

  2. A todos os momentos deve manifestar-se com firmeza a vontade

de querer vencer, sem temer o que quer que seja. Deve desprezar com indiferença estoica todas as vantagens do mundo e seguir o caminho iluminado da verdade, mesmo à custa da própria vida. Com isto, a vontade fraca do conhecimento torna-se forte e poderosa, dominan- do a tendência para o gozo. Assim fortificada, finalmente, ela se inte- gra por completo na Luz da vontade espiritual e a criatura alcança sua unificação, importância imprescindível para a perfeição da individua- lidade eterna.

  1. Se não consegues equilibrar pensamentos e sentimentos, como podes afirmar teres encontrado a verdade em sua profundeza?! Aparen- tas neste caso u’a mentira que, perto da verdade, pode ser comparada à noite em relação ao dia. Em tal treva não se vislumbra a luz, isto é: o homem vivendo na mentira, não pode discernir a verdade; eis por que a rédea da vontade do conhecimento é tão fraca nas pessoas mundanas, a ponto de ser vencida pela mais leve atração dos sentidos.

  2. A influência dos sentidos, conseguindo vencer a vontade do conhecimento, ocasiona uma concentração nas trevas da alma, e tal criatura é espiritualmente morta e condenada por si própria, não mais

podendo achegar-se à Luz, a não ser pelo fogo com que incendeia a matéria grosseira, causa de suas paixões. Todavia os elementos psíqui- cos são mais renitentes que os do corpo, fazendo-se necessário um fogo poderoso para destruí-los.

  1. No entanto, a alma não se submete à tal purificação dolorosa, por amor à verdade ou à Luz, e trata delas fugir, levada pela tendência de gozo e domínio; quem, pois, neste mundo se positivou na ignorân- cia espiritual, está eternamente perdido!

  2. Somente aquele que venceu, pela vontade luminosa, as suas ten- dências e paixões, concentrando em si Luz e Verdade, tornou-se pura manifestação da vida espiritual. Para tal fim é preciso — conforme já te falei — renúncia verdadeiramente estoica; não aquela, orgulhosa, de Diógenes, que se julgava superior ao Rei Alexandre em seus trajes dourados, mas a renúncia humilde de Henoch, Abraham, Isaac e Jacob. Se o conseguires, terás ajuda temporária e eterna. Não o podendo pela força do conhecimento da Verdade, estarás perdido material e espiritu- almente. Creio, porém, seres capaz de tanto, pois não te faltam compre- ensão e conhecimento.”

  1. ANATUREZADEDEUSESUA ENCARNAÇÃO

  1. Diz Zorel: “Já que o afirmas, minha vontade é patente! Se, ao menos, pudesse ficar por algumas semanas em tua companhia, para me ajudares!”

  2. Diz João: “Se tomaste a firme resolução de regenerar-te, perma- necerás entre homens tão equilibrados quanto nós, no convívio direto com a Luz do Grande Deus Vivo!”

  3. Diz Zorel: “Quem vem a ser vosso deus?”

  4. Responde João: “Esta resposta te será dada quando te unires a teu espírito; agora não adiantaria dar-te explicação, porquanto não a entenderias. Para que tenhas uma ideia, adianto-te apenas o seguinte: Deus Único e Verdadeiro é, em Si, o Espírito Puro e Eterno, munido do máximo grau de Consciência Própria, da Sabedoria mais profunda e luminosa e da Vontade Positiva que tudo cria.

  1. Deus é o Verbo em Si e o Próprio Verbo é Deus. O Verbo Eterno tomou carne, veio ao mundo para junto dos Seus, que não reconhecem a Luz que veio às trevas. Por este motivo, a Luz será tirada dos filhos de Deus e entregue aos pagãos. Estes estão à procura da Verdade, enquanto os filhos da Luz dela fogem, como os criminosos se esquivam do julga- mento. Tal é a razão por que lhes será tirada e transmitida aos gentios, conforme ora acontece.

  2. Em Jerusalém, habitam os filhos da Luz Original, desprezam a Verdade provinda de Deus, entregando-se mais e mais às trevas, à mentira e a suas obras perversas. Os pagãos, porém, peregrinam pelo mundo afora à procura da Verdade, alegrando-se sobremaneira quando a encontram, e prezam no coração o Doador da Luz, pelas boas ações.

  3. Observa esta considerável multidão: na maioria é pagã, que à busca da Verdade aqui a encontrou; enquanto que Jerusalém, a Cida- de do Senhor, enviou carrascos para abafarem a Luz! Tais mensageiros eram, todavia, mais esclarecidos que seus superiores: aproximaram-se da Luz e, com alegria, permaneceram com Ela. Se bem que A prende- ram, não o fizeram para os cárceres de Jerusalém, mas para si próprios, para seus corações, tornando-se nossos irmãos na Luz de Deus, regozi- jando-se com Aquele que a emanou.

  4. Vieste aqui como pagão, não para encontrares luz para a noite

de tua vida, e sim, ouro e prata. Mas quem sai da prisão à luz do Sol, não pode impedir que seja iluminado. O mesmo se deu contigo: foste inspirado pela luz do Sol espiritual, que iluminou o Infinito com toda a Sabedoria, para que os seres inteligentes de todos os mundos, possam pensar e querer de acordo com tal Luz.

  1. Deixa, portanto, que Ela te inspire cérebro e coração, pois a me- nor fagulha te fará mais feliz que a posse de todos os tesouros da Terra. Procura o Reino da Verdade, que todo o resto te será dado por acrésci- mo e nada mais te faltará!”

  1. CIRENIUSCUIDADE ZOREL

  1. Concorda Zorel: “Amigo, tens razão; os atos praticados na igno- rância não frutificam. Através de tuas palavras misteriosas que me elu- cidaram bastante, percebi que vivo numa noite de trevas. Se te for pos- sível interceder junto de Cirenius, pede-lhe que me arranje um manto velho, pois nestes trapos não me atrevo a ficar convosco.”

  2. Cirenius chama um lacaio e lhe ordena trazer de sua bagagem, camisa, toga e manto. Em seguida, diz a Zorel que faça uso das rou- pas para apresentar-se-lhe mais tarde. Em poucos instantes volta Zorel, bem arrumado, e diz a Cirenius: “Deus Verdadeiro e Eterno te recom- pense; pois vestiste um desnudo, obra de caridade que não mereço. Já que somos todos Seus filhos, apenas te posso agradecer, pedindo que me aceites como servo, e meu terreno, como presente.”

  3. Responde Cirenius: “O campo não te pertence e sim àquele de quem tiraste o dinheiro; por isso, vendê-lo-emos, e só depois de resti- tuída a importância ao dono ou a seus filhos, poderás te tornar meu empregado.”

  4. Diz Zorel: “Nobre senhor, farei o que quiseres, somente não me abandones. Assim como me despi de meus trapos, despir-me-ei de meu velho ‘ego’ para tornar-me outro. Desejo remir meus crimes nos dias que me restam!

  5. Se tivesse encontrado quem me elucidasse, conforme fez João, nunca teria caído em vícios tão abjetos; assim tive que me guiar pelo próprio raciocínio e não necessito repetir meus erros. Sê, portanto, mi- sericordioso e dá-me oportunidade para trabalhar. Sei ler e escrever e conheço a História dos povos, até a data presente. Além disto, decorei todo Heródoto e as Crônicas dos judeus, persas e babilônios.”

  6. Conclui Cirenius: “Sobre isto falaremos mais tarde; por enquan- to volta para junto de João e deixa que ele te oriente.”

  1. OSEGREDODAVIDA ESPIRITUAL

  1. João o recebe com carinho e pergunta como se dera na compa- nhia de Cirenius; e Zorel responde: “Isto poderás deduzir de minha vestimenta! Sinto-me otimamente bem com estas três peças presen- teadas por Cirenius. Meu estado íntimo, porém, não corresponde ao externo e ficaria eternamente grato a Deus se me pudesse transformar. Dize-me o seguinte: quem vos elucidou, pois sois humanos como eu, entretanto me destes provas duma força espiritual, que ultrapassa tudo que até hoje vi.”

  2. Responde João: “Minha explicação pouco proveito te traria; se

fizeres o que te disser, encontrarás o ensinamento dentro de ti mesmo e teu espírito despertado, fortificado por Deus, guiar-te-á para o ca- minho da Verdade e Sabedoria. Se pretendes aprender uma arte, tens de procurar um artista para que te mostre a maneira pela qual executa seus trabalhos. Em seguida, tens de te exercitar, até que te assemelhes a teu mestre.

  1. Se queres aprender a pensar, deves procurar um filósofo, que te demonstrará causas e efeitos, levando-te, por exemplo, às seguintes conclusões: a água sendo líquida, facilmente pode ser movimentada e de acordo com seu peso tende a correr para as profundezas; a experi- ência nos ensina existir um ponto de atração na Terra, para onde tudo converge pela Vontade Imutável do Criador, Vontade esta que exerce seu Poder em toda a Natureza.

  2. Mesmo alcançando a profundeza do mar, a água continua ma- leável, embora cesse sua movimentação. Se uma forte ventania soprar por sobre a superfície, fazendo com que se levantem as ondas, esta mo- vimentação da água nada mais é que sua tendência para calma, que facilmente pode ser posta fora de seu equilíbrio.

  3. Dedução: quanto mais líquido um corpo, tanto maior o seu empenho para a calma. Quanto mais manifesta tal tendência, tanto mais fácil agitá-la. Por este exemplo deduzirás como se aprende a pen- sar numa escola de Filosofia, e quais as deduções alcançadas dentro de causa e efeito.

  1. Tais pensamentos giram em torno dum círculo sem saída e pou- co ou mesmo nada adiantam ao homem no que diz respeito à sua vida espiritual. Se, portanto, só te é possível aprender a arte com um artista, o pensar racional com um filósofo, só poderás aprender a pensar es- piritualmente com um espírito, isto é: de tua própria centelha divina. Unicamente o espírito pode despertar o espírito, pois ele reconhece seu semelhante assim como um olho vê e observa outro.

  2. O espírito é a visão da alma cuja luz tudo penetra, por ser uma luz íntima e puríssima. Vês, portanto, como se processa o ensino dos mais variados assuntos e ser preciso um professor apropriado, caso não se queira permanecer um eterno diletante. A pessoa que tenha achado tal mestre, tudo deve empenhar para cumprir os ensinamentos recebidos.

  3. Quando teu espírito despertar, ouvirás sua voz como pensa- mentos luminosos no coração. Deves considerá-los e organizar tua vida dentro de tais princípios, e criarás, para o teu espírito, um âmbito de ação sempre maior; assim ele crescerá dentro de ti, até alcançar a figura humana, penetrando tua alma e teu corpo.

  4. Uma vez que tenhas chegado a este ponto, serás capacitado como nós, não somente a ver e reconhecer o que é comum às criaturas, mas também coisas que lhes sejam insondáveis, conforme observaste comi- go; pois, sem nunca te ter visto, pude relatar todos os teus segredos.

  5. Acabo de dar-te uma pequena prova da realidade das coisas espirituais. Contudo, de nada te adianta; preciso é saber o necessário para despertar o teu espírito. Isto, porém, não é de minha alçada, e sim de Um Outro entre nós, cujo Ser é pleno do Espírito Divino. Ele te indicará o Caminho da Verdade, transmitindo, pelo teu ouvido físico, a teu espírito, como o Próprio Espírito de todos os espíritos: Desperta no amor para com Deus e para com teus irmãos, em Nome Daquele que sempre foi, é e será Eterno!”

  1. ZORELDECIDEAREGENERAR- SE

  1. Diz Zorel: “Acho teu ensinamento muito elevado e puro, pois se não o fosse, não poderias ter relatado meus atos mais secretos. Estou convicto da possibilidade do aperfeiçoamento humano, que não almejo somente para, em ocasião oportuna, apontar os crimes a um pobre diabo, mas para o progresso espiritual em si e para a minha própria consolação. Não pretendo ser doutrinador e juiz clemente; quero servir como homem perfeito, a fim de não prejudicar alguém em virtude de minha ignorância.

  2. Eis o motivo único pelo qual desejo alcançar a perfeição e, se para tanto fosse preciso, sacrificaria minha própria vida. Que valor teria uma existência cheia de imperfeições?! Afirmaste, contudo, ser preciso que outra pessoa me oriente; quem é, pois, para que lhe possa pedir os meios pelos quais despertarei meu espírito?”

  3. Diz João: “É justamente Aquele que mandou que falas- ses comigo.”

  4. Acrescenta Zorel: “Um pressentimento que se manifestou quan- do despertei de meu sonho me disse, ser este filho do carpinteiro de Nazareth, algo mais que um homem comum. Estranho é ter eu a im- pressão de conhecê-lo. Não sabes me dizer quando e de que forma ele alcançou a perfeição?”

  5. Responde João: “Posso apenas dizer que te perdoo tal pergunta, pois seria o mesmo que indagasses a maneira pela qual Deus chegou à Sua Infinita Sabedoria e Onipotência. Deus O escolheu para Sua Pró- pria Morada! Eis a Grande Graça que sucede aos povos por este Eleito! A Forma Humana é o Filho de Deus; Nele, habita a Plenitude do Es- pírito Divino!

  6. Assim sendo, impossível perguntar de que modo Ele alcançou Perfeição tão Infinita! Isto que ora é e sempre será, Ele já foi no ventre materno. Seguiu todas as instituições humanas, com exceção do peca- do; todavia, isto não contribuiu para a Sua Perfeição, porquanto já era Perfeito desde Eternidades. Todas as Suas Ações visam apenas facultar aos homens, um exemplo perfeito para que Lhe possam seguir como Causa e Mestre Originais de todo Ser e Vida.

  1. Sabes, portanto, com Quem estás lidando. Achega-te Dele para que te demonstre o Caminho justo que te leva a teu espírito, o puro amor a Deus dentro de ti; através de teu espírito, serás conduzido para junto Dele, ora entre nós, como a Salvação verdadeira dos homens que já viveram, ora vivem e ainda viverão neste planeta.

  2. Se a Ele te dirigires, faze-o pelo amor em teu coração, e não pelo intelecto frio. Somente pelo amor, O conquistarás e O compreenderás em Sua Divindade, por ser ele capaz dum eterno crescendo. Teu racio- cínio jamais terá êxito, de acordo com os limites que lhe são impostos. Quanto mais poderoso se tornar o amor dentro de ti, tanto mais luz se fará em teu ser. Este sentimento puro a Deus é fogo vivo e luz claríssi- ma! Quem caminhar nessa claridade, jamais verá a morte! Agora já estás ciente; desperta teu coração e vai para junto Dele!”

  3. Com essas palavras, Zorel nem sabe que pensar e fazer de tama-

nha veneração, pois não duvida Eu abrigar a Divindade em Seu Todo, o que o deixa cada vez mais desanimado. Após certo tempo de reflexão diz: “Amigo, quanto mais medito sobre tuas palavras, tanto maior se torna a dificuldade de me aproximar Dele e Lhe pedir que me demons- tre, Pessoalmente, o Caminho luminoso para a Vida! É-me, a bem di- zer, impossível, porque sinto Dele se irradiar uma Onda de Santidade que me diz: Afasta-te, indigno! Pratica primeiro longa penitência e de- pois volta para veres se podes tocar a Orla de Minha Veste!”

  1. Responde João: “Está bem assim; é preciso que o verdadeiro amor a Deus seja precedido pela humildade do coração. Assim não sendo, o amor jamais se apresenta de modo sincero. Permanece por mais alguns instantes nesta contrição justa de tua alma, e quando Ele te chamar, não hesites em apressar-te!” Zorel se acalma um pouco; reflete, porém, quão feliz seria quem se aproximasse do Pai, sem pecado.

  1. OCAMINHOPARAAVIDA ETERNA

  1. Nisto, viro-Me para Zorel, surpreendido com a Minha Atitude: “Quem, arrependido, confessa seus erros, penitenciando-se pela verda- deira humildade do coração, é-Me mais agradável que noventa e nove

justos, que nunca sentiram tal necessidade. Vem, pois, junto de Mim, amigo contrito; em ti reina o sentimento justo da humildade que apre- cio mais que os justos de todo o sempre, a exclamarem: Hosana a Deus nas Alturas, por jamais termos profanado Teu Santo Nome, por pecado conscientemente cometido! Com tal critério também julgam o pecador, dele fugindo como da peste!

  1. Assemelham-se aos médicos a venderem saúde, entretanto re- ceiam socorrer um enfermo pelo medo do contágio. Não teria mais valor aquele que, a despeito do perigo, procurasse todos, mesmo sendo, às vezes, contaminado, não se aborrecendo e, deste modo, auxiliando a si e aos outros?! Eis uma ação justa!

  2. Por isto vem cá, que te demonstrarei o que Meu discípulo não conseguiu, isto é, o verdadeiro Caminho da Vida, do Amor e da Sabe- doria, que dele derivam!”

  3. Encorajado pelas Minhas Palavras, Zorel se aproxima em passos lentos. Quando perto de Mim, digo-lhe: “Amigo, o Caminho que con- duz ao espírito é espinhoso e estreito, isto é, deverás encarar com paci- ência e humildade tudo que em vida te suceder por parte dos homens, como sendo: aborrecimento e mágoa. Assim, também, não deves pagar o mal que te fazem, mas agir de modo contrário, que juntarás brasas em suas cabeças! A quem te fere, não pagues com a mesma moeda. É preferível que recebas mais outra ofensa, para haver paz e união entre vós, pois somente na paz, progride o coração e o desenvolvimento do espírito dentro da alma.

  4. Não deves negar a quem te pedir um favor ou uma esmola, a não

ser que colida com os Mandamentos de Deus e as leis de Estado, o que por certo saberás julgar.

  1. Se alguém te pedir a túnica, também ofertarás teu manto, a fim de que reconheça seres um discípulo da Escola de Deus! Compreendendo tua atitude, não aceitará tua oferta; ele assim não fazendo, prova ser bem fraco em seu conhecimento, e não deves ficar pesaroso em virtude do manto, mas pelo irmão que ainda não percebeu a proximidade do Reino de Deus.

  2. Quem te pede companhia por uma hora, deves satisfazer pelo dobro do tempo, provando, por tal disposição, a origem da Escola que

divulga tão elevado grau de renúncia. Deste modo, até os mais ignoran- tes serão esclarecidos sobre a iminência do Reino de Deus.

  1. Pelos vossos atos, saber-se-á que sois Meus discípulos. É muito mais fácil pregar do que agir! Que benefício trará a palavra vã, se não for vivificada pela atitude?! De que te adiantam os mais deslumbrantes pensamentos e ideias, se és incapaz de executá-los? Do mesmo modo, as palavras mais belas e verdadeiras não surtem efeito, se não tens vontade de pô-las em prática. Por isso, deve o bom orador praticar o que prega, do contrário, seu sermão é inútil!”

  1. APOBREZAEOAMORAO PRÓXIMO

  1. (O Senhor): “Há no mundo quantidade enorme de perigos para a alma; a pobreza, por exemplo, cujas noções do ‘meu’ e do ‘teu’ se tor- nam mais fracas à medida que a miséria oprima a criatura. Por isso, não deixeis que ela se alastre, caso pretendais andar pelo Caminho certo!

  2. Quem for pobre, deve pedir auxílio a seus irmãos abastados; caso não seja atendido em virtude da dureza dos corações humanos, deve dirigir-se a Mim, que o socorrerei! Pobreza e miséria, porém, não justificam o roubo e muito menos o latrocínio! Quem, portanto, é po- bre sabe o que fazer.

  3. Embora seja a penúria uma grande praga para as criaturas, com- porta ela o nobre gérmen da humildade e verdadeira modéstia, perdu- rando na Terra por tal motivo; todavia, não devem os ricos deixar que se expanda em demasia, porquanto acarretaria seu próprio prejuízo, em vida e no Além.

  4. Digo-vos: não necessitais transformar os pobres em ricos; so- mente não devem passar necessidades. Ajudai a todos que conheceis, de acordo com vossas posses. Haverá no mundo um sem número de pobres, cujos clamores não ouvis; por isto, não são entregues ao vosso amor, mas apenas os que conheceis e que vos procuram.

  5. Quem entre vós se tornar amigo dos necessitados, serei dele também Amigo e Irmão por todo o sempre, não precisando ele apren- der a Sabedoria Interna com outrem, pois ser-lhe-á dada por Mim, em

seu coração. Quem amar seu próximo como a si mesmo, não o expul- sando em virtude de sua posição e idade, será por Mim procurado, pois a ele Me revelarei. Transmitirei ao seu espírito, que é o amor, a Minha Fidelidade, fator que tornará sua alma plena de Luz. Tudo que falar e escrever terá Minha Origem para todos os tempos.

  1. A alma de sentimento endurecido será atacada por elementos perversos que a aniquilarão, tornando-a idêntica à alma animal, repre- sentando-se deste modo no Além.

  2. Dai com prazer e fartura, pois, conforme distribuís, sereis re- compensados. Um coração endurecido não será inundado pela Minha Luz da Graça, nele habitando trevas e morte com seus horrores!

  3. Um coração meigo e dócil, facilmente será penetrado por Minha Luz de natureza mui suave e benéfica, possibilitando destarte, Minha Permanência com toda Plenitude de Meu Amor e Sabedoria. Acreditai em Minhas Palavras, que são Vida, Luz, Verdade e Ação plenas, cuja realidade todos sentirão pela prática.”

  1. A VOLÚPIA

  1. (O Senhor): “Analisamos a pobreza e vimos os prejuízos que dela advirão quando se manifestar em excesso. Sabemos também como socorrê-la, e os benefícios que o homem desfrutará pelo cumprimento desta observação. Passemos para outro assunto bem diverso, existindo, todavia, relação entre ambos. Tal assunto é a volúpia. É precisamente o maior mal da Humanidade, pois daí se originam quase todas as molés- tias físicas e psíquicas.

  2. De todos os pecados, o homem consegue se livrar mais facil- mente, porque se baseiam apenas em motivos externos, enquanto a volúpia tem a causa na própria carne pecaminosa. Por isto, deveis afastar os olhos dos perigos tentadores da carne, até que a consi- gais dominar.

  3. Protegei vossos filhos da primeira queda nesta tentação e con- servai-lhes a castidade, que facilmente dominarão os instintos quando adultos; mas uma vez se desviando, o espírito mau da carne deles se

apossará! Não existe demônio cuja expulsão seja tão difícil quanto ao da volúpia, e somente pode ser conseguida pelo jejum e a prece.

  1. Evitai, por tal motivo, aborrecer aos pequeninos, excitá-los por excessivos adornos e vestimentas sedutoras, que despertariam seus ins- tintos. Ai de quem pecar de tal forma com a natureza dos adolescentes. Em verdade, ser-lhes-ia mais aconselhável se nunca tivessem nascido!

  2. O vilipendiador da santa pureza da juventude será por Mim cas- tigado com toda Potência de Minha Ira! Uma vez a carne tendo sido violada, a alma não possui mais base sólida, fator que dificultará seu aperfeiçoamento.

  3. Tarefa penosa enfrenta uma alma enfraquecida, querendo curar sua carne violentada e apagar suas cicatrizes! Que temor não sofre, quando percebe a fragilidade e vontade fraca de sua habitação terrena! Quem é culpado disto? A péssima vigilância às crianças, e os variados aborrecimentos por que passaram!

  4. A corrupção é geralmente mais pronunciada nas Cidades do que no Interior; por isto, Meus discípulos, ensinai as criaturas neste senti- do, demonstrando-lhes as variadas consequências nefastas que derivam do prematuro despertar dos instintos. Considerando vossos conselhos, muitas almas sadias surgirão, cujo espírito mais facilmente será desper- tado do que atualmente ocorre.

  5. Observai os cegos, mudos, aleijados, leprosos e entrevados; crianças e adultos acometidos pelos mais variados males físicos: tudo isto como resultado da manifestação precoce da volúpia.

  6. O homem não deve procurar contato antes dos vinte e quatro anos, e a mulher, não antes de ter alcançado, no mínimo, os dezoito; antes dessa idade o ato será violação, tornando a carne frágil e a alma cheia de paixões.

  7. Difícil é se curar um homem por tal razão enfraquecido; muito mais, porém, uma jovem nessas condições. Primeiro, por não lhe ser possível gerar filhos perfeitamente sadios; segundo, pelo desejo cada vez mais crescente pelo ato, tornando-se por fim, u’a mácula na socie- dade, não por si mesma, mas por aqueles cuja displicência a levou a este caminho.

  1. Ai daquele que se aproveita da pobreza de uma virgem, para despertar-lhe a volúpia! Em verdade, também seria preferível nunca haver nascido! E quem convive com prostituta, ao invés de desviá-la por meios adequados da trilha da perdição, terá de aguardar, no Além, julgamento rigoroso! Quem castiga pessoa sadia não peca tanto quanto aquele que fere um aleijado.

  2. Quem pratica o ato com mulher feita e sadia, também terá pe- cado; como as consequências não são de todo prejudiciais — mormente ambos gozando saúde perfeita, — o julgamento será menor. Aquele que o fizer como se ela fosse prostituída, sem gerar um filho, terá de supor- tar duplo julgamento.

  3. Repito, ser dez vezes pior tal procedimento com uma prosti- tuta, cujo físico e alma são completamente lesados. Quem socorrê-la em sua imensa miséria, de coração fiel a Mim, terá grande projeção espiritual no Meu Reino. Quem assim não agir, mas a procurar por preço vil, arrastando-a ainda mais para a infelicidade, terá no Além, o prêmio reservado ao assassino, no charco destinado a todos os demô- nios e seus servos!

  4. Ai do país ou cidade onde se pratica a prostituição, e ai da Terra, quando este mal imenso nela se alastrar! Tais países receberão, de Mim, tiranos para regentes que os agravarão de impostos elevadíssimos, para que a carne se torne faminta e desista desse ato o mais vergonhoso, até hoje aplicado pelo homem, ao seu semelhante!

  5. A prostituta, no entanto, perderá toda a honra e respeito mes- mo daqueles que dela se aproveitaram por paga miserável, e seu físico será atacado por toda sorte de moléstias contagiosas, dificilmente curá- veis. Quem, todavia, regenerar-se, será por Mim aceita!

  6. A pessoa voluptuosa que usar de meios para o gozo, diversos dos que determinei no sexo oposto, dificilmente verá o Meu Semblan- te! Moysés determinou o apedrejamento para tais casos, que Eu não revogo, por ser u’a medida drástica para criminosos completamente de- pravados pelo demônio; dou-vos apenas o conselho paternal de afastar estes pecadores das comunidades, entregando-os à miséria no desterro. Somente, quando voltarem às fronteiras da pátria, em completa penú-

ria, devem ser conduzidos a um Instituto de Psiquiatria onde deverão permanecer, até sua integral regeneração. Quando esta for comprovada, por algum tempo, poderão voltar à Comunidade. Manifestando o me- nor vestígio de inclinação pervertida, será melhor deixá-los para sempre em reclusão, porquanto poderiam contaminar os inocentes.

  1. Tu, Zorel, não foste inteiramente puro neste sentido, pois te tornaste pedra de escândalo para teus companheiros de infância. Toda- via, não se pode culpar-te desse pecado, porquanto tua educação não te proporcionou o conhecimento da Verdade, pelo qual te saberias manter dentro da Ordem Divina. Começaste a melhorar quando te integraste nos direitos sociais como cidadão romano e escrivão dum advogado. Deixaste as tendências animais, no entanto te tornaste um fraudulento de primeira categoria, enganando a teu próximo sempre que possível. Isto tudo, porém, passou, e agora te encontras diante de Mim, como criatura regenerada de acordo com teu conhecimento atual.

  2. Ainda assim, observo dentro de ti forte tendência para a vo-

lúpia. Chamo a atenção para este fato e te aconselho muita precaução. Quando melhorares de vida, tua carne, fortemente lesada, começará a se manifestar em sua recente melhoria e terás dificuldade para acalmá-la e até mesmo, curá-la definitivamente. Abstém-te de todos os excessos, pois neles reside o gérmen da volúpia. Não te deixes, portanto, tentar para a imoderação no comer e beber, do contrário terás dificuldade para dominares tua carne. Temos, assim, estudado o campo ‘volúpia’ no que te toca; passemos para outro ponto de grande importância em tua vida!”

  1. ACARIDADE JUSTA

  1. (O Senhor): “Este ponto se refere à posse. Disse Moysés: Não deves furtar!, e repetiu: Não deves cobiçar os bens de teu próximo, a não ser que estejas dentro da justiça!

  2. Podes comprar algo de teu vizinho o que te justifica usá-lo pe- rante todos; o furto, porém, é pecado diante da Ordem Divina, trans- mitida a Moysés, porque age contra o amor ao próximo. Não deves usar atitude que condenarias partindo de teu semelhante.

  1. O furto deriva, na maior parte, do amor-próprio que gera o ócio, a tendência para o conforto e a preguiça. Daí surge certo desâni- mo, coadjuvado por receio orgulhoso, que impedem a criatura de fazer um pedido importuno, mas a leva ao furto. Dele, portanto, se origina grande número de defeitos, entre os quais o excessivo amor-próprio é o motivo mais evidente. Pelo justo amor ao próximo, sempre se consegue combater esta fraqueza da alma.

  2. Naturalmente antepões o seguinte: Fácil seria aplicar-se o amor ao próximo, quando se possui os meios necessários. Entre cem, no entanto, talvez existam dez, cuja situação permita exercer tal virtude. Os noventa restantes, dependem precisamente, da ca- ridade alheia. Se apenas o amor ao próximo facilita os meios para vencer o vício do furto, os noventa necessitados dele se poderão abs- ter com dificuldade, pois lhes faltam as condições para a aplicação dessa virtude!

  3. Dentro da lógica mundana, tuas conjeturas são justificáveis

e ninguém te poderá contestar. A lógica do coração, porém, fala da seguinte maneira: As obras do amor ao próximo não se resumem na esmola e sim nas variadas ações e favores sinceros, que naturalmente sempre exigem boa vontade.

  1. A boa vontade é a alma e a vida duma obra do Bem. Sem ela, a maior caridade deixaria de ter mérito diante de Deus. Se careces dos meios necessários, mas tens vontade sincera de ajudar teu próximo, de qualquer maneira, teu coração se entristeceria diante desta impossibili- dade. Teu bom propósito vale muito mais para Deus do que a doação dum rico, forçado a fazê-la.

  2. Se ele auxilia um povoado porquanto este lhe promete o paga- mento do dízimo, tão logo lhe seja possível, sua obra de Bem de nada vale, pois já recebeu seu galardão. Sua atitude bem poderia ser imitada por um usurário, em virtude da vantagem monetária.

  3. Daí concluirás ser possível a todos — ricos e pobres — exerce- rem o amor ao próximo diante de Deus, e em benefício de sua própria vida espiritual; depende unicamente da boa vontade sincera, onde to- dos agem com dedicação no que lhes é possível.

  1. Naturalmente, a boa vontade apenas, não teria utilidade mes- mo a quem possuir meios suficientes, caso respeite certas considerações pessoais, ou dos filhos, parentes, etc. Será levado a agir com reservas, por não ser possível saber quando o pedinte é malandro, desmerecendo o auxílio rogado. Nesse caso, favorecer-se-ia ao larápio, privando um justo do recurso devido! Essas reflexões surgem de cada vez que se é abordado por um pobre!

  2. Meu amigo, aquele que fizer o Bem da melhor boa vontade e refletir dessa forma, ainda não se integrou na vida justa; por isso não valem nem as boas obras, tampouco a intenção. Onde existem meios, vontade e obra devem se equilibrar, do contrário, se desfazem o valor e o mérito diante do Altíssimo.

  3. Aquilo que deres ou fizeres, deve ser feito com muita alegria, pois assim terás duplo valor diante de Deus, aproximando-te rapida- mente da perfeição espiritual.

  4. O coração do amável benfeitor se assemelha ao fruto que ama- durece cedo, por conter a plenitude do calor justo de máxima necessi- dade para tal processo, e pela predominância do elemento correspon- dente à vida, ou seja o amor.

  5. Deste modo, a alegria e amabilidade do benfeitor são a fartura tão recomendada do aquecimento espiritual da vida, pelo qual a alma amadurece mais intensivamente, para a integração plena do espírito. É justamente o calor o transporte do espírito eterno em sua alma, que assim a ele se torna sempre mais idêntica.

  6. O doador, por mais zeloso que seja, afasta-se da meta da per- feição espiritual, à medida que se apresenta cada vez mais aborrecido e carrancudo; manifestação mundana, portanto, mui distante dum ele- mento puramente celestial.

  7. Ao fazeres a caridade, também deves evitar transmitir conse- lhos rigorosos ou talvez amargos. Provocam, não raro, tristeza profunda no coração do pobre, que deseja ardentemente jamais ser preciso pedir favores. O benfeitor, por sua vez, enche-se de orgulho por tais adver- tências importunas, evidenciando perante o outro a sua superioridade, o que prova ser mais difícil receber do que dar.

  1. Quem é rico e tem boa vontade, facilmente dá esmolas, en- quanto o pobre teme importunar o benfeitor amável. Sentir-se-á muito mais constrangido, ao ser enfrentado de feições aborrecidas, devido a ponderações apresentadas, antes de receber o auxílio. Desse modo, não mais se atreverá a voltar ao seu benfeitor em caso de necessidade, pois o sermão provavelmente será mais longo e incisivo de que a sua compre- ensão suscetível; dirá mesmo: Não voltes tão cedo — ou talvez, nunca mais! —, embora o outro não tivesse tal intenção.

  2. Eis por que um doador amável e alegre, leva tanta vanta-

gem ao pregador enfadonho, porquanto consola e eleva o coração do necessitado. Além disto, tal atitude cumula o coração do pobre de sentimentos confiantes para com Deus e aos homens, tornando seu jugo pesado mais suave, e lhe facilita suportá-lo com paciência e dedicação.

  1. O benfeitor amável representa para o pobre o mesmo que um porto seguro para um navegante em alto mar. Enquanto que o rico mal humorado apenas se assemelha a uma enseada que, malgrado garanta ao capitão salvação completa, mantém-no, contudo, em pavor constan- te de tenebrosa ressaca destruidora, que lhe traria maior prejuízo do que a antecedente tempestade.

  2. Sabes, portanto, dentro da Medida de Deus, como deve ser constituída a verdadeira perfeição espiritual, realizada pelo amor ao próximo. Age deste modo que facilmente alcançarás a verdadeira e úni- ca meta da vida!”

  1. ORGULHOE HUMILDADE

  1. (O Senhor): “Agora tocaremos num ponto sumamente impor- tante na vida, único para se alcançar o pleno renascimento do espírito na alma, como triunfo verdadeiro e final da criatura. Trata-se do polo contrário ao orgulho e altivez e se chama ‘humildade.’

  2. Em cada alma perdura um sentimento de altivez e brio, que se inflama pelo menor motivo numa ira apaixonada, impossível de ser abafada até que consiga derrotar sua vítima agressora. Mais fácil seria

saciar-se a sede de um viajor no deserto da África com areia incandes- cente, do que salvar uma alma com tendência tão horrível!

  1. Pela inclinação para o mesquinho orgulho, a própria alma se transforma em solo tão candente, que impossibilita a germinação de uma plantinha de musgo, muito menos outra, abençoada. Eis a alma dum orgulhoso! Seu fogo selvagem queima e destrói tudo que seja no- bre, bom e verdadeiro como base da vida, e milhões de anos se pas- sarão, até que o Sahara se transforme em campo fértil e verdejante. Para tanto, será preciso que o grande Mar agite suas águas por sobre aquelas areias.

  2. Observa um orgulhoso soberano ofendido pelo vizinho por as-

sunto qualquer: sua alma se incendiará, seus olhos chisparão chamas de ira, e o lema será: Vingança tenebrosa ao ofensor ultrajante! A con- sequência triste será uma guerra destruidora, onde milhares terão de perecer pela honra de seu rei. Ele, porém, de sua tenda observará, com prazer imenso, o aniquilamento de seus soldados, recompensando com ouro e pedrarias o mais bravo que conseguiu aplicar o maior dano ao adversário.

  1. Insatisfeito com sua vitória, tal soberano ainda quer martirizar o ofensor. De nada lhe adiantam os rogos; quando conseguir matá-lo com martírios indizíveis, sua carne será ainda amaldiçoada e entregue aos abutres. Nunca o coração insensível de tal homem sentirá arrepen- dimento. A ira — ou o deserto incandescente da África — perdurará, semeando a morte mais horrenda àquele que se atrever a não render homenagem, até mesmo ao palanque de honra usado por ele.

  2. Bem que possui alma, mas qual o seu aspecto? Afirmo-te: pior do que a areia mais candente do deserto! Achas que se possa transfor- má-la numa horta dos Céus de Deus? Mil vezes mais fácil o Sahara produzir tâmaras, figos e uvas, do que tal psique produzir a menor gota do Amor Celeste!

  3. Por isto, precavei-vos antes de tudo do orgulho. Nada no mun- do aniquila mais a alma que a altivez constantemente irada! Uma sede perene de vingança a acompanha, tal como a ânsia insaciável pela chuva faz parte do grande deserto africano; contamina todo ser vivo, como

também os serviçais do orgulhoso que a ele se tornam idênticos. Pois quem for servo do altivo, também fica orgulhoso, do contrário não lhe poderia prestar serviços!”

  1. EDUCAÇÃOPARAA HUMILDADE

  1. (O Senhor): “De que maneira poderia alguém preservar-se desta péssima tendência, existindo em cada alma tal germe, que não raro, até em crianças já atinge considerável grau? Apenas pela Humildade!

  2. Precisamente, em certos casos, a pobreza é acentuada, para man- ter o orgulho em rédeas fortes! Experimenta coroar um mendigo, e te convencerás se terem evaporado humildade e paciência! Eis por que é muito benéfico existirem poucos reis e muitos pobres humildes!

  3. Cada alma — como Ideia e Vontade de Deus — Dele recebeu um sentimento de altivez, que nas crianças se manifesta como pudor. O pudor infantil é uma sensação psíquica pela qual a alma começa a ter noção de si mesma, descontente por se ver, muito embora de origem espiritual, envolvida por um corpo pesado e desajeitado, do qual jamais se libertará sem dor. Quanto mais delicado e sensível o físico, tanto maior seu pudor. O educador que souber conduzir este sentimento para a justa humildade, despertará na criança um anjo protetor, levando-a ao caminho, onde facilmente alcançará sua perfeição espiritual. Basta, porém, educação um pouco falha, para transformar o pudor em orgu- lho e altivez.

  4. Já consiste grande erro em se levar o sentimento de pejo ao brio

infantil, pois a criança imediatamente julgar-se-ia superior às outras. Com facilidade é ofendida, vertendo lágrimas amargas, que testemu- nham ter sido magoada em seu sentimento altivo.

  1. Se os pais, num ato de fraqueza e ignorância, procuram acalmá-

-la pelo castigo que, aparentemente, pretendem aplicar ao ofensor, te- rão lançado o primeiro germe para a satisfação vingadora. Prosseguindo nessa educação, os genitores farão, não raro, um demônio de seu filho. Se forem levando o sentimento de pejo à humildade, seu filho será um anjo que iluminará — como exemplo vivo — os outros, qual estrela

mais deslumbrante na noite de sua vida, confortando-os pela meiguice e paciência.

  1. Como raramente as crianças recebem a educação pela qual se desperta o espírito em sua alma, o adulto de conhecimento mais apu- rado tudo deve fazer para aplicar a verdadeira e justa humildade. En- quanto não se livrar da última gota do orgulho, impossível penetrar na perfeição da vida puramente celestial, aqui e no Além.

  2. Quem quiser experimentar sua perfeição na humildade, que consulte seu coração. Veja se suporta a ofensa, se pode perdoar aos seus maiores opressores e perseguidores, e fazer o Bem aos que lhe aplicaram maldades; se não é tentado pela aparência mundana, se acha agradável sentir-se o menor entre os pequenos e humildes, a fim de servir a todos! Quem tudo isto puder fazer sem tristeza e amargura, já aqui se tornou habitante dos Céus mais elevados e sê-lo-á para todo o sempre! Pois através da humildade justa, não só a alma se une ao espírito, mas a maior parte do corpo.

  3. Por este motivo, tal criatura não sentirá e provará a morte, por-

quanto a parte etérea do corpo — precisamente a totalidade vital — imortalizou-se com alma e espírito.

  1. Pela morte física se desprende apenas a parte insensível e desvi- talizada da alma, o que não lhe produz sensação de temor e sofrimento, porquanto os elementos vitais do corpo de há muito se uniram à psi- que. Deste modo, o homem renascido sente tanto o desprendimento dessa parte amorfa quanto sentia ao cortar o cabelo ou as unhas, ou a queda da caspa. Aquilo que em vida não tinha sensação, não o terá no desprendimento total da alma, pois que tais elementos físicos já a ela se uniram, formando uma entidade inseparável.

  2. Agora sabes o que seja a justa humildade e sua ação, podendo

te esforçar nesta virtude. Quem seguir Minhas Palavras se certificará que, muito embora proferidas sem empáfia e retumbância, só podiam provir de Deus, e neste Caminho alcançará a verdadeira perfeição espi- ritual. Dize-Me, se te foi possível assimilar este ensinamento.”

  1. BOMPROPÓSITODE ZOREL

  1. Diz Zorel, completamente contrito sobre a verdade elevada e pura de Meu Ensinamento: “Senhor e Mestre Eterno de toda a Vida! Reconheço, mesmo sem considerar o tratamento que me fizeste aplicar, que Tuas Palavras jamais poderiam ser pronunciadas por boca humana, e sim, pelo Criador de Céu e Terra! Tudo farei para praticar o que Teu Amor me ensinou!

  2. Fato estranho se passa, pois tenho a impressão de já ter ouvido coisa semelhante. Deve ter sido um sonho, porque não me lembro de ter em vida recebido tão imensa Graça!

  3. A pessoa que, ciente de Verdades tão profundas, ainda não en- contrasse o caminho justo de seu aperfeiçoamento espiritual e tampou- co sentisse um poderoso ímpeto para assim agir, deveria ser totalmente ignorante ou então de tal forma absorvida pelo mundo que tornou sua alma insensível.

  4. Quem tiver assimilado tal questão importante, como eu, seria tolo em preferir o mundo onde sucumbiria, ao invés de galgar os cumes luminosos de Horeb e Libanon onde colheria as ervas milagrosas, que curam a alma enferma. As ervas referem-se às obras que se encontram somente nas alturas esplendentes do conhecimento de Tuas Verdades, sendo Horeb e Libanon a Verdade e o Bem Divinos! Eis minha in- terpretação.

  5. Senhor, és sumamente Elevado e Santo; nunca, porém, és de modo tão sublime, como nas criaturas que Teu Amor e Sabedoria trans- formaram em Teus filhos! Deves sentir a máxima alegria pela sua com- preensão iniciática ao ouvirem Palavras do Coração Paternal, resolven- do até se modificarem, a fim de alcançar a perfeição como a meta final, instituída pelo Teu Amor!

  6. Quão imensa não será tal satisfação, quando o aperfeiçoamento se tiver realizado, pois um Teu filho reconheceu sua própria insignifi- cância, através da justa humildade, sendo Tu o Verdadeiro e Único Pai! Qual seria o anjo capaz de descrever tão imensa alegria, mesmo com a maior inspiração! Qual o ente humano, apto para assimilá-la?! Tenho

a impressão de ter eu sentido algo semelhante, como num sonho; por certo será um reflexo de Tua Doutrina, Senhor, agindo em meu coração e vontade!

  1. Compara-se à alegria do semeador convicto de que seu campo foi limpo da erva daninha, tendo sido os sulcos preenchidos de semen- tes puras que garantem colheita abençoada.

  2. Meu campo agora se tornou fértil, o que, por certo, observaste, Senhor; do contrário não terias lançado a semente pura de modo tão prodigioso. Esta certeza é possivelmente a causadora da felicidade que me inunda, pois estou convicto do bom êxito. Não sou de meias medi- das, por tal motivo, tudo empregarei para realizar Teu Verbo!

  3. Se como larápio fui perfeito — muitas vezes sem expectativa de sucesso —, muito mais saberei evitar que pensamentos, palavras e ações me possam novamente atrair para o mundo. Talvez venha a esquecer minhas atuais palavras; todavia meu coração me fará relembrá-las, mes- mo à custa de minha vida. Desde que sinto existir uma vida eterna após a morte física, pouco interesse lhe dou.

  4. Existem pessoas que, levadas pelo êxtase momentâneo, falam como se pretendessem abarcar o mundo inteiro; passado este ímpeto, começam a meditar sobre os acontecimentos, enquanto a vontade para a ação diminui, dia a dia, e os velhos hábitos se manifestam de novo. Nunca isto se deu comigo; pois havendo reconhecido algo de bom, agia assim rigorosamente, até que me convencesse de coisa melhor.

  5. Minhas atitudes de antanho em nada colidiam com meus princípios, que em absoluto poderiam ser contestados diante do Foro do mais puro e filantrópico intelecto. Nunca, porém, podia imaginar entrar em contato direto com o Eterno Mestre de toda a Vida, cuja Sabedoria Elevada dissipou minhas convicções como a cera exposta ao Sol. Todavia, deu-se o incrível! Deus em Sua Magnitude Eterna, encon- tra-Se em nosso meio, ensinando-nos o destino eterno com palavras tão simples, que qualquer ignorante compreenderia.

  6. Os covardes certamente se inclinarão de preferência às opi-

niões mundanas, porquanto o mundo lhes traz vantagens materiais! Eu integrei-me no ouro celeste, portanto desprezo, do fundo de meu

coração, as tentações terrenas. Tu, Senhor, queira me castigar se fa- lei mentira!

  1. Meu pedido de auxílio que te externei, nobre Cirenius, em mi- nha ignorância e miséria espirituais, peço não tomares em consideração; desde que achei os tesouros celestes em tal profusão, dispenso outros; também não mais necessito de meu casebre, pois descobri a Morada do Senhor em meu coração. Vendei tudo e pagai aos meus credores. Dora- vante trabalharei para me tornar útil por amor de Deus!”

  2. Digo Eu: “Conhecedor de tua índole chamei-te em espírito, do contrário, não terias dado aqui. Com esta tua transformação, teu futuro será garantido. Como bom trabalhador, serás um discípulo para os gregos na Europa e nas costas da Ásia Menor, onde muitos anseiam pela Luz espiritual. Por enquanto és hóspede de Cornélius, irmão de Cirenius; em tempo serás informado da tua partida. Estás provido de tudo; o resto ensinar-te-á o Espírito da Verdade, não necessitando pen- sar a fim de falares, pois ser-te-á dado na hora oportuna. Os povos te ouvirão, louvando Aquele que te facultou tamanho Saber e Força!”

  1. ZORELÉENTREGUEAOSCUIDADOSDE CORNÉLIUS

  1. (O Senhor): “Agora já se fez noite; nosso caro hospedeiro Mar- cus aprontou a ceia, que saborearemos com prazer em virtude da boa pesca feita. Em seguida, trataremos de outro assunto e amanhã, antes da aurora, separar-nos-emos por algum tempo, pois tenho ainda de visitar muitos lugarejos. Tu, Raphael, podes chamar as moças.”

  2. Yarah é a primeira a chegar a Meu lado, e diz: “Meu Pai e Meu Amor! Minha gratidão por nos teres chamado, pois me parecia levar uma Eternidade nesta expectativa. Não era possível ouvirmos o que trataste com Zorel?”

  3. Digo Eu: “Não, Minha filha, porquanto seria um ensinamen- to prematuro para o sexo feminino; além disto, nada perdeste por tal motivo, pois, no devido momento, te será revelado. Agora vem a ceia e te poderás expandir com Josué e Raphael, que apresentarei em segui- da a Zorel.

  1. Ficaremos acordados até pela manhã; é esta a última que passarei em vossa companhia e vos facultará uma quantidade de milagres, pois deveis conhecer Aquele que vos falou! Ninguém, todavia, deve divulgá-

-los. Tu, Meu caro Zorel, procurarás Cornélius que cuidará de ti.”

  1. Interrompe Cirenius: “Senhor, nunca invejei o meu irmão, no entanto, muito prazer teria no convívio de Zorel.” Respondo: “Este teu desejo alegra o Meu Coração e vale tanto quanto a obra. Mas, deste grupo, a maior parte já depende de ti: Zinka e seus colegas, Stahar, Murel e Floran, Hebram e Risa, Suetal, Ribar e Bael, Hermes com sua família, tuas próprias filhas e genros e o milagroso menino Josué, e todos aqueles que acompanham essas pessoas. Penso teres motivo de satisfação. Cornélius assume a responsabilidade de Zorel, que prestará bons serviços à sua casa, e mais tarde aos estrangeiros que determinarei para seus tutelados. Em vossas futuras visitas sempre terás oportunidade para falar-lhe. Ainda estás triste com Minha Determinação?”

  2. Responde Cirenius: “Oh, Senhor, como podes perguntar tal coi-

sa? Sabes que Tua Santa Vontade é minha máxima alegria, seja ela qual for! Além disto, não se passa um mês sem que veja Cornélius e assim poderei trocar ideias com Zorel. Há pouco anunciaste a Yarah uma quantidade de coisas surpreendentes; em que consistirão?”

  1. Digo Eu: “Caro amigo, sabê-lo-ás em tempo. Vamos primeiro cear, mormente tuas filhas que necessitam de alimento.”

  1. HUMILDADEJUSTAEHUMILDADE EXAGERADA

  1. Marcus dá o sinal para que todos tomem assento nos longos bancos, e Cornélius chama Zorel, a fim de ficar a seu lado. Ele, porém, recusa-se dizendo: “Nobre senhor e soberano! Não queiras isto, pois meu lugar fica lá na outra ponta, onde se acham os servos, e não à tua direita e nesta mesa. Tal seria um desafio ao meu orgulho.”

  2. Intervenho: “Amigo Zorel, aqui basta Minha Vontade, por isto faze o que Cornélius te pede. Além disto, baseia-se a verdadeira humil- dade não em obras externas e à vista de todos, mas no coração, de acor- do com a Verdade plena. Vai a Jerusalém, observa os fariseus e escribas

como se apresentam humildes em vestimentas e feições; seu íntimo, porém, está cheio de orgulho ferrenho, odiando até ao inferno àqueles que não dançam de acordo com seu assobio, enquanto que um rei de coroa e cetro pode ser tão humilde como um mendigo, caso não eleve seus ornamentos em excesso. Considerando isto, podes sentar-te, sem susto, à direita de Cornélius.”

  1. Conformado e satisfeito, Zorel segue Meu Conselho. O romano então lhe diz: “Assim está bem, meu caro amigo, procuremos viver e agir no futuro em Nome Daquele que nos inspirou! Quanto à justa humildade, penso o seguinte: No íntimo, devo ser humilde e cheio de amor ao próximo, sem nunca vangloriar-me por tanto. Rebaixando-me em demasia, torno o meu semelhante orgulhoso, privando-me da opor- tunidade de servi-lo. Somente não posso desconsiderar certo respeito, pois sem ele não poderia fazer o Bem. Por isto sejamos humildes de coração, sem nos rebaixar externamente.

  2. Ainda teremos oportunidade de ver como certas pessoas são

obrigadas a executar trabalhos desagradáveis, a fim de ganharem seu sustento. Deveríamos limpar as sarjetas para coroar nossa humildade?! Penso que não! Basta não julgarmos tais pessoas inferiores a nós, por termos recebido outro ofício.

  1. Devemos primeiro considerar a profissão em nós próprios, so- mente, em virtude da mesma. Se tal é uma necessidade, não nos com- pete varrermos as ruas, e sim entregar este trabalho aos que para isto foram designados pelo Senhor. Também não suportaríamos, por não estarmos a ele habituados desde pequenos. O Pai tampouco exigirá que o façamos; exige apenas que não desprezemos os mais inveterados pe- cadores, mas tudo façamos para salvar suas almas. Deste modo, julgo, agiremos com justiça diante de Deus e dos homens.”

  2. Concordo: “É isto mesmo. A verdadeira humildade e o justo

amor ao próximo habitam em vossos corações, e não na aparência or- gulhosa dos fariseus.

  1. Quem se meter sem necessidade entre os suínos, terá de suportar seu possível ataque. De modo idêntico, a justa humildade não manda que deiteis aos porcos, as pérolas de Minha Doutrina. Existem criaturas

piores que os suínos, portanto não a merecem; antes se prestam para a limpeza de sarjetas.

  1. Não considereis a roupagem ou o título e sim, unicamente a conduta da pessoa que age de acordo com seu coração. Se for nobre, meiga, paciente, transmiti-lhe o Evangelho, dizendo: A paz seja contigo em Nome do Senhor e com todos de boa vontade! Se a pessoa de tal modo abençoada for de boa índole, a paz com ela permanecerá, e o Evangelho começará a produzir os mais lindos frutos. Creio que todos vós estais orientados sobre a verdadeira humildade.

  2. Como as mesas transbordem de bons pratos, vamos saciar-nos com prazer, pois sou o verdadeiro Noivo de vossas almas e em breve, não mais estarei em vosso meio, quando vossa alegria também diminuirá.”

  1. CORNÉLIUSEZORELPALESTRAMSOBRE MILAGRES

  1. Todos seguem o Meu convite, principalmente Raphael que, de modo veloz, consome vários peixes de bom tamanho. Zorel e Zinka se admiram com isto e o primeiro faz uma observação a respeito, por- quanto o “tal adolescente” não tinha aparência de glutão.

  2. Explica Cirenius: “Aquele jovem é miraculoso; é humano e es- pírito ao mesmo tempo, e munido de poder e força jamais sonhados. Meu irmão Cornélius te poderá atestar.”

  3. O outro, então, lhe diz: “Caro Zorel, posso-te apenas confirmar as palavras de Cirenius; descrever-te sua natureza milagrosa não me é possível por não a entender. De acordo com as asserções judaicas, é ele o mesmo anjo que serviu de guia para o jovem Tobias. Não estive pre- sente, mas creio que assim tenha sido. Aqui também se dão coisas mi- lagrosas, que dificilmente serão aceitas por nossos descendentes. Nesse caso, por que não aceitarmos ser este jovem um anjo?”

  4. Concorda Zorel: “Em absoluto imporei dúvidas; pois todo milagre vai de encontro à lei da Natureza, e é a concretização das fantasias do mais inspirado poeta. Para Deus tudo será possível, por- quanto o próprio Universo Lhe serve de testemunho de Sua Onipo- tência. Assistirmos à criação do mundo seria certamente algo de extra-

ordinário, enquanto, como seus habitantes, tudo se nos apresenta de modo natural.

  1. Coisa sumamente excepcional é o momento que vivemos, em que surge o Próprio Criador, realizando coisas somente a Ele possíveis. Não pretendo duvidar da realização de fatos milagrosos por parte duma criatura renascida em espírito, quando se prende sua ação à Vontade divi- na; quanto mais não se dar isto com criaturas e anjos por Ele inspirados!

  2. Recordo-me de uma lenda judaica em que até um burro chegou a falar de modo sábio ao profeta Bileam! Aquele animal deveria estar sob a influência do Espírito Divino, servindo-Lhe de instrumento. Eis minha opinião que não pretendo advogar como irredutível, pois já dei um golpe em falso neste terreno, e não quero repeti-lo.”

  3. Concorda Cornélius: “Amigo, falaste acertadamente; aconselho-

-te, porém, dirigires tua atenção ao peixe em teu prato, ao invés de te perturbares com o apetite extraordinário do jovem, que, com facilida- de, poderia comer mais dez. Prova seres capaz de ingerir ao menos um, não desprezando tampouco o bom vinho.” Zorel assim faz e não liga ao que se passa a seu redor.

  1. OPINIÕESDIVERSASSOBREANATUREZADO SENHOR

  1. O vinho começa a soltar as línguas, levando os presentes a con- tendas sobre Minha Pessoa; poder-se-ia dizer que nesta ceia se deu o primeiro cisma religioso. Alguns afirmavam ser Eu o Ser Supremo; ou- tros, apenas o Ser por interferência indireta. Havia os que confirma- vam somente Minha Descendência de David, sendo designado para o Messias do Reino judaico, munido, portanto, do poder de David e da Sabedoria de Salomon. Outros, ainda alegavam ser Eu um arcanjo encarnado, tendo ao Meu lado um ajudante.

  2. Um grupo, do qual até fazem parte alguns apóstolos, declarou-

-Me filho do Altíssimo; se bem que possuísse os mesmos dons do Meu Pai, não deixava de ser uma personalidade diversa e o Próprio Espírito Santo, seria, finalmente, uma terceira entidade, que, em certos casos, Se manifestava com poder autônomo.

  1. Tais pareceres eram, todavia, contestados por alguns, que se dirigem a Pedro neste sentido; Pedro, então, diz: “Quando de nossa peregrinação por esta zona, o Próprio Senhor perguntou a opinião alheia e finalmente qual o nosso conceito sobre Sua Pessoa. As respos- tas foram as mais diversas e quando fui chamado para responder, exter- nei o que senti: És o Filho do Altíssimo! E ele, satisfeito, classificou-me de ‘rocha de fé’, sobre a qual iria construir Sua Igreja, que jamais seria dominada pela força do inferno. Deste modo, minha opinião foi por Ele Mesmo confirmada e julgo não agir erradamente, se nela persisto como rocha.”

  2. João, porém, diverge da observação de Pedro e diz: “Nele habi-

ta fisicamente a Plenitude Divina! Reconheço-O, pois, como sendo a Mesma Personalidade. No Filho, pleno do Espírito Divino, vejo, ape- nas, o Corpo necessário para atingir certa finalidade; em Seu Todo, é Ele idêntico à Divindade que Nele habita em Plenitude.

  1. Acaso seria meu corpo outra individualidade que minha alma? Não perfazem ambos uma só pessoa, não obstante ter a alma formado, no início de meu ser, este físico, de sorte que se poderia afirmar: a alma revestiu-se dum corpo material, encobrindo-se de uma outra personali- dade? Se bem que se possa dizer ser o corpo um filho ou uma criação da alma, ele não perfaz outra entidade, com ou sem ela. Tampouco pode- ria se afirmar isto do espírito contido na alma; pois que seria uma alma sem centelha divina? Torna-se somente uma criatura perfeita quando o espírito a houver penetrado, onde, então, espírito, alma e corpo são uma só pessoa.

  2. Além disto consta: Deus criou o homem perfeito de acordo com

Sua Imagem! Sendo, portanto, o homem uma só pessoa constituída de espírito, alma e corpo — de acordo com a Imagem Divina — Deus Mesmo, como o Espírito Original de Máxima Perfeição, envolto duma alma igualmente perfeita, Se nos apresenta n’umsó corpo; é por conse- guinte, UmDeuse jamais três Divindades, por acaso ainda, divididas em três pessoas. Eis meu parecer que afirmarei para sempre, sem querer ser uma rocha de fé!”

  1. Respondem todos à mesa: “João falou acertadamente!”

  1. Pedro tenta corrigir-se dizendo: “É isto mesmo; somente não tenho tal verbosidade para expor minha compreensão de modo tão rá- pido, pois este assunto sempre será de difícil assimilação.”

  2. Antepõe João: “Nem por isto. Pelo teu jeito ninguém o com- preenderá; pelo meu, penso ser mais fácil. Que o Próprio Senhor, seja nosso Juiz!”

  3. Digo Eu: “A fé muita coisa consegue; o amor, porém, tudo alcança! Tu, Simon Juda, és uma rocha na fé, enquanto João é um dia- mante puro no amor, por isto possui a compreensão mais profunda entre todos. Por tal razão é Meu Secretário particular, e terá de escrever coisas misteriosas para o entendimento comum. Amor tão profundo comporta a sabedoria mais elevada; a fé, apenas determinado conhe- cimento onde consta: Até aqui e não mais além! Guiai-vos pelo pa- recer de Meu Amado, pois Me saberá transmitir ao mundo, de modo completo!”

  4. Pedro encabula com Minhas Palavras e no íntimo, alimenta

desde aí, certa inveja de João. Por este motivo comentou a atitude de João após ter Eu ressuscitado, pois que também ele Me seguia, embo- ra Eu apenas tivesse dado tal ordem a Pedro; de sorte que profetizei a imortalidade de João e o povo fez correr a lenda que este apóstolo jamais morreria.

  1. Pedro indaga do outro, donde lhe vinha compreensão e conhe- cimento tão profundos. E João responde: “Vê, não me encontro em teu íntimo nem tu te achas no meu; além disto, falta-me a medida pela qual pudesse determinar a razão de ser mais acertado, o meu parecer. Se o Senhor Pessoalmente especificou a diferença entre fé e amor, isto te sir- va de resposta. Somente Ele pode desvendar o nosso âmago; portanto, também saberá definir nossa diversidade.” Satisfeito com esta resposta, Pedro se cala. Como a ceia tivesse terminada, levantamo-nos e subimos o morro próximo.

  1. APEDRALUMINOSADAFONTEDO NILO

  1. Mal havíamos tomado assento no morro, já conhecido, Marcus se aproxima com toda a sua família, pedindo-Me encarecidamente ficar durante o dia seguinte, pois lhe dói o coração por saber de Minha Par- tida ainda antes da aurora.

  2. Digo-lhe: “Não te aflijas! Posso ir ou ficar, porquanto o tempo não Me obriga a agir. Sou o Senhor do tempo e dos tempos que jamais Me poderão influenciar. Existem, porém, muitos lugarejos que tenho de visitar; todavia, uma hora mais ou menos, não tem importância onde encontro um amor verdadeiro e vivo.”

  3. Com lágrimas nos olhos Marcus exclama: “Senhor e Pai! Grati- dão eterna por tão imensa Graça! Tua Vontade se faça para sempre! A noite, porém, é por demais escura em virtude das nuvens que cobrem o Céu. Não conviria mandar trazer algumas tochas?”

  4. Respondo: “Deixa estar que nos supriremos de luz!” Em seguida chamo Raphael e lhe digo: “No centro da África onde se acham os picos elevados chamados Komrahai e onde, numa rocha, brota a fonte do Nilo, encontrarás na altura de dez homens, oculta entre o entulho, uma pedra do tamanho duma cabeça humana. Traze-a aqui, pois iluminará suficientemente a escuridão da noite. Ao voltares, deposita-a naquele tronco donde sua luz emanará sobre toda a zona. Falo-te, como se foras humano, em virtude dos homens, a fim de que saibam Quem Sou e reconheçam Meu Poder em tua ação!”

  5. Raphael desaparece, para voltar instantaneamente, qual mete-

oro, transportando a pedra luminosa, qual Sol. Antes de depositá-la em cima do tronco, muitos pedem para analisá-la. Entretanto não é possível satisfazer-lhes tal pedido, porquanto na sua proximidade a luz é insuportável; assim que o anjo a leva ao lugar por Mim determinado, tudo se torna visível até a longa distância.

  1. É fácil compreender-se a estupefação de Zinka e seu grupo, que mal podem respirar. Principalmente Zorel procura externar-se den- tro de sua lógica habitual, sem algo conseguir, porquanto suas noções matemáticas colidem com este fenômeno. Ele por diversas vezes havia

visitado o Egito como vendedor de escravos, e tinha chegado até às ca- taratas, no que levara cinco a seis semanas, escoltado por bons camelos.

  1. De acordo com seu cálculo, um furacão levaria três dias, uma flecha, meio dia para tal distância. Que velocidade pois não usou Ra- phael para tanto! Se for ele um espírito, como pôde carregar u’a ma- téria, e esta, mesmo sendo de qualidade tão dura? Como era possível protegê-la contra a desintegração pelo atrito do ar?! A lei da Natureza não esclarece esta possibilidade! Além disto, era preciso se considerar a forte irradiação de luz jamais vista! Até esta data só se havia descoberto uma luz fraca, em madeira apodrecida; assim conjetura Zorel.

  2. Em seguida vira-se para Cornélius e Zinka: “Isto se pode deno-

minar um verdadeiro milagre, pois nunca foi visto fato semelhante na Terra! Que qualidade de pedra será esta e que valor não teria para os tesouros dum rei?! Nas extensas costas da África, além das Colunas de Hércules, (Gibraltar), nas zonas onde as faldas do Atlas tocam o Ocea- no Atlântico, observam-se, de quando em quando, pedras semelhantes; sua luz, porém, não perdura e num recinto, logo se apaga. Esta aqui parece ser toda especial e, portanto, de valor incalculável.”

  1. Diz Cornélius: “Não em virtude de seu brilho, mas por Aquele Que a fez trazer. Deixemos este assunto. Amanhã, quando nossos olhos estiverem habituados à luz do Sol, mais facilmente poderemos analisar este fenômeno.” Nisto aproxima-se de Mim, Ouran e diz: “Senhor, que será feito desta pedra?”

  2. Respondo: “Com tal pergunta, externaste propriamente o de- sejo de possuí-la para tua coroa. Isto, no entanto, não será possível, por- que poderiam irromper guerras fatídicas pela conquista. Por tal razão, Meu Raphael a reporá amanhã no lugar anterior, evitando uma possível contenda.”

  3. Observa Cirenius: “Senhor, como oferta ao Imperador esta preciosidade causaria forte impressão.” Digo Eu: “Certamente; mas também lá despertaria a inveja, cujas consequências seriam inevitáveis. Presentear-te-ei com alguns estilhaços para satisfazer-te.”

  4. Prossegue Cirenius: “De que modo se produz sua irradiação luminosa?” Respondo: “Tais pedras não pertencem à Terra, mas pro-

vêm do Sol, onde, de vez em quando, se dão grandes erupções duma violência incompreensível, projetando-as ao Espaço Imenso.

  1. Sua luminosidade deriva de sua superfície extremamente lisa, na qual se acumula, constantemente, quantidade de faíscas, incentivando os elementos algemados na matéria grosseira para uma atividade contínua. Além disto, é esta pedra muito transparente, deixando transluzir a ação, elevada à máxima potência, pela vibração externa dos elementos do ar.

  2. Essas filhas do Sol não se acham lá de modo natural, e sim são formadas pelas mãos artísticas de seus habitantes. Geralmente são encontradas em forma redonda, em regiões de grandes rios. Por ocasião das erupções colossais são fundidos blocos de minerais variados e pro- jetados no éter, recebendo sempre a forma arredondada duma gota, em virtude da força centrípeta localizada em toda matéria.

  3. O retorno de tais bólides de variados tamanhos dura, às vezes, dias, semanas, meses e até muitos anos, à medida do ímpeto com que foram expelidos. Alguns se espatifam nas montanhas de rochas solares; muitos caem nos imensos rios sem causar dano, donde são retirados facilmente pelos habitantes. Esses podem permanecer durante horas debaixo d’água; trabalham no fundo do mar como em terra seca, pois além de terem esta faculdade anfibiana, possuem instrumentos muito apropriados para tal fim.

  4. Quando de posse de uma quantidade desses bólides, as criatu-

ras ainda os pulem até que comecem a luzir. Isto feito, são colocados nas catacumbas onde sempre há corrente de ar, em colunas especiais, prestando serviço duplo: um de iluminar tais labirintos, outro como enfeite mui apreciado, pois lá uma simples moradia é internamente muito mais enfeitada que o Templo de Salomon, em Jerusalém. Assim, fácil é de se imaginar que os habitantes do Sol, mormente os da esfera central, tudo empreendam para enfeitar suas habitações. Todavia não nos reunimos a fim de discorrer sobre a narrativa do planeta solar, mas para fortalecer vossa fé, e para tanto necessitamos de outros meios.”

  1. Interrompe Cirenius: “Senhor, se este bólide é tão duro como diamante, como tirar-lhe alguns fragmentos que gostaria guardar como lembrança desta noite?”

  1. Respondo: “Tuas precauções são por demais terrenas. Existe ainda grande quantidade, seja na África ou no Sol, distância de some- nos importância para Meu anjo. Deste, ninguém poderá desprender um fragmento sequer sem destruí-lo e, nesse caso, perderia a faculdade luminosa. Agora, mudemos de assunto.”

  1. ALMAE CORPO

  1. (O Senhor): “Zorel e Zinka, aproximai-vos de Mim e dizei-Me que desejais ver e saber.” Manifesta-se prontamente Zinka: “Senhor, eis uma questão difícil de ser resolvida por pessoas imperfeitas que somos. Por certo ignoramos o que nos seja necessário saber, enquan- to não constitui isto segredo para Ti, por isto, tudo que nos fize- res pelo Teu Imenso Amor e Sabedoria, só poderá reverter em nosso benefício.”

  2. Digo Eu: “Muito bem; sendo o conhecimento da sobrevivência da alma após a morte algo de maior importância, analisaremos este ponto mais de perto. Já por diversas vezes vos demonstrei em que con- siste a morte propriamente dita, e quais os efeitos para alma e espírito. Se vos explicar tal fenômeno por teorias extensas, nem daqui a um ano terminaríamos; por isso exemplificarei tal problema, facilitando-vos a compreensão. Antes, porém, deveis saber a maneira pela qual alma e corpo estão ligados.

  3. A alma, como conglomerado de elementos de atração, é de subs-

tância puramente etérea; o corpo, também contendo em sua natureza elementos etéreos, torna-se com ela homogêneo. Esta afinidade é o úni- co laço que prende a psique ao físico, onde pouca ou nenhuma atração se manifesta; mesmo havendo essa afinidade, deve ser expelida do corpo pelo processo da decomposição, e integrada no Além à alma, de certo modo desnuda.

  1. Se em vida a psique tiver assimilado em demasia os elementos materiais do corpo, ela também é atingida pela morte, devendo decom- por-se juntamente com ele, despertando, apenas, após vários anos, em estado de máxima imperfeição. Claro é, ser mui difícil elevar-se para a

luz, porquanto nela tudo é matéria obscura, onde reina pouca manifes- tação de vida e grande treva em todos os recantos de sua natureza.

  1. Por muito tempo será impossível cogitar-se do despertar espiri- tual, até que a aflição e toda sorte de humilhações tenham exterminado da alma a ignorância tremenda e os elementos do corpo. No Além, este processo é muito mais penoso que em vida, porquanto a alma terá de permanecer só, em completo isolamento, a fim de não ser tragada, em sua natureza informe, por outra entidade plena de fogo vital, como desaparece uma gota d’água em cima de uma chapa incandescente. A toda alma incompleta vale — diante de um espírito perfeito — aquilo que disse a Moysés, desejoso de Me ver: Não poderás ver Deus e con- tinuar com vida.

  2. Quanto mais potente se manifesta uma entidade tanto mais for-

te, poderosa e pesada se apresenta, tornando impossível a sobrevivência duma inferior, a não ser a certa distância. Que vem a ser o mosquito perto dum elefante, a mosca ao lado do leão? Qual seria o valor do musgo delicado perto do cedro centenário, no Líbano? Esta Terra perto do grande Sol? Uma gota d’água comparada a um fogo poderoso? Vosso peso nas costas dum paquiderme certamente não o perturbará; se, po- rém, pisares uma formiga, será aniquilada.

  1. Se isto é palpável em a Natureza, muito mais pronunciado se apresenta no Reino dos espíritos. Em toda a manifestação de vida existe a necessidade insaciável para um acréscimo destes elementos, e o prin- cípio de atração e união é simplesmente o amor. Se assim não fosse, não haveria Sol, nem Terra e muito menos criaturas.

  2. Existindo em a vida o princípio vital de atração, esforçando-se constantemente por uma união à outra semelhante, tais elementos in- teligenciados e isolados, agrupam-se para uma única manifestação inte- lectiva de projeção maior, surgindo assim de muitos elementos de fraca inteligência, um ser de grande poder intelectual.”

  1. DESENVOLVIMENTODEALMASFRACASNO ALÉM

  1. (O Senhor): “Se dentro de tais princípios, uma alma fraca e des- nuda, encontrasse no Além um espírito semelhante a Raphael, imedia- tamente seria por ele tragada, assim como o mar absorve uma gota de chuva. Eis por que prevalece em todo o Universo, o cuidado determinado por Mim de se deixar uma psique ainda fraca e ignorante num isolamento completo, permitindo apenas a aproximação de outras, a ela semelhantes.

  2. Tais potências de vida não se podem tragar reciprocamente, por- quanto são de força e poder idênticos; entretanto, formam agrupamen- tos onde conjeturam sobre qual medida a tomar; sendo sua inteligência idêntica, nada de bom pode daí surgir. Imaginai uma assembleia de pessoas inteiramente desprovidas de compreensão, tentando resolver algo razoável. Qual seria o efeito? Nulo.

  3. Ainda hoje existem — mormente em ilhas — povos que lá vi- vem desde a época de Adam; são descendentes de Caim, na mesma cultura intelectual que há dois mil anos atrás. Por que não obtiveram progresso cultural, não obstante as variadas assembleias? Por ser o mais sábio dentre eles mais ignorante que hoje um pastor de suínos. Se tal é a situação do sábio, que esperar dos outros que lhe pedem conselhos?!

  4. Naturalmente indagareis o motivo por que Deus não lhes en- viou alguns profetas inspirados pelo seu Espírito, — e eis o nosso ponto a discorrer. Nesses povos habitam almas mui primitivas, de sorte que uma orientação mais elevada as aborreceria, prendendo-as num julga- mento infindo. A Verdade pura e sublime as transportaria à mais tene- brosa superstição, onde se haveriam de positivar de forma tal, que nem Eu as poderia libertar.

  5. Por isso é necessário que permaneçam, por mais mil anos, em seu atual conhecimento. Decorrida essa época, serão procurados por pessoas de maior inteligência, que lhes ensinarão através de exemplos. De tempos em tempos, tal surpresa se repetirá. Passados alguns séculos, com estas instruções aqueles povos estarão mais providos física e psiqui- camente, sendo então possível a gradativa aplicação dum conhecimento mais elevado.

  1. Do mesmo modo, porém mais difícil, sucede no Além a evolução e o aperfeiçoamento duma alma surgida da Natureza, completamente desnuda. Tem de permanecer isolada e em total escuridão, até que, le- vada pelo próprio sofrimento, resolva sacudir sua letargia semimaterial, começando a formar pensamentos mais concisos em seu coração.

  2. Quando tais pensamentos se tornarem mais nítidos e firmes, faz-se uma pequena luz em tal entidade, alcançando uma certa base onde se possa firmar e caminhar. Este caminhar consiste em passar dum pensamento a outro e duma impressão à outra. Trata-se duma busca que terá de ser satisfeita, do contrário, a alma recairia no antigo estado de inércia.

  3. Se neste anseio ela algo encontrar, é impulsionada para outra busca e pesquisa, e acaso achando vestígios duma semelhante, não des- cansará até que encontre o que espera.

  4. Por essa pesquisa intensiva, ela se torna mais sazonada e procura se saciar com tudo que lhe proporcione um invólucro para o seu corpo etéreo. Cá e acolá também acha algo para satisfazer fome e sede; pois quanto mais se manifesta um sentido, em virtude do crescente fogo vital, tanto maior oportunidade se apresenta para lhe despertar novas necessidades.”

  1. CONDUTADASALMASNO ALÉM

  1. (O Senhor): “Por este motivo, o espírito incumbido de guiar tal psique à certa distância deve usar da maior precaução, a fim de que ela venha apenas encontrar o que lhe proporcione um avanço.

  2. Somente com o tempo poderá encontrar uma semelhante, opri- mida pelo mesmo sofrimento, entrando num intercâmbio idêntico ao de duas criaturas que na Terra sofrem a mesma desdita. Apiadam-se reciprocamente, pouco a pouco deliberando a maneira pela qual pode- riam melhorar seu destino.

  3. Compreende-se ser tal semelhança apenas aparente, do contrá- rio um cego se tornaria guia do outro, onde facilmente ambos tomba- riam na vala, situação pior que a anterior durante o isolamento.

  1. O espírito que — como por acaso — aborda uma alma ainda jovem, não deve deixar transparecer sua perfeição, mas tornar-se inicial- mente igual a ela. Estando alegre ele rirá com ela; chorando, também imitá-la-á. Somente quando ela se aborrece e amaldiçoa seu destino, o espírito deve aparentar o mesmo desgosto, entretanto simular o in- sensível que pouca importância dá à situação. Desde que as coisas não melhorem, convém deixá-las como estão! Tal ponto de vista, torna a jovem alma mais acessível, satisfazendo-se com uma pequena vantagem que se apresente casualmente.

  2. Havendo encontrado um pequeno pouso, deve ser entregue ao

seu destino, enquanto não manifestar necessidade de melhoria. Asseme- lha-se ela às pessoas que aqui se contentam com uma posse diminuta, quando se lhes dá o necessário sustento. Progresso algum lhes toca. Aca- so os afazeres dum imperador ou general lhes dizem respeito? Enquanto tiverem o que comer e seu descanso dominical, sentem-se felizes.

  1. De modo idêntico é a situação duma alma que, após ter saído de seu estado de isolamento, alcançou um bem-estar relativo pelo próprio esforço, nada mais almejando para seu progresso, porquanto despreza tudo que seja sacrifício.

  2. Suponhamos ter uma alma encontrado um emprego com pes- soas de boa índole de sorte que nada lhe falte, ou tenha conseguido a posse duma casinha com horta, algumas cabras e, talvez, ainda um ou dois servos. Em tal caso, o espírito guia nada terá de fazer, deixando que ela permaneça por algum tempo neste estado.

  3. Pelo afastamento temporário, dará impressão tentar ele próprio algo de melhor; quando de volta, relatará ter encontrado situação mais vantajosa, mas será difícil consegui-la por se prender a muito trabalho! A jovem alma certamente indagará da espécie daquela tarefa; uma vez esclarecida e demonstrando inclinação para tanto, o guia a conduzirá para tal local. Assim sendo, deixá-la-á cuidando dos produtos de sua horta que cada vez mais escassos tornar-se-ão e finalmente nem lhe suprirão as necessidades prementes.

  4. A alma então tudo fará para aumentar a produção; o guia, no

entanto, não lhe facultará tal ensejo, mas procurará convencê-la do

completo insucesso de seu esforço, até que ela própria venha a manifes- tar vontade de abandonar aquela morada, e aceitar um serviço que lhe proporcione futuro mais seguro.

  1. O guia a conduzirá para um emprego que exija muito esforço; ele mesmo, porém, afastar-se-á novamente sob alegação de ter encontra- do um serviço bem pesado, com boa remuneração. A alma é orientada em sua incumbência; advertida, também, de que qualquer desleixo lhe será descontado, enquanto um aumento de seu esforço lhe trará acrés- cimo monetário. Ela, então, decidirá por conta própria: cumprindo as exigências, será levada a um estado de maior conforto, onde começará a receber a insuflação de pensamentos e sentimentos mais variados. Caso contrário, o anjo protetor a fará voltar à anterior penúria.

  2. Se após certo tempo ela tiver caído em extrema miséria, o guia

se apresentará bem situado, como proprietário de muitas terras, e inda- gará da alma por que razão havia desleixado o emprego tão promissor. Ela, naturalmente, começará a se desculpar do esforço que lhe fora exi- gido. Então lhe será demonstrado que sua situação nessa horta estéril é bem mais penosa e sem expectativa de melhoria.

  1. Deste modo, ela será induzida a aceitar novamente uma colo- cação onde tudo fará para satisfazer as exigências, o que lhe trará pron- to benefício, todavia, deve ser mantida na ideia de ainda estar viva. Almas materialistas custam a compreender sua situação após a morte, sendo preciso ensiná-las pelo caminho apropriado. Este conhecimento só lhes será suportável, quando tiverem alcançado um progresso que lhes faculte consistência mais sólida. Só então estarão aptas a pequeno ensinamento, porquanto começa a manifestar-se o germe do espírito.

  2. Tendo a alma aceito encontrar-se no mundo dos espíritos e

que seu destino eterno depende, unicamente, de seu próprio esforço, deverá lhe ser demonstrado o caminho justo do amor para Comigo e ao próximo, cabendo-lhe palmilhá-lo por livre vontade e determina- ção própria.

  1. Igualmente orientada sobre aquilo que de qualquer maneira lhe é necessário alcançar, o guia a deixará novamente, até que ela o chame em seu coração. Não externando desejo de sua presença, ela ipso

factoestará no caminho seguro; desviando-se por atalhos, ele provocará novo estado de penúria para ela. Reconhecendo seu erro e pedindo pela presença do guia, ele se aproximará, demonstrando com paciência a inutilidade de seu empreendimento.

  1. Se ela manifestar novo desejo de melhoria, ele a satisfará e caso ela cumpra seus deveres será favorecida, mas não tão rapidamente como da primeira vez, porquanto recairia facilmente na letargia anterior, don- de só sairia com dificuldade, pois cada reincidência a tornará endurecida qual tronco que, de ano para ano, custará mais para se deixar envergar.”

  1. PROGRESSODAALMANATERRAENO ALÉM

  1. (O Senhor): “Subentende-se não se tratar de caso isolado, mas de norma básica, pela qual se eleva uma psique, aqui e no Além, de seu atraso materialista. Existem variedades incontáveis cada qual exigindo especial tratamento; entretanto, há uma regra que todos devem consi- derar, assim como o solo tem de ser estrumado com a chuva, a fim de que a semente lançada germine. A maneira pela qual os variados grãos no solo aguardam sua vivificação, assimilando da chuva aquilo de que necessitam, é tarefa da inteligência peculiar daqueles espíritos que habi- tam nos grãos, portanto sabem cuidar de sua morada.

  2. Demonstro-vos isto para que reconheçais a dificuldade inerente

ao caminho da perfeição no Além, e quão fácil ele se dá na Terra, onde a alma é possuidora do corpo físico, no qual pode depositar suas ten- dências materiais, tão logo o queira. No Reino dos espíritos, isto não é tão fácil. A alma sem corpo, também deixou de pisar em solo terreno, e flutua sobre base espiritual, provinda de seus pensamentos e ideias, inadequados à assimilação da matéria expelida pela psique, a fim de enterrá-la para sempre.

  1. Mesmo ela tentando algo enterrar em seu solo, poderia ser com- parada à tentativa de se jogar uma pedra daqui ao Espaço Infinito. Quem possuísse força para atirá-la numa velocidade que ultrapassasse trinta mil vezes a duma flecha, tal ímpeto não mais a deixaria voltar à Terra; porém, uma força menor não surtiria efeito.

  1. Tal é a situação duma alma no Além, presa a seus pecados. Se ela os afasta de si e os atira sobre seu solo, pouco efeito terá, porquanto a base psíquica em que se encontra, é tanto sua posse quanto a força de atração telúrica faz parte da Terra, sem dela se poder afastar.

  2. Se, portanto, uma alma no Além pretende se desfazer de tudo que seja matéria grosseira, preciso é que venha a agir uma força mais elevada; esta força pousa justamente no Meu Verbo e em Meu Nome! Eis por que Deus proferiu: Diante de Meu Nome todos se ajoelharão nos Céus, sobre e debaixo da Terra! Nisto, subentende-se todas as cria- turas dos inúmeros mundos no Espaço Infinito; pois, no Céu, habitam os filhos já perfeitos de Deus. Nesta Terra, somente os que são desti- nados para tal fim. Se ela, portanto, possui este privilégio sublime, sua dignidade perante Deus está acima de todo o Universo. Os demais cor- pos cósmicos são moralmente inferiores, assim como seus habitantes, no que se entende ‘os que habitam debaixo da Terra’.

  3. Já vimos que somente pela Minha Palavra e Meu Verbo uma

alma se purificará por completo. Isto, porém, não é tão fácil, pois neces- sita de grandes preparativos. Preciso é que a psique se tenha exercitado em atitudes independentes e ser possuidora duma força considerável, antes de poder aceitar Meu Verbo e, finalmente, o Meu Nome. Nesta situação, ser-lhe-á fácil expelir o último átomo de seu território, de tal forma a impossibilitar que volte para lá.”

  1. ODESENVOLVIMENTO PSÍQUICO

  1. Interrompe Cirenius que havia prestado a máxima atenção: “Se- nhor, não posso negar ter compreendido tudo que acabaste de expla- nar, todavia tenho a impressão de que um dia não me possa externar a respeito, o que me deixa triste. Talvez fosse possível nos dares mais uma pequena elucidação.”

  2. Digo Eu: “Amigo, vós romanos, tendes um bom provérbio que diz: Longum iter per praecepta, brevis et efficax per exempla (O caminho do ensino é longo, o do exemplo, curto e eficaz). Isto se aplica no mo- mento; espera, pois, pelos exemplos que vos demonstrarei em breve.

Esclarecer-te-ão as tuas atuais dúvidas. No seu todo compreenderás o assunto, somente, quando o Espírito Puro da Verdade Eterna se espar- gir sobre vós, conduzindo-vos a todas as verdades de Céus e mundos.

  1. Acaso não percebes existir uma só lei natural no crescimento dos reinos animal e vegetal?! Todas as plantas crescem e se multiplicam através de seu interior, isto é, absorvem da umidade terrena os elemen- tos necessários, por incontáveis canais e tubos, que assim purificados se integram à vida vegetal.

  2. Os animais buscam seu alimento na mesma fonte, apenas é ele mais purificado pelo organismo das plantas ou na carne de espécimens inferiores, do que no humo primitivo da terra.

  3. O homem se alimenta finalmente de matérias mais apuradas, do reino vegetal e animal. Não lhe servem capim e feno, pois dos vegetais necessita principalmente do trigo, e das árvores, os frutos mais nobres e doces. Dos animais procura, em geral, os mais limpos, sentindo asco dos impuros.

  4. Quantos desvios e aberrações não existem no desenvolvimento dos reinos vegetal e animal! Todavia, todos alcançam sua finalidade. Não pode passar despercebido, aos olhos dum pesquisador, que no mundo da Natureza um elemento serve para o progresso de outro.

  5. A vida da alma tem de ser filtrada pelos elementos variados da Natureza. No começo se acha ela no éter, onde se concentra pela atra- ção com elementos similares e afins. Neste processo se torna mais pe- sada, emergindo em seu próprio centro, criando uma substância mais densa e sensível.

  6. Como ar, a vida psíquica se aglomera, surgindo as nuvens e ne- blinas que por sua vez se transformam pela atração, em gotas d’água caindo à terra como chuva, saraiva, neve, orvalho e, em certas zonas, permanecem como formações nebulosas e névoas úmidas.

  7. A água, muito embora de qualidade inferior, está todavia acima do éter e do ar, sendo obrigada a servir de modos variados aos superio- res centros de vida. Tem de amolecer a existência endurecida dentro da pedra, aceitando tais elementos para levá-los ao progresso. Eis o primei- ro serviço prestado.

  1. Em seguida, deve fazer passar as partículas psíquicas e substan- ciais, às plantas. Quando tais elementos se tiverem desenvolvido para formas de inteligência mais definida, são eles absorvidos pelo vapor e água. Esta, terá de lhes proporcionar a matéria para novas formas de vida, mais libertas. Deste modo, a água trabalha sempre na própria esfera, não obstante dela se desprenderem constantemente, um sem número de partículas inteligenciadas de vida psíquica, que se libertam mais e mais. A incumbência da água é mui simples. Ao reino vegetal já cabe um serviço mais variado e complexo, o que deparamos na mais simples planta.

  2. Mais diversos e importantes são os préstimos para a evolução

da vida psíquica, nos mais ínfimos e simples animais, próximos do rei- no vegetal. E assim, o desempenho se torna sempre mais entrelaçado à medida do progresso da vida psíquica.

  1. Havendo a vida psíquica se integrado inteiramente na forma humana, sua primeira determinação é servir; pois existem variados servi- ços naturais e obrigatórios na criatura. Além desses, uma quantidade de outros mais livres e muito maior número de incumbências morais que o homem tem de aplicar. E se tiver feito todas as suas obrigações, ter-se-á também elevado à máxima perfeição de vida. Isto se torna fácil em pes- soas que, desde o nascimento, se encontram em posição mais elevada. Outras, que a bem dizer, ainda beiram o reino animal, não o conseguem aqui. Terão de evoluir no Além, sempre no caminho básico do servir.”

  1. AFINALIDADEDO SERVIR

  1. (O Senhor): “Pelo servir se pratica e se evolui na humildade; pois quanto mais inferior uma tarefa, tanto maior utilidade para a verdadei- ra formação da vida. A humildade é nada mais que a condensação mais forte da vida, em si. O orgulho é uma criação fútil, a dispersão para o Infinito, a perda completa da própria vida, o que podemos chamar a segunda morte ou a morte espiritual.

  2. No orgulho, não existe cooperação e portanto nenhum progres- so. Se pelo domínio orgulhoso se concretizasse o desenvolvimento vital,

Eu, por certo, teria estabelecido uma ordem que facultasse ao homem esse direito. Sendo o orgulho contrário à Minha Ordem Eterna, toda criatura e anjo têm de se submeter a servir e encontrarão, por fim, a maior felicidade e bem-aventurança, na constante colaboração.

  1. Sem cooperação, não há vida, nem continuidade da mesma; não existirá felicidade, nem amor, nem sabedoria, nem alegrias, tanto aqui, quanto no Além. E quem julgar ser o Céu um ambiente cheio de ocio- sidade e dolcefarniente, enganar-se-á.

  2. É justamente por este motivo que aos espíritos felizes dos Céus mais elevados são conferidos força e poder tais, que prestam a Mim os serviços mais relevantes, assim como a todas as criaturas em sua vida de provação. Que utilidade teria o dom da força criadora?! Seriam precisas força e sabedoria para a ociosidade?! Se sua atividade e cooperação já cons- tituem uma importância indescritível para este planeta, quanto não repre- sentarão para o mundo dos espíritos e através deste, para todo o Infinito?

  3. Não vim ao vosso convívio a fim de educar-vos para o ócio ou apenas para a lavoura, criação de gado etc, mas para formar-vos trabalha- dores competentes da grande Vinha Celeste. Minha Doutrina se concre- tiza, primeiramente, no aperfeiçoamento de vossa vida interior; segundo, para que vós próprios, como criaturas perfeitas, possais vos tornar os colaboradores mais íntegros e aptos, em vida e mormente no Meu Reino.

  4. Se tal não fosse Minha Intenção final e Eu vos dissesse: Agi ape- nas em vida terrena; pois no Além podereis descansar eternamente, no maior conforto, e olhar boquiabertos as Maravilhas de Deus! Eu deveria ser mais tolo que qualquer um de vós. Por certo, fitareis as Glórias Di- vinas, mas não sem atividade, pois dela depende aumentardes as Mara- vilhas, tornando-as sempre mais gloriosas e divinas.

  5. É de Minha Vontade que a partir de agora, todos os Meus Pen- samentos e Ideias sejam por vós, Meus filhinhos, realizados aqui, para alma, coração e espírito de vossos irmãos, e no Além, em todos os gran- des feitos, partindo da esfera inicial do espírito até sua formação na ma- téria. De lá, porém, retornará à vida multiplicada, pura, espiritualmen- te livre e perfeita. Para tanto, será preciso tempo, paciência e atividade infinitas e uma idêntica sabedoria e força que tudo abrange!”

  1. PESQUISANDOOSSEGREDOSDA CRIAÇÃO

  1. (O Senhor): “Não deveis supor que um mundo, como esta pe- quena Terra, pudesse ser criado e povoado de hoje para amanhã. Para isto são precisos miríades vezes miríades de anos! Que período imenso já não é preciso apenas, até que um mundo seja apto para produzir um homem! Que variedade de plantas e de animais para estrumar o solo pela fermentação e decomposição foi necessária, até que se formasse no mofo, aquele humo onde a primeira alma forte pôde absorver seu corpo dentro da Ordem Divina, útil e capaz à procriação! Deste modo, as almas feitas e livres, porém, sem corpo, não mais necessitam formá-

-lo pelos vapores através de séculos, mas criam-no pelo caminho mais curto, num corpo constituído de todas as necessidades.

  1. Para tudo isto são precisos: muito tempo, muita sabedoria, mui- ta paciência e uma força infinita! Como não podeis — e muito menos Eu — deixar de pensar e formar ideias, o ato criador prossegue sempre; pois não é possível se pensar no Nada. Mal o pensamento se faz sen- tir, ele se apresenta como forma; assim surgindo, é ele envolvido por membrana espiritual e como objeto receptível à luz, do contrário não o poderíamos perceber. Enquanto Eu formar e projetar Minhas Ideias e Pensamentos, e vós o fazendo através de Mim, tal projeção nunca terminará. O Infinito jamais carecerá de Espaço, tampouco seremos molestados pelo tédio.

  2. Onde existe muito serviço, as incumbências são múltiplas, de

acordo com o grau de capacidade dos colaboradores. Quem houver adquirido muitas qualidades dentro de Minha Ordem terá de dirigir os mais variados serviços, assim como os que pouco houverem con- quistado terão tarefas menores. E aquele que nenhuma aptidão tiver alcançado terá de sofrer, no Além, penúria e consumação, até que se tenha capacitado pelo esforço íntimo, livre e independente, a aceitar o mais simples serviço; não se saindo bem, brevemente perderá aquilo que havia conseguido com suas faculdades reduzidas.

  1. A quem tem, ainda mais será dado, para que possua em abun- dância. Quem nada tiver perderá o que já possuía, e seu destino será:

noite, treva, fome, miséria e toda sorte de sofrimento, até que se pron- tifique a se tornar ativo dentro de si mesmo, para assim ser admitido a um serviço progressivo.

  1. Por isto, sede esforçados aqui, não vos deixando ofuscar pelos te- souros do mundo, que desaparecerão como forma material da Criação; acumulai, ao invés, os bens espirituais que durarão por toda a Eterni- dade! Sede mordomos prudentes na morada de vossos corações; quanto maior número de bens espirituais lá tiverdes acumulado, tanto melhor passareis no Além. Quem em vida agir com parcimônia, será responsá- vel se encontrar as despensas de seu coração inteiramente vazias.

  2. Aqui é fácil acumular-se, pois tudo que é feito de boa vontade por amor a Deus e ao próximo, será convertido em ouro puro. No Além, todavia, será preciso conquistar e pagar com o ouro puríssimo do esforço interno. E isto, Meus amigos, é difícil naquele Reino onde não existem minas de ouro e prata materiais.

  3. Aqui vos é possível transformar em ouro os detritos da rua, po- dendo com isto comprar o Céu, caso vosso coração seja honesto no momento da compra. No Além, ser-vos-á possível, somente, produzir algo de nobre, com vosso mais puro sentimento, empreendimento mais complicado que transformar aqui, o ordinário pedregulho em ouro. Quem tiver produzido, em vida, grande quantidade deste metal através de obras boas e nobres, não sofrerá necessidades posteriores; pois um grão de areia deste nobre metal, reverterá, no Além, num bloco imenso, fornecendo provimento correspondente.”

  1. AVERDADEIRAAPLICAÇÃODOAMORAO PRÓXIMO

  1. (O Senhor): “Neste momento vejo surgir um pensamento malé- volo dentro de alguns, insuflado por Satanás. Ei-lo: Empregastes muito esforço na aquisição de vossos bens, para vós e vossos descendentes, e agora devereis esbanjá-los com pessoas que passaram sua vida no ócio?! Que trabalhem para ganhar o pão convosco, que lhes será facultado à medida de seu mérito! Quem não quiser trabalhar, que sucumba qual cão em plena rua!

  1. Afirmo-vos ser maldoso tal pensamento! Como poderia um cego trabalhar? Todavia, é ele vosso irmão com os mesmos direitos de viver que vós, possuidores dos cinco sentidos! Como deveriam trabalhar os pobres, velhos e as crianças fracas de pais indigentes, desprovidos de forças? Entrevados e aleijados deveriam, acaso, procurar um ganha-pão convosco que lhes seria pago o mais reduzidamente possível?!

  2. Como poderiam trabalhar aqueles que, dia a dia, procuram colo- cação, sem encontrá-la?! Sempre ouvem a mesma desculpa de não haver trabalho, no momento. Entretanto, vosso pensamento mau manda que procurem noutra parte, onde ouvirão a mesma justificativa! Tais pes- soas, finalmente, tornam-se mendigas que insultais, chamando-as de vadias. Um ou outro, então, pratica o roubo; logo é preso por vós como animal furioso, maltratado e depois atirado ao cárcere. Um terceiro até se torna assassino ou, no mínimo, um temido assaltante. Conseguindo prendê-lo, será condenado, encarcerado e morto de modo cruel.

  3. Eis os efeitos de vossos maus pensamentos que, desde sempre,

foram insuflados pelo príncipe das trevas. Isto não mais pode continuar, pois tem sua origem no inferno e não deve surgir em vossas almas.

  1. Não exijo que distribuais todas as vossas posses com os pobres, por serdes Meus discípulos; deveis tornar-vos sábios administradores da fortuna que vos foi confiada, a fim de que os pobres não passem misé- rias e necessidades quando vos abordarem.

  2. Vede nosso amigo Ebahl de Genezareth. Desde que é hospedei- ro acolheu milhares de pobres daqui e do estrangeiro, sem relutância ou receio em virtude de sua família; todavia, sua fortuna não dimi- nuiu! Pelo contrário, é tão grande que facilmente poderia adquirir um imenso reinado. Entretanto, apenas lhe dá importância pelo motivo de poder auxiliar mais e mais aos necessitados. Preocupa-se com sua família e empregados, no sentido de que possam tornar-se fortes no conhecimento de Deus, Único e Verdadeiro; em compensação, Eu Me incumbo de tudo e de todos, e vos garanto que jamais algo fal- tar-lhes-á.

  3. Aos receosos, entrego a preocupação doméstica e jamais cumu-

larei seus celeiros com trigo e grão, e sua lagariça não transbordará de

vinho. Suas hortas não demonstrarão o acúmulo de Minha Bênção, seus lagos não serão turvados por grande quantidade de peixes, e seu gado será tampouco o mais gordo do país. Conforme se dá, receber-se-

-á! Quem manifestar confiança fraca, colherá de acordo com ela! Darei a todos à medida de sua confiança e fé, frutos do amor para Comigo e com o próximo.

  1. Sede, por isto, sempre misericordiosos, que encontrareis Mise- ricórdia Comigo! Minha Atitude convosco corresponderá àquela que usardes para com o semelhante. Aconselho-vos serdes prestativos, exce- der-vos na caridade, amar-vos como Eu vos amo, e demonstrareis, ao mundo, que sois realmente Meus discípulos e em espírito Meus verda- deiros filhos.

  2. A finalidade de todos se concretiza na prática do amor em vida, para a grande missão em Meus Céus. Lá, apenas o amor tudo fará, e a sabedoria que não tenha sua origem na chama do amor, jamais será acolhida no Céu, portanto, também, nada lhe será dado fazer!”

  1. OAUXÍLIO MONETÁRIO

  1. (O Senhor): “Quem de vós possuir muito dinheiro, não deve emprestá-lo aos que lhe possam devolvê-lo em época determinada, pagando-lhe juros elevados, mas aos pobres, impossibilitados de resti- tuí-lo de qualquer forma; assim agindo, terá crédito Comigo, que lhe devolverei capital e juros, dez vezes mais em vida e cem vezes no Além. Quem o emprestar unicamente àqueles que, em tempo cumprirem as exigências ou são obrigados a fazê-lo por ordem judicial, terá recebido seu prêmio de modo completo, não precisando aguardá-lo de Minha parte, pois não Me prestou serviço e sim, ao mundo e a si próprio.

  2. Certamente alegareis: ‘Emprestando-se, a juros, a quem se acha

em dificuldade não deixa de ser uma atitude caridosa; pois o outro assim se tornou rico e, com facilidade, pode devolver capital e juros, enquanto o credor arriscou-se a perder sua fortuna numa especulação duvidosa. Já que auxiliou o pedinte, Deus, com toda Sua Sabedoria, não poderá criticá-lo quando aceitar o que de direito. Primeiro, por ser

o credor pessoa com as mesmas obrigações para com terceiros; segun- do, pode se dar o caso de ser o dinheiro emprestado, sua única posse a lhe facultar os meios de subsistência. Se não exigir a devolução, de que modo viverá? Poderia, acaso, o devedor querer ficar com a importância, quando lhe proporcionou grandes lucros e além disto, não ignora ter sido ela a posse única do prestativo credor?!’

  1. Eis Meu Parecer: o rico que for abordado por um amigo em dificuldades, não deve privá-lo neste sentido. Emprestando a juros pres- critos por lei, terá feito uma obra de Bem que terá seu mérito também no Céu. De modo semelhante é obrigação do devedor não só restituir a importância com os juros; se o lucro foi considerável, deve dividi-lo espontaneamente com o amigo que lhe socorreu. Este, porém, nunca deve exigi-lo!

  2. Ninguém é por Mim obrigado a emprestar a um pobre, incapaz de poder empregar uma soma vultosa, porquanto teria assim esbanjado seus bens e ainda dado oportunidade ao pobre, a satisfazer seus apetites. Tal obra não seria nem boa, nem má, porém tola, portanto não agrada- ria ao Meu Amor e muito menos à Minha Sabedoria.

  3. Se uma pessoa entendida no negócio, mas que, em virtude de maus resultados, tenha se tornado pobre, não deve ser privada no que pede, mesmo não havendo certeza de reaverdes o capital, nem os juros. Se o outro obtiver sucesso em sua empresa, saberá, como vosso irmão,

o que fazer, pois tem as mesmas obrigações que vós.

  1. Caso não lhe seja possível devolver a importância, não vos com- pete zangar-vos com ele, ou procurardes reavê-la dos seus descendentes. Tal atitude seria inclemente e contra a Minha Ordem. Se filhos e netos se tornaram ricos, farão bem pagando a dívida contraída por seu pai ou avô, para com amigo tão humanitário, fazendo jus à Minha Benevolên- cia. O amigo, por sua vez, também saberá como agir com tal importân- cia, por amor a Mim e ao próximo.

  2. Se, portanto, afirmei que deveis emprestar vosso dinheiro aos que não vos podem devolvê-lo, queria apontar o que acabo de exempli- ficar. O que fica abaixo ou acima disto seria tolo ou prejudicial, logo, grave pecado contra o amor ao próximo.”

  1. OAUXÍLIOJUSTOEOAUXÍLIO ERRADO

  1. (O Senhor): “Ser útil é pois o grande lema em todas as esferas do Infinito, tanto no Reino da Natureza quanto no dos espíritos. Os habitantes do inferno também entendem do assunto, apenas divergem grandemente em sua aplicação; lá, afinal, todos querem ser obsequia- dos. Caso um venha prestar serviço a outrem, fá-lo apenas aparente- mente, visando seu amor próprio e procurando enganar ao pedinte, para em época oportuna, dele se aproveitar.

  2. Uma alma infernal enaltece seu superior, do mesmo modo que uma certa espécie de aves de rapina age com as tartarugas. Suponhamos que um gavião veja o esforço da tartaruga para sair do brejo à terra, onde tenciona saciar sua fome com ervas. O gavião esfaimado, amavel- mente, tira-a do brejo e condu-la à terra seca e verdejante. A tartaruga de pronto se entrega a saciar sua fome, enquanto ele a observa por certo tempo e, de leve, experimenta a dureza de seu casco. Não lhe sendo possível bicar um pedaço de carne com seu bico afiado, ele deixa que ela paste até que se torne mais destemida, esticando sua cabeça para fora da proteção cascuda, na ânsia de ervas fresquinhas.

  3. Percebendo isto, o gavião pega a cabeça vulnerável da tartaruga,

com suas garras, carrega-a às alturas até que depare em baixo, um solo pedregoso. Imediatamente solta-a e ela se espatifa sobre a rocha, en- quanto o gavião que acompanhou a cena, velozmente se atira à vítima e começa a encher seu estômago com o prêmio de sua prestimosidade. Tendes aí um quadro nítido do zelo diabólico, em querer ser útil!

  1. Assim, todo favor mais ou menos egoístico é semelhante às gen- tilezas do inferno e impossível ter ele valor diante de Mim e em Meus Céus. Somente um serviço desinteressado é divino, tendo seu prêmio verdadeiro e completo.

  2. Se quiserdes prestar serviços reais, deveis agir por amor e verda- deira fraternidade usual nos Céus. Se alguém vos pedir um obséquio, efetuai-o com alegria e amor, não perguntando antes pelo pagamento; tal atitude é comum entre pagãos, que desconhecem o Verdadeiro Pai no Céu e buscam seus costumes nos animais. Provam isto os egípcios,

cujo primeiro mestre que os levou a pensar era um touro, razão pela qual ainda hoje lhe rendem homenagem.

  1. Se alguém tiver prestado bom serviço, não deves indagar-lhe: Amigo, que te devo? Mas recompensá-lo da melhor maneira possível, manifestando teu amor e alegria. Vendo tua atitude, ele te abraçará com as palavras: Nobre amigo, apenas fiz um pequeno obséquio e queres pa- gar-me tão regiamente? Basta a décima parte, que aceitarei apenas como prova de tua amizade. Se ambos falarem desta forma, com sinceridade e amor, não serão ipsofactoverdadeiros irmãos em espírito?! Só assim o Verdadeiro Reino de Deus se estabelecerá convosco, regendo-vos de modo celestial com o cetro da Luz e da Graça.”

  1. ADOUTRINADEMOYSÉSEADOUTRINADO SENHOR

  1. (O Senhor): “Não basta somente saber e crer o que seja bom, justo e verdadeiro pela Ordem Divina e de todos os Céus; preciso é que se aja por amor e pela alegria do coração que o Reino de Deus e Sua Justiça regerão entre vós, tornando-vos verdadeiros filhos do Pai Celeste.

  2. Acaso alguém tiraria proveito da inteligência e compreensão, persistindo em seu ponto de vista errôneo? Não seria tolo aquele a quem se desse um palácio onde deveria desfrutar com sua família, o máximo conforto e que, embora se alegrasse com o estilo agradável e rico, vives- se reclamando constantemente as grandes inconveniências que se lhe deparam, preferindo continuar em sua velha, pequena e suja morada?!

  3. Se este homem não é tolo, não haverá tolo no mundo. Muito mais ignorante porém, é quem possui Minha Doutrina e a reconhece como eternamente verdadeira, todavia continua agindo qual boi a pu- xar sua velha carroça!

  4. Digo-vos a todos: Bem suave é o jugo que deposito em vós e mui leve o peso que tendes a carregar. Seu porte requer apenas um pequeno esforço e quem não o carregar, será culpado das amarguras e misérias. Tratai-vos com justo amor que descansareis em travesseiros macios e su- aves. Se preferis pedras sob vossas cabeças, ser-vos-ão dadas; ninguém,

no entanto, deve queixar-se na manhã da Vida, estar sua cabeça ferida e magoada.

  1. Se tens dois servos, um honesto, outro desonesto, não serás sumamente tolo dispensando o primeiro por tê-lo admitido há pouco, enquanto o falso sempre te traiu? Por isto desfazei-vos de todos os antigos preconceitos, pois não se aplicam à Doutrina pura do Céu; não somente deixa de ser um remendo para uma roupa velha e ras- gada, mas sim, é uma veste nova e completa à qual a antiga tem de ceder lugar.

  2. Em a roupa velha não compreendo Moysés e os profetas — ouro puríssimo provindo do Céu — mas vossas instituições munda- nas e as leis do Templo, de nenhuma utilidade. Pois a tentativa de se pregar um pedaço novo no grande rombo da roupa velha, não surtiria efeito, porquanto o tecido demasiadamente frágil, não suportaria se- quer um ponto.

  3. Moysés deu, para aquela época, uma constituição para todas as necessidades caseiras e misérias humanas do povo israelita. Foi ela, to- davia, deturpada; além disto, não serve para Minha Doutrina, mesmo em seu sentido inalterado. Não é possível pensar em colheita, quando o solo está sendo arado; uma vez que o trigo esteja maduro, contrata-se ceifadores que não necessitam de arado. Quer dizer: Moysés preparou o solo, os profetas semearam e agora chegou a época da colheita, onde não mais se necessita do profeta com o arado em mãos. Se bem que vimos recolher nos celeiros o que for maduro, o instrumento de Moy- sés vos será entregue para afrouxardes novamente a terra, tornando-a acessível para as sementes puras do Céu. Além disto, serão convocados os guardas destinados a impedir que venha o inimigo e semeie o joio entre o trigo nobre.”

  1. OJOIOENTREO TRIGO

  1. (O Senhor): “Muito embora a terra seja cultivada, a semente pura lançada nos sulcos e os guardas vigiando o campo, deparo desde já uma quantidade de joio entre o trigo! Como é isto possível?

  1. Vede a falta dos guardas: adormeceram à noite, pois pensaram: ‘Quem se atreverá a invadir o campo tão bem vigiado?’ E enquanto dormiam, aproximou-se o inimigo sorrateiramente e rápido, lançou sua semente má sobre o campo.

  2. Quando, de manhã, os vigias perceberam o joio entre o trigo, naturalmente correram para transmitir ao dono: ‘Senhor, lançamos a semente pura no solo limpo e vigiamos o campo maravilhoso; de que adiantou?! O inimigo veio traiçoeiramente e espalhou uma quan- tidade de joio entre o trigo! Está germinando em profusão! Devemos arrancá-lo?’

  3. Qual será a resposta do dono? Ei-la: ‘Como não vigiastes du- rante a noite — época de experiência na vida de todas as criaturas — o príncipe das trevas facilmente pôde espalhar seu joio entre o trigo. Deixai que ambos cresçam até a colheita, quando diremos aos ceifeiros: Juntai primeiro o trigo e guardai-o em meus celeiros; em seguida colhei o joio em molhos, fazei fogo e queimai-os para que suas sementes não caiam de novo à terra, prejudicando-a!’ Ansiosos pela compreensão des- te quadro, indagais em vosso íntimo: Mas como?

  4. Afirmo-vos ser fácil a compreensão; o solo é semelhante aos co-

rações das criaturas desta Terra; o trigo puríssimo, Minha Doutrina; o arador e semeador sou Eu Mesmo e vós, Comigo. Os guardas convoca- dos também sois vós e aqueles que fordes determinar em Meu Nome. O Senhor sou Eu e os celeiros, Meus Céus. Satanás é o inimigo e seu joio, o mundo mau com todas as suas paixões perversas e mortíferas. Os cei- fadores recém-convocados são os mensageiros que em tempo desperta- rei nos Céus, enviando-os para recolherem o trigo e queimarem o joio, evitando venha deturpar campo e trigo. Tereis compreendido isto?”

  1. Respondeis: “Sim, Senhor; mas poderias facilmente impedir, com Tua Onipotência e Onisciência, a aproximação do inimigo mes- mo se formos vencidos pelo sono durante a noite de nossa vida de provação.”

  2. Explico-vos: “Minha Onipotência não pode e não deve agir onde se trata do desenvolvimento livre de Meus filhos. Minha Atitude para convosco é tão tolhida, como a vossa para com outros. Dou-vos o

campo, o arado, o trigo e convosco os ceifadores; o trabalho, — depen- de de vós. Se durante a tarefa vos faltarem as forças necessárias, sabereis que vos aparelharei sempre que Me pedirdes em vossos corações, ani- mando-vos prosseguir com novas forças. Eu, porém, não posso e não devo trabalhar por vós! Se assim fizesse, a liberdade e independência de vossa vida não teria proveito; seríeis apenas máquinas; nunca, porém, criaturas livres, com pensamentos e ações independentes. Por esta ex- planação compreendereis ser o recíproco servir, condição primordial de toda a vida. Assimilai-o bem!”

  1. Diz Cirenius: “Senhor, Tu és eternamente Verdadeiro! Tuas Pa- lavras são claras, Verdade e Vida! Somente agora começo a viver, pois tenho a impressão de haver despertado dum sono profundo. Só Deus pode externar-Se como Tu, porquanto pessoa alguma pode saber o que nela se passa, o que a anima e de que forma deve cultivar sua vida. Nós, Senhor, estamos bem aparelhados por Ti; nossos descendentes terão, não obstante todo zelo, de lutar com toda sorte de joio, entre o trigo de Teu Campo. Quanto a mim, o inferno não encontrará facilidade em semear sua influência no solo. Desejava, todavia, saber de que forma ele consegue realizá-la.”

  1. OSPENSAMENTOSESUAS REALIZAÇÕES

  1. Digo Eu: “Muito fácil. Já vos demonstrei ser preciso que cada criatura caminhe pela estrada da lei, caso tencione alcançar a liberdade e emancipação de seu ser e vida. Existindo tal lei, claro é haver uma tendência na pessoa em querer infringi-la, mesmo só por momentos. Assim, espíritos foram projetados por Mim, antes da Criação, o que já vos expliquei de forma tal a não deixar dúvidas; pois vós mesmos seguis a mesma ordem ao criardes algo.

  2. Primeiro, projetais pensamentos variados; daí surgem ideias e formas. Estas, tornando-se mais concretas, recebem membrana através da vontade. Nesse estado, perduram numa vida espiritual indestrutível que podereis chamar à vossa presença, figuradamente, sempre que isto for de vossa vontade. Quanto mais tempo fixais tal ideia como objeto

formado, tanto maior é vossa afeição para com ele; surge o amor para a forma espiritual. O amor aumenta, se inflama e através do calor vital e sua luz, a ideia se desenvolve mais perfeita, completa e bela; começais então a descobrir utilidades variadas, resolvendo até sua realização.

  1. No princípio, fazeis desenhos em pergaminho até que sejam idênticos à ideia fixada. Desde que em nada divirjam ideia e esboço, consultais os peritos de que forma se poderia realizar a obra. Eles es- tudam o projeto e chegam à conclusão de serem precisos alguns anos para a realização, e o preço será fixado. Em seguida firmais o contrato, a obra é iniciada e, mais tarde, vossa ideia original estará pronta para a admiração e utilidade de milhares.

  2. Deste modo construís casas, máquinas, cidades, castelos, navios e outras coisas. De igual forma Eu crio Céus, mundos e tudo que com- portam. Naturalmente exige a criação dum mundo, mais tempo que necessitais para construirdes uma cabana, uma casa, etc; já tendes a matéria pronta, enquanto Eu preciso criá-la e extraí-la da imutável con- sistência de Minha Vontade.

  3. Poderia criar de momento u’a matéria qualquer, sim, até fazer surgir um mundo inteiro; mas sua consistência seria difícil porquanto não foi por mim devidamente alimentada até sua maturação. Quando uma ideia criadora tiver sido suficientemente nutrida e sazonada através de Meu Amor e Sabedoria, aumentará mais e mais em intensidade e consistência.

  4. Isto já se dá convosco no manejo com a matéria feita. Uma casa construída num dia, não poderá desafiar as intempéries dum século. Em edifícios cujas ideias deixastes sazonar completamente, e através de seu reflexo conseguistes maior clareza para transformar tal forma numa realização duradoura e perfeita, vossas construções poderão quase con- correr às pirâmides, conhecidas dos mortais cultos, desafiando também todas as tempestades, sem que venham sofrer dano.

  5. Se os velhos faraós não tivessem estudado com persistência a ma- neira pela qual era possível edificar tais monumentos, como depósito de suas artes e ciências ocultas, que milênios não destruíram, jamais os teriam realizado.

  1. Mais tarde, as criaturas aprenderam a pensar com mais facilida- de, desenvolvendo uma ideia da soma de seus pensamentos que, muitas vezes, era bem complicada. Como, geralmente, as ideias não iam sendo sazonadas com a devida paciência, as obras também eram passageiras, pois o fácil se torna fácil, o difícil, porém, custoso.”

  1. OSURGIRDA MATÉRIA

  1. (O Senhor): “Quando — antes da origem de todo ser — proje- tei Minhas Ideias sazonadas como espíritos, e os cumulei de Minha For- ça, de sorte que começaram a pensar e querer, preciso foi que lhes fosse demonstrada uma ordem pela qual deveriam aplicar o livre-arbítrio, a fim de serem capazes de agir livremente, incutindo-lhes a tentação do não cumprimento da ordem estabelecida. Somente esta tentação lhes facultava uma verdadeira sensação de vida, pela qual chegavam a dedu- ções, preferências e à vontade firme de agir.

  2. Fácil é compreender-se que entre os primeiros espíritos surgisse

certo joio; portanto, a tentação a muitos desequilibrou, endurecendo-

-os nesta tendência crescente e formando deste modo a base para a Criação material dos mundos.

  1. Primeiro, surgiram os principais sóis centrais que deram origem a todos os outros inúmeros sóis e corpos cósmicos, contendo tudo que já sabeis.

  2. Tudo que ora é matéria foi em outras épocas espírito que, por livre e espontânea vontade, se afastou da boa Ordem de Deus, positi- vando-se na reação àquela. É, portanto, a matéria, nada mais que es- píritos em julgamento através de sua própria teimosia; falando mais explícito, é ela a membrana mais bruta e pesada que envolve uma pro- jeção espiritual.

  3. Esta projeção espiritual, todavia, não pode tornar-se propria- mente matéria dentro do invólucro duro e pesado, mas nela permanece seja qual for sua qualidade. Sendo mui rija, a vida espiritual dentro dela é igualmente endurecida, algemada, e não pode manifestar-se e desen- volver-se, caso não lhe venha socorro externo.

  1. Na pedra, por exemplo, a vida somente alcança uma externação quando for amolecida em longas épocas por chuvas, neve, orvalho, sa- raiva, raios e outros elementos que a tornam sucessivamente mais po- rosa. Por este processo se evapora parte da vida espiritual como éter; outra, cria uma nova membrana mais leve, no início em forma de plan- tas delicadas do mofo e musgo. No decorrer do tempo, insatisfeita com tal invólucro, a manifestação da vida, já mais liberta, se concentra e cria uma nova membrana que lhe facilita movimentação mais livre e independente.

  2. Enquanto a membrana for macia e tênue, a manifestação es-

piritual se sente à vontade, nada desejando de melhor. A ação interna dos espíritos, porém, faz com que o invólucro delicado se torne mais rígido, porquanto tende a expulsar a pressão da matéria. Por isto a vida espiritual procura elevar-se, formando assim a haste da erva, o tronco da árvore, tentando proteger-se do sucessivo endurecimento provindo da terra, através de anéis e cortes cada vez mais repetidos. Como, final- mente, desta atividade não podem esperar salvação na estagnação com- pleta, os espíritos comprimem o tronco o mais possível, fugindo para os pequeninos galhos, hastes, folhas e afinal para junto da flor. Isto tudo, porém, também se tornando em breve mais duro e reconhecendo ser inútil todo esforço, os elementos começam a se encapsular com matéria mais afim à sua natureza.

  1. Deste modo aparecem frutos e sementes. Com isto, a parte mais egoística dos elementos libertos duma planta não lucra muito, pois aquilo que se encapsulou num invólucro mais resistente é obrigado a acompanhar a semente ao ser lançada na terra úmida e vivificadora. A outra parte, mais paciente, que se submetera a permanecer na matéria mais inferior, como sentinela e portadora dos elementos mais ativos, amedrontados e impacientes, em breve apodrecerá, passando a uma es- fera mais elevada. Aquilo que for assimilado como fruto pelos animais e homens, será aproveitado em sua parte mais grosseira na formação e alimento da carne; a parte mais delicada é absorvida pelo elemento espiritual que fortalece e vivifica o centro nervoso e a parte mais nobre se torna substância psíquica.”

  1. OEGOÍSMOCOMOORIGEMDA MATÉRIA

  1. (O Senhor): “Se analisardes mais de perto este progresso, não encontrareis dificuldade em reconhecer a verdadeira causa do joio, no campo limpo da Vida. Tudo que se denomina de mundo e matéria é a oposição necessária da verdadeira Ordem espiritual de Deus, pois foi preciso depositá-la como instigação, para despertar o livre-arbítrio nas ideias bem formadas, projetadas por Deus como seres independentes. Por tal razão, deve ser considerado o verdadeiro joio no campo puro e justo da Vida.

  2. Muito embora ter sido o joio, no início, uma necessidade para

a constatação duma vida espiritual completamente livre, preciso é que fosse finalmente reconhecido como tal, pelos seres em liberdade, e ex- pulso por conta própria, pois não pode manter-se com ela. Se bem que é um meio necessário para certa finalidade, nunca se pode a ela unir.

  1. A rede, por exemplo, é também um meio indispensável para a pesca; acaso deveria ser tostada no fogo e servida como alimento?! Uma vez que tenha prestado serviço na redada, guarda-se a mesma, utilizan- do o resultado.

  2. Vimos, portanto, ser imprescindível a tentação, como violação dum mandamento; é o despertador da capacidade do conhecimento e do livre-arbítrio. Enche a alma com desejos e alegrias até que tome conhecimento da tentação, sem a ela submeter-se, mas sempre em com- bate com a mesma vontade livre, que nela despertou a infração. A alma, então, aplica-a como meio, nunca, porém, como finalidade.

  3. O odre também é somente o receptáculo para a conservação do vinho. Quem poderia ser tão tolo em furá-lo, sabendo que bastará abrir em lugar certo, a fim de conseguir retirar o conteúdo?!

  4. O joio, ou seja a tentação para infringir uma lei, é algo inferior e jamais poderá tornar-se fator principal. Quem assim agisse se asseme- lharia a um tolo, tentando saciar-se com as panelas enquanto joga fora os alimentos.

  5. Em que consiste o joio, por cujos detritos a vida deve ser es- trumada? Quais as variedades de tentação ocultas na forma animada?

Ei-las: amor-próprio, egoísmo, orgulho e, finalmente, domínio. Através do amor-próprio a forma animada se concentra, ávida por tudo assimi- lar, mas também o conserva de tal modo que a ninguém possa benefi- ciar, receando vir a sofrer alguma carência. Por esta retenção daquilo que absorve da Ordem Divina, alimentadora e conservadora, manifesta-se na entidade, uma concentração crescente, solidez e prepotência tempo- rária e como efeito, um especial agrado para consigo mesma. Tal ma- nifestação é na real acepção e significado da palavra o egoísmo, que se esforça por se elevar com todo empenho, poder e meios, mesmo os mais condenáveis, acima dos outros, julgando-se sumamente importante.

  1. Após a criatura egoísta ter alcançado o que almejava, fita embe- vecida e cheia de desprezo aos seus semelhantes. O desprezo, por sua vez, assemelha-se ao asco que um estômago repleto sente da mesa farta e podia ser classificado por orgulho, que muita matéria vil contém, apresentando um campo da pior erva daninha.

  2. O orgulho, porém, sente uma insatisfação constante, pois sem- pre observa que nem todos lhe rendem seus préstimos. Analisando os meios ao seu alcance, verifica obter resultado, caso demonstre generosi- dade. Dito e feito! Como o número dos necessitados sobrepuja ao dos abastados, seu jogo é fácil: em breve as pequenas potências famintas o rodeiam e se deixam dominar, porquanto, também percebem o poder que deriva do orgulho. Obedecem-no completamente, pelo que a força do orgulho aumenta, tratando em atrair mais outros elementos. Tal insaciável avidez é, no verdadeiro sentido, o domínio mais pernicioso, destituído de qualquer sentimento de amor.

  3. Na dominação se expressa a matéria mais tenaz, e um planeta

rochoso é inteiramente munido de tais elementos, fator que podeis ob- servar materialmente nos burgos e fortalezas, nos quais se ocultam os soberanos. Suas muralhas medem várias braçadas, onde se postam os lutadores, prontos para impedir seja rompida a matéria, perturbando o descanso do soberano orgulhoso. Ai do fraco que se atrevesse a atirar apenas uma pedra, pois seria imediatamente aniquilado.

  1. Não falo daqueles regentes e soberanos destinados por Deus a diminuir o orgulho dos cidadãos, como colunas e mantedores da hu-

mildade, modéstia, amor e paciência; pois são levados pela Vontade de Deus a serem o que Ele determinou como instrumentos a melhorarem os povos. Falo apenas da dominação em geral de cada espírito e criatu- ra. Bem que houve regentes tiranos; surgiam num povo, rebelando-se contra chefes designados por Deus, como fez Absalom contra seu pai, David. Tais homens não foram convocados por Deus, por serem maus e um verdadeiro joio, figura correspondente à matéria mais grosseira.

  1. Tu, Cirenius, e o Imperador sois aquilo que determinei pela Minha Vontade, embora ainda pagãos! Mesmo assim, vos considero mais que muitos reis, que deveriam ser guias dos filhos de Deus, mas se tornaram seus assassinos física e espiritualmente, razão pela qual lhes serão tirados trono, coroas e cetros e entregues a vós, mais sábios. Fiz este aditamento a fim de que tu, Meu Cirenius, não julgasses serdes, tu e teu sobrinho, usurpadores diante de Mim. Prossigamos, pois, na consideração do joio no campo limpo.”

  1. COMOSURGIRAMOSSISTEMAS SOLARES

  1. (O Senhor): “Assim como existem criaturas que pelo amor-pró- prio, egoísmo, orgulho e, como consequência, dominação, se encheram de tantos elementos materiais, que nem em milhões de anos consegui- rão deles se desfazer, em épocas remotas se deu o mesmo com espíritos primitivos que, pela tentação existente, se tornaram egoístas, orgulho- sos e dominadores. O resultado foi sua transformação material.

  2. Isolaram-se em grandes núcleos, em distâncias por vós incalculá- veis. Centro algum tencionava ouvir, ver ou saber do outro, para poder usufruir do amor-próprio. Em tal concentração, constante e crescente, no amor-próprio e egoísmo, no orgulho cada vez mais potente e na do- minação absoluta, as inúmeras formas de vida se reduziram, pela lei de gravidade, a um bloco imenso, dando causa ao Sol central duma galáxia.

  3. Existem no Espaço Infinito, inúmeros de tais sistemas ou ga- láxias onde um Sol central serve de ponto de atração para incontáveis mundos cósmicos. Estes sóis centrais são precisamente as comunidades de espíritos concentrados, dos quais no decorrer dos tempos, surgiram

todos os enxames globulares, regiões solares, sóis centrais adjacentes, sóis planetares, planetas, luas e cometas.

  1. De que forma isto se deu? Vede, no primitivo Sol central a pressão se tornou por demais poderosa para muitos dos grandes es- píritos. Enraivecidos se incendiaram, libertando-se de sua primeira opressão. Fugindo com o grupo primitivo para zonas infinitamente distantes, perambularam certo tempo livres e inofensivos pelo Espaço, demonstrando boa vontade para transferir-se à boa ordem espiritual. Como, porém, não lhes era possível desfazer-se do elemento ‘amor-

-próprio’, concentraram-se de novo em um bloco rígido, dando causa a um Sol central de segunda categoria, num dos inúmeros enxames globulares.

  1. Em tal Sol central de segunda categoria, os espíritos principais se irritaram no decorrer dos tempos, em virtude da crescente pressão; inflamaram-se, libertando-se em grandes massas. Também manifesta- ram inclinação para um transporte espiritual; apresentando, porém, grande prazer consigo mesmos e não querendo desfazer-se inteiramente do amor-próprio, de igual modo concentraram-se em grandes bólides, dando origem aos sóis centrais de terceira categoria.

  2. Mas também aí se deu o mesmo fato: os espíritos mais elevados, em minoria, eram fortemente imprensados pelos inferiores, em número incalculável. Irritaram-se em breve, separando-se aos milhões do grupo comum, com o firme propósito de se modificarem. Durante épocas inimagináveis flutuaram separados por grandes distâncias, como massas nebulosas.

  3. Recordando o peso anterior, tal liberdade muito lhes agradava, até que sentiram vontade de alimento que procuraram no éter, isto é, uma saturação exterior. Esta saturação, forçosamente, tinham de en- contrar; pois, a avidez é qual magneto nórdico que atrai, com ímpeto, todo ferro e metais que contêm este mineral.

  4. Qual era a consequência inevitável? Sua natureza começou, pou- co a pouco, a se consolidar, despertando em seguida o egoísmo com seu séquito, produzindo uma contração até se formar outro bólide, no que são precisos inúmeros anos terráqueos.

  1. Que representa um tempo, por mais imenso, diante de Deus Eterno? Afirmou um vidente de épocas remotas: Mil anos são para Deus como um dia. Eu acrescento: Milhões de anos para Ele repre- sentam nem um instante! Ao preguiçoso, as horas se tornam dias, e os dias anos de tédio. Ao esforçado e ativo as horas se reduzem a átimos, e semanas a dias. Deus, porém, é, desde eternidades, Pleno de Atividade Infinita, e a feliz consequência disto é que épocas imensas Lhe repre- sentam momentos isolados — daí ser a completa formação dum Sol apenas coisa diminuta.

  2. Pela contração acima mencionada, surgiram e ainda surgem os

sóis planetares, iguais a este que ilumina nosso planeta. Essa categoria de sóis é de natureza mais delicada e suave que os sóis centrais; no entanto, contêm massa enorme de matéria como efeito do egoísmo de bilhões de espíritos que lhe deram origem. Aos elementos mais nobres e evoluídos, a pressão dos espíritos inferiores, completamente integrados na matéria, torna-se com o tempo, por demais pesada e insuportável. A consequência é — como nos outros sóis — erupções sob erupções, pelo que se libertam os melhores.

  1. Então neles desperta a vontade firme de regresso ao estado primitivo de perfeição, pelo cumprimento da Ordem Divina. Muitos combatem a tentação interna e se tornam anjos originais, sem neces- sitarem uma encarnação. Os que desejam encarnar no Sol, ou talvez na Terra, poderão fazê-lo. Pode até mesmo acontecer tal fato num Sol central, porém, não de modo tão frequente como neste nosso Sol que faculta luz à Terra, provindo da grande atividade de seus espíritos.

  2. Todavia alguns grupos não conseguiram desligar-se do egoís- mo, não obstante os melhores propósitos, caindo novamente nesta ten- tação, que atraiu outros elementos.

  3. Eis que se tornaram visíveis como cometas embaçados e mu- nidos duma longa cauda. Que representa esta? A fome voraz dos espí- ritos já materializados e ávidos pela saturação. Tal avidez atrai do éter a matéria afim, e tal cometa, um compêndio de elementos grosseiros, perambula pelo Espaço por muitos milênios à procura de alimento qual lobo esfaimado.

  1. Por esta constante sucção, ele se torna mais opaco e pesado. Com o tempo é novamente atraído pelo Sol, do qual se afastou, de sorte a começar a girar em seu redor. Obedecendo tal ordem, transforma-se ele em planeta.

  2. Como se encontre mais perto do Sol que anteriormente quan- do cometa, dele também recebe alimento, que ao mesmo tempo re- presenta uma isca para atrair o fugitivo o mais possível, até integrá-lo novamente no astro. Tal desejo dos espíritos primitivos do Sol não pode realizar-se com os grandes planetas, entre os quais se pode contar a Terra. Pois, muito embora os elementos presos nos planetas ainda se- jam muito materiais, conhecem a matéria solar e não sentem vontade de nele integrar-se. Se bem que lhes agrade o alimento constituído de pequeninos elementos, em absoluto querem voltar ao Sol.

  3. Acontece, às vezes, que os espíritos desertores, em seu conglo-

merado material, são atraídos para bem próximos ao Sol. A imensa atividade dos espíritos livres que circundam o astro e aos quais se deve, mormente, a irradiação luminosa da superfície, faz com que todos, con- traídos num bloco duro, sejam induzidos à máxima atividade, disper- sando-se num grande ímpeto, fugindo para longe.

  1. O resultado da atividade dos elementos dum planeta ou, pelo menos, dum cometa mais adiantado, é a dissolução brusca e total do bólide, e a salvação de bilhões e bilhões de espíritos. A maioria, já mais experiente, integra-se na justa ordem da Vida, tornando-se arcanjos e protetores úteis dos irmãos menos adiantados, como também contribui para a salvação mais rápida dos que padecem na matéria.”

  1. FORMAÇÃOEIMPORTÂNCIADA TERRA

  1. (O Senhor): “Parte de tais espíritos libertos deseja encarnar num planeta qualquer. Alguns o conseguem no Sol, num anel que mais lhes agrade; na Terra poucos se decidem encarnar por acharem tal passagem por demais difícil. Pois perdem, aqui, todas as recordações dos estados anteriores e necessitam recomeçar uma vida nova, fato que não ocorre noutros planetas e mundos.

  1. Naqueles, primeiramente, conservam os espíritos encarnados uma lembrança quimérica de suas vidas passadas, o que proporciona às criaturas de outros mundos, um conhecimento e sobriedade maiores que às da Terra. Em compensação, carecem da capacidade evolutiva numa vida liberta. Como já falei em outras ocasiões, assemelham-se aos animais terráqueos, possuidores de certa formação instintiva. Manifes- tam por tal motivo grande destreza e perfeição, impossíveis de serem imitadas pelo homem da Terra, com toda sua inteligência; tentai, po- rém, ensinar um animal algo que ultrapasse seus instintos e vereis quão diminutos os resultados.

  2. Alguns existem, aptos para aprenderem serviços simples e pesa-

dos: o boi para puxar a carroça, o cavalo, o burro e camelo para carre- garem pesos; o cão para caçar e vigiar. Eis tudo; pois a linguagem será algo quase impossível. A simples causa disto se baseia numa recordação fraca de seus estados anteriores, que prende as almas animais num jul- gamento, preocupando-se de sorte a viverem num certo aturdimento.

  1. Somente nas criaturas da Terra dá-se o caso excepcional do com- pleto esquecimento de suas vidas passadas, razão pela qual têm de reco- meçar sua existência numa ordem e formação novas, a lhes facultarem um desenvolvimento à perfeição divina.

  2. Eis por que somente pode encarnar na Terra, uma alma que te- nha origem num Sol, possuidora de todos os elementos primitivos e que já tivesse passado por uma vida solar; nesse caso, contém todas as partículas inteligenciadas da psique, necessárias à perfeição duma vida espiritualmente elevada. Casos há, em que uma alma descende direta- mente da Terra, tendo passado pelos três reinos da Natureza: pela pedra bruta atingindo todas as camadas minerais, daí ao mundo completo da flora e, finalmente, fauna.

  3. Não se trata do corpo material, e sim, do elemento psicoespi-

ritual nele oculto; o invólucro não deixa de ser também de qualidade etérea na análise; todavia, é ainda mui bruto, pesado e indolente, apre- sentando a estampa grosseira do amor-próprio, egoísmo, orgulho e do obtuso gozo do domínio mais ávido e mortífero. Tal matéria necessita ser assimilada pela substância mais pura do invólucro da alma, através